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Queda de formandos em licenciatura ameaça futuro da educação em AL

Em dez anos, houve uma redução de 41,6% na quantidade de alunos formados na Ufal

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Juli Castro tem 14 anos de experiência e já ensinou várias turmas
Professora July Castro, do Colégio Amparo, localizado na praça do Centenário em Maceió. Alagoas - Brasil.
Foto:@Ailton Cruz
Juli Castro tem 14 anos de experiência e já ensinou várias turmas Professora July Castro, do Colégio Amparo, localizado na praça do Centenário em Maceió. Alagoas - Brasil. Foto:@Ailton Cruz | Foto: Ailton Cruz

A escolha da profissão de professora é, para mim, uma decisão profundamente enraizada em uma série de experiências pessoais e convicções. Desde muito jovem, fui impactada pelo poder transformador da educação.” Essas são as palavras da professora Juliy Castro ao falar sobre sua trajetória no magistério.

Com 14 anos de experiência, Juli já ensinou diversas turmas e disciplinas, o que lhe permitiu crescer profissionalmente e aprimorar suas habilidades. “Cada experiência me trouxe novos aprendizados e a chance de conhecer diferentes perfis de alunos, enriquecendo ainda mais minha trajetória na educação”.

Ela tem na mãe e na irmã uma fonte constante de inspiração. As três são educadoras, e suas histórias se entrelaçam na paixão pela docência. “Lembro-me de momentos marcantes em sala de aula, onde figuras inspiradoras de professores instigaram minha curiosidade e me fizeram acreditar no potencial ilimitado do conhecimento”.

Ter sua mãe e irmã como professoras também fortaleceu sua vocação. “Crescer em um ambiente onde a educação é valorizada e discutida diariamente consolidou minha convicção de que essa é uma carreira que vai além de uma simples profissão. Para mim, educar é um chamado”, destaca Juli. “As experiências compartilhadas em família me ensinaram a importância do papel do educador na vida dos alunos e como uma atitude positiva pode influenciar todas as partes de um ciclo educacional”.

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Histórias como a de Juli, no entanto, estão cada vez mais raras. Alagoas enfrenta um cenário preocupante com a redução no número de concluintes das licenciaturas. Dados da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) apontam que, em dez anos, houve uma queda de 41,6% no número de alunos formados. Em 2014, foram 509 formandos, enquanto em 2024, o número caiu para 297.

O professor da Ufal, José Márcio Augusto de Oliveira, doutor em estudos sociais e políticos da educação, enfatiza a necessidade de políticas públicas e investimentos contínuos para reverter essa tendência. Ele observa que a queda no interesse pelas licenciaturas não é um fenômeno recente.

“Há décadas, observa-se uma diminuição na procura por carreiras docentes no ensino superior. Esse desinteresse está diretamente ligado ao desprestígio da profissão, refletido em baixos salários, condições precárias de trabalho e falta de reconhecimento social”, explica.

Segundo o pesquisador, historicamente a docência no Brasil sempre foi marcada pela desvalorização e pelo improviso, mesmo após a exigência de formação superior. Esse cenário afasta os jovens com melhor desempenho no ensino médio, que acabam optando por carreiras com maior retorno financeiro.

Além disso, ele aponta um novo discurso social que tem ganhado força: a ideia de que a universidade não é essencial para o sucesso econômico. “Esse pensamento, que sugere a possibilidade de enriquecer sem um diploma, tem impactado diretamente os cursos de licenciatura, contribuindo para a evasão acadêmica. O problema não está apenas na baixa procura pelo ingresso nas universidades, mas principalmente na taxa de abandono. Em alguns cursos de licenciatura, a evasão já ultrapassa 60%”.

O IMPACTO DA PANDEMIA

A pandemia intensificou esse problema. Muitos jovens abandonaram o ensino superior para buscar trabalho imediato, e os índices de evasão ainda não retornaram aos patamares anteriores.

“Esse fenômeno afeta principalmente jovens de famílias economicamente vulneráveis. Estudos mostram que um jovem formado pode ganhar até quatro vezes mais do que alguém com apenas o ensino médio. No entanto, a falsa promessa de que há outros caminhos para a ascensão social tem afastado muitos estudantes da universidade”, analisa Oliveira.

Outro fator preocupante é o crescimento da formação docente na modalidade de ensino a distância (EaD), especialmente no setor privado. “Esse modelo compromete a formação de professores, especialmente para áreas como a educação infantil, onde o contato direto com crianças e a prática pedagógica são essenciais. Como formar um professor para ensinar crianças sem que ele tenha experiência em sala de aula?”, questiona.

A consequência mais imediata, segundo ele, é a falta de professores em diversas áreas, especialmente em ciências exatas e biológicas, onde já se fala em um apagão de profissionais, comprometendo o futuro da educação brasileira.

INCENTIVO FEDERAL

Para estimular que mais pessoas se tornem educadores e diminuir a carência no país, o governo federal lançou o programa “Mais Professores para o Brasil”, anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no último dia 14 de janeiro, no Palácio do Planalto.

A iniciativa reúne ações integradas para promover a valorização e a qualificação dos professores da educação básica, assim como o incentivo à docência. Estima-se que o programa beneficiará cerca de 50 milhões de educadores e estudantes.

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (Sinteal) avalia que a iniciativa é importante, mas que são necessários mais incentivos. Para a entidade, é fundamental tratar do piso salarial nacional da educação e da Lei de Diretrizes Nacionais da Carreira.

A expectativa do sindicato é que medidas mais estruturantes sejam debatidas com mais profundidade.

O professor José Márcio Oliveira também reforça a necessidade de valorização profissional e investimentos para reverter esse cenário. “Isso passa por investimentos estruturais, melhores condições de trabalho e apoio pedagógico dentro das escolas. Além disso, a valorização salarial ainda é um desafio”, destaca.

Para ele, medidas como as do governo federal são positivas, mas precisam ser acompanhadas de uma mudança mais ampla na percepção social da profissão e de melhorias na qualidade das escolas públicas.

“O Brasil tem mais de 50 milhões de estudantes na educação básica e um milhão de professores. Para garantir o futuro da educação, é essencial que a docência volte a ser vista como uma carreira valorizada e indispensável para o desenvolvimento do país”, finaliza Oliveira.

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