Cidades
Alagoas abandona escolas
Pão de Açúcar ? O cenário é de destruição. Nada escapou ao descaso do poder público. Salas de aula, carteiras, portas, janelas e telhado. Tudo destroçado. Livros didáticos que serviriam ao aprendizado de crianças e adolescentes sertanejos agora estão jogados e abandonados em meio à ruína. A Unidade Municipal de Ensino Ministro Augusto de Freitas Machado, em Lagoa de Pedra, na zona rural de Pão de Açúcar, virou escola fantasma. Diante dos escombros, fica difícil acreditar que há pouco tempo quase 500 alunos enchiam as salas amplas e davam vida a uma escola tida como referência no ensino fundamental da zona rural de Pão de Açúcar. ### Secretária diz que unidade será devolvida ao município A Secretaria de Educação de Pão de Açúcar, dona do prédio, diz que o colégio foi alvo de vândalos da própria comunidade de Lagoa de Pedra e até levou o caso à polícia. ?Nós tomamos ciência há cerca de um mês do que aconteceu com a escola. Imediatamente, acionamos a polícia para que as responsabilidades pela depredação sejam apuradas?, afirmou a secretária de Educação de Pão de Açúcar, Solange Machado, ao dizer que é o Estado que tem que assumir todas as responsabilidades pelo que aconteceu com a escola. Ela disse que a escola será devolvida ?oficialmente? ao município nos próximos dias, em reunião que deve ser marcada esta semana. ### De carona ou a pé, alunos se sacrificam Pão de Açúcar ? A comunidade de Lagoa de Pedra quer a escola de volta, recuperada e funcionando como nos melhores dias. Ao perceberem a presença da reportagem da Gazeta, na manhã da última quarta-feira, mães de alunos acompanhadas dos filhos aproximaram-se para ver in loco o que restou da U.M.E. Ministro Augusto de Freitas Machado. Muitas se emocionaram ao ver os escombros. Elas também reclamaram da falta de transporte para os quase duzentos alunos que foram transferidos para a Escola Estadual José Soares Pinto. Desde a transferência, em outubro do ano passado, eles estão sem o transporte escolar. Para não ver os filhos fora da sala de aula e arriscar o dinheiro do Bolsa Família, algumas famílias estão se sacrificando para pagar R$ 25 por mês para um carro levar e buscar as crianças. Para quem não tem como pagar, resta andar até a pista e arriscar uma carona. ### Falta merenda e sobram ratos Marechal Deodoro ? Em Marechal Deodoro, além do sumiço da merenda escolar do município, os quase 400 alunos da Escola Adelina de Carvalho Melo, na Ilha de Santa Rita, foram expulsos da sala de aula por uma praga de ratos. Os guabirus tomaram conta literalmente de cada sala de aula. Pelo telhado, por entre caibros e ripas, eles fazem a festa e tocam o terror na criançada, que não tem a menor condição de se concentrar nas lições dos professores. Dentro da cozinha e da despensa, eles reinam. Quando a reportagem da Gazeta visitou a escola, no início da última semana, não havia um só lugar, entre fogão, geladeira, pia e despensa, onde não houvesse fezes e urina de rato. ### Diretores apelam à prefeitura, que nada faz Os problemas de estrutura nas escolas públicas da primeira capital de Alagoas são graves e atingem quase toda a rede municipal. A Escola Eleuza Galvão Rodas, na periferia de Marechal Deodoro, só está aberta porque a diretora, Josenilda de Alcântara, ?tem pena de mandar as crianças para casa?. Segundo Josenilda, a escola há muito tempo deveria estar interditada. Sem perder tempo, ela mostra a única sala usada para reuniões e atividades socioculturais dos alunos. Em novembro passado, uma das linhas cedeu e por pouco não causou um acidente mais grave. A sala que servia também de auditório foi interditada e de lá para cá nenhuma medida foi tomada. ### Fechada há 2 anos para reforma Santana do Ipanema ? Em Santana do Ipanema, uma das principais cidades da região sertaneja de Alagoas, a Escola Estadual Ernandes Aloísio Brandão está fechada há dois anos. Interditada para reforma, as obras nunca foram concluídas. O Estado ficou devendo mais de R$ 300 mil à construtora e os trabalhos pararam. Mais de mil alunos matriculados no ensino fundamental foram prejudicados e tiveram que ser transferidos para três outros colégios de Santana do Ipanema. ?A Secretaria Estadual de Educação não tem dinheiro para continuar a reforma da escola, mas paga R$ 5 mil por mês pelo espaço alugado a uma escola particular, a Divino Mestre, para onde parte dos alunos foi transferida?, afirma Carlos Alberto Rodrigues, secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores da Educação de Alagoas (Sinteal) em Santana. ### Sala de aula é lar para casal sem-teto | FERNANDO VINÍCIUS - Repórter Estrela de Alagoas ? O casal Maria Carvalho da Silva, 39, e Ademilton Barbosa da Silva, 20, morava numa casa de taipa que não resistiu à ação do tempo. Assim que uma das paredes desabou, a dona da moradia localizada no povoado Lagoa da Serra, em Estrela de Alagoas, foi até a prefeitura e fez um pedido. Sem ter para onde ir, perguntou se poderia morar na escola situada praticamente em frente a sua casa, já que a unidade de ensino estava fechada há muito tempo. Sem uso, uma sala de aula é desde março de 2007 o lar do casal que alimenta a esperança de ter uma residência digna no terreno ainda ocupado pelos restos da antiga moradia. ### Comunidade guarda apenas recordações Estrela de Alagoas ? O sustento do casal Maria da Silva e Ademilton Barbosa, que mora numa escola no povoado Lagoa da Serra, em Estrela de Alagoas, depende mais da força dos braços do companheiro Ademilton Barbosa, trabalhador rural que encontra emprego temporário porque o período é de chuva. ?Eu vou atrás de serviço onde tiver, limpo mato, ajudo a plantar, qualquer coisa?, diz ele, frisando que poucos empregadores estão pagando R$ 15 pela diária, valor atualmente estipulado. O cabo da enxada é o meio de vida do rapaz que já estudou no lugar onde atualmente mora. O tempo apagou a pintura que identifica a unidade de ensino, mas ele lembra que se chamava Escola Municipal Antônio Borges da Silva, onde freqüentou até a 2ª série do antigo primário. ### Faltam alunos, afirma secretária Estrela de Alagoas ? Quem reside no povoado vizinho ao Lagoa do Exu, já território de Palmeira dos Índios, sabe que a Escola Francisco Claudino da Rocha está fechada há 15 anos. O agricultor João Claudino da Rocha é morador antigo do Sítio Caraíbas dos Dantas, descendente do homenageado no prédio público incorporado ao patrimônio de Estrela de Alagoas. ?Depois que lá passou a ser cidade, a escola fechou, aí a Prefeitura de Palmeira fez essa aqui, que tem o nome do meu pai, João Claudino da Rocha?, disse, apontando para o imóvel. Apesar de receber jovens e adultos em processo de alfabetização, o imóvel precisa ser retelhado para eliminar as goteiras, problema semelhante ao da Escola Manoel Regino da Silva, localizada no Sítio Pedra Vermelha, em Estrela de Alagoas. ///