Cidades
Crimes entre parentes esfacelam fam�lia
Familiares e vizinhos ainda estão chocados e não conseguem entender o que motivou a tragédia. O pedreiro Lael Lopes da Silva, de 44 anos, era tido como um homem tranqüilo. Quem o conhecia jamais imaginaria que ele fosse capaz de matar a esposa, a dona-de-casa Edileuza Maria da Silva Lopes, de 38 anos, dentro do quarto do casal, e em seguida cometer suicídio. ?Conhecia eles há mais de 20 anos, desde que se casaram, e nunca sequer ouvi discussões ou coisa parecida?, disse um vizinho que pediu para não ser identificado. A filha mais velha do casal, a universitária Elizângela Maria da Silva Lopes, 22, busca uma explicação, mas não encontra. ?Não dá para saber o que se passava dentro da cabeça do meu pai?, disse ela, em breve conversa com a reportagem da Gazeta, na porta da casa que foi palco do homicídio seguido de suicídio, na madrugada da última terça-feira, no Alto da Boa Vista, em Chã da Jaqueira. ### Em momento de fúria irmão matou irmão com enxada Se nem mesmo Deus foi capaz de perdoar o crime entre irmãos, será muito difícil para a aposentada Floriza Epifânia Alves voltar a olhar com ternura nos olhos do filho José Cícero Alves, de 45 anos. No dia 30 de abril, depois de uma discussão, ele matou a facadas e enxadadas o próprio irmão, Paulo Ferreira Alves, de 42 anos. Foi uma das mais tenebrosas cenas já presenciadas por moradores do bairro do Clima Bom, no Tabuleiro. Paulo começou a ser morto dentro de casa, quando estava dormindo na casa onde morava com a mãe. Cícero acordou o irmão a golpes de peixeira. Cambaleando e perdendo sangue, Paulo ainda tentou escapar. Correu para a rua, mas foi alcançado por Cícero, que terminou o ?serviço? com uma enxada. Foram vários golpes na cabeça. No centro de uma poça de sangue, com a cabeça totalmente deformada, a vítima ficou exposta durante algumas horas para a população. ### Assassinatos têm a marca da brutalidade | KELMENN FREITAS - Repórter A brutalidade registrada em muitos assassinatos entre familiares não se limita apenas à capital. No interior de Alagoas também não são raros os crimes em que as armas usadas são machados, facas-peixeiras e até mesmo enxadas, um cenário que mais remete à Idade Média. Mais chocante ainda é imaginar que tais ferramentas foram usadas pelos assassinos para matar o próprio irmão, a noiva ou a ex-mulher. Só nesse mês de maio já foram registrados três homicídios entre parentes em diferentes cidades do interior do Estado. Em Arapiraca, no último dia 12, ocorreu mais um crime. José Batista dos Santos matou a própria irmã, Helena Batista Santos, de 44 anos, com vários tiros à queima-roupa. Segundo a Polícia Civil, que ainda investiga o caso, uma discussão entre os dois teria sido o estopim da tragédia, ocorrida em Mangabeiras, comunidade pobre de Arapiraca. ### Há inversão de valores na sociedade, diz pesquisadora Para a pesquisadora Terezinha Falcão Freire, os constantes homicídios verificados dentro do seio familiar são provocados pela inversão de valores que toma conta do atual modelo de sociedade. ?O homem hoje não é mais o fim da sociedade, mas sim o lucro e o poder. Nesse contexto, a instituição familiar vem enfraquecendo e dando lugar ao individualismo?, afirma a pesquisadora, responsável pelo tratamento teórico dos dados da recente pesquisa da Ufal que fez o levantamento completo da situação social do complexo de favelas do Dique Estrada, às margens da Lagoa Mundaú. Mas Terezinha Falcão não atribui apenas à miséria os fratricídios (assassinatos de irmão), parricídios (assassinato do pai), matricídio (assassinato da mãe) e filicídio (assassinato do filho) que recheiam as páginas policiais, os noticiários de TV e os sites de notícias. ?Esses crimes também estão nas famílias de classes mais altas, na burguesia. A diferença é que essas classes se preservam mais e não têm a privacidade invadida?, explica. |LM ### Tragédias não escolhem classe social As tragédias familiares e as discórdias entre membros do mesmo clã não escolhem classe social. Tanto podem esfacelar famílias na mais remota periferia quanto arruinar lares mais abastados. Em abril de 2003, um crime abalou a alta sociedade alagoana. O usineiro Bernardo Oiticica foi morto a tiros pelo primo dele, Francisco Oiticica Quintella, dentro do escritório da Usina Santa Clotilde, em Rio Largo. O crime aconteceu depois de uma discussão entre Francisco e Bernardo. O usineiro foi atingido por dois tiros, um no tórax e outro no braço. LM ///