Cidades
Explora��o infantil n�o sensibiliza autoridades
WELLINGTON SANTOS As incontáveis denúncias estampadas quase que diariamente nos jornais ou mostradas, até ao vivo e em cores nas emissoras de tevê, não foram suficientes para sensibilizar as autoridades alagoanas, das mais diversas esferas, a mover uma palha sequer para resolver o problema: centenas de crianças continuam sendo exploradas, impunemente, por adultos nas ruas e avenidas de Maceió. Na última sexta-feira, uma esperança: o Conselho Municipal da Criança anunciou que faria uma ?blitz? na Avenida Fernandes Lima, para recolher as crianças vítimas da exploração. Alarme falso! velha promessa. Como todos os dias, dezenas de meninos e meninas continuaram mendigando ou limpando pára-brisa de carros para seus ?responsáveis?. Cenas para qualquer mortal enxergar ? inclusive as autoridades, em especial às ligadas a órgãos ou instituições que deveriam coibir isso. Nos diversos pontos onde ocorrem os abusos, até bebês são usados para conseguir uma ?esmola?. Nossa equipe voltou a esses locais, mas nada mudou e elas continuam soltas e submetidas à exploração de adultos e aos riscos nos sinais de trânsito espalhados pela cidade. Um desses lugares é o cruzamento da Avenida Gustavo Paiva com Afrânio Lajes, perto do antigo Shopping Mangabeiras, onde lá se mantêm duas mulheres ?alojadas? numa calçada a observar as crianças. Rosimeire da Silva, 19 anos, e uma que ela diz ser sua vizinha no bairro do Reginaldo, mas que não se encontrava no momento de nossa ?visita?. Perigos Junto com elas, mais três crianças, todas fora da escola, a desafiar o perigoso trânsito de um lado para o outro. Uma de nove anos, outra de 10 e um bebê carregado por Rosimeire, inteiramente desprovido de qualquer proteção e apresentando várias manchas pelo corpo. ?Acho isso um absurdo. Crianças expostas, correndo de um lado a outro com riscos para elas e para a gente e ninguém faz nada?, frisou indignada a professora Elígia Torres, que disse já estar cansada de ser abordada pelas crianças quando passa com seu carro no cruzamento. ?Tenho medo que isso se torne um futuro Rio de Janeiro, onde o poder público se omitiu e os bandidos praticamente tomaram conta da cidade. Estão deixando as crianças se viciarem a ser ?pedintes?. Deixando isso se proliferar para depois corrermos risco de receber uma arma na cara por negar uma esmola?, alerta o engenheiro Laércio Fernandes, que também passa quase todos os dias no local. Outros pontos flagrantes do trabalho infantil são os cruzamentos da Avenida Dom Antônio Brandão com Tomaz Espíndola, Rua do Imperador com Barão de Atalaia e a Avenida Fernandes Lima, próximo ao Hospital dos Usineiros, onde existe um verdadeiro batalhão de crianças à espreita para abordar os motoristas em busca do ?agrado?. Lucro Rosimeire disse à reportagem que os rendimentos que obtinha em função das ?esmolas? que recebia estavam em aproximadamente de R$ 7 a 15 ?nos dias ruins? e entre R$ 20 e 30 ?nos bons?, somando tudo o que as crianças arrecadavam. Se feitos os cálculos matemáticos, levando-se em conta a estimativa de que sejam 24 dias úteis e sejam todos eles de movimento fraco, os menores ?levam para os adultos?, na pior das hipóteses, o rendimento equivalente a R$ 128, 00. Se forem considerados os mesmos 24 dias multiplicados por R$ 20 em média, o saldo vai para R$ 480,00 ao mês. ?Com esse tipo de vida os adultos não vão abrir mão da rua nem tão cedo, mesmo que as crianças estudem ou tenha participação em algum programa patrocinado pelo governo como o Bolsa-Escola ou o próprio Peti. Elas dificilmente vão deixar de mendigar, pois efetivamente representa um salário razoável para aqueles que exploram essas crianças, quer sejam os próprios pais ou não?, opina o economista Ailson Santiago de Melo. ?O problema tem que ser atacado na sua raiz, que são os pais sem emprego ou sem condições de manter a família, e não apenas tirá-las da rua por tirar. E se tirar da rua e o pai não tiver emprego, vamos punir simplesmente por punir, jogá-las em abrigos sem estrutura? O problema é muito mais complexo do que se possa imaginar? - salientou Ubirajara Ramos, promotor de Justiça do Núcleo de Defesa da Criança e do Adolescente do Ministério Público. Sem-família Como se não bastassem as crianças que trabalham nas ruas exploradas por adultos, há aquelas que o drama social é ainda maior por não terem nenhuma referência familiar e que vivem completamente na rua. ?Para essas o presente é ainda mais angustiante, pois vivem nas ruas e praças, dormem nas calçadas. Eu diria que são vizinhas do Palácio? - destacou o educador Carlos Pereira, do Centro Erê, referindo-se às crianças que dormem e vivem na Praça dos Martírios, onde fica a sede do governo. O Erê é uma instituição Não Governamental em regime aberto que dá assistência a cerca de 300 menores de rua. Carlos explicou que o trabalho é feito através de um mapeamento da região do centro da cidade, onde a ONG atua. Ele afirmou que, apesar do trabalho feito no centro da cidade, ficou constatado que o número de crianças nas ruas vem aumentando, principalmente na região do mercado. ?Já diagnosticamos mais de 200 crianças só naquela área vendendo feijão ou vagando, cheirando a cola de sapateiro?. Carlos apontou ainda que os conselhos tutelares não têm cumprido com o que determina o Estatuto da Criança e do Adolescente, ?por faltar estrutura para que eles funcionem. É preciso acompanhar o menor até ele chegar a alguma instituição para sair da rua, e acompanhar também os pais se eles tiverem. Isso exige estrutura e, infelizmente, isso ainda é um sonho aqui em Maceió?, salienta. Campanha Apesar de concordar que o número de crianças nas ruas é ainda muito grande, a presidenta da Fundação Municipal de Apoio a Criança e ao Adolescente, Tereza Nelma, destacou que um projeto de campanha chamado ?Não dê esmolas? foi enviado ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e já aprovado, devendo ser firmado, de acordo com Tereza, na segunda quinzena de julho deste ano, junto aos representantes do Fundo, para a assinatura de convênios. ?O objetivo dessa campanha é para ampliar e apoiar projetos para que se tente diminuir os efeitos desses abusos. Verbalmente já está tudo certo, faltando tão somente a assinatura destes convênios?. Tereza destacou ainda que vem sendo executado o projeto Tenda, que consiste em minorar a situação dos meninos que vivem na região do Palácio dos Martírios, visando redirecionar e ressocializar os jovens, através de mapeamento feito em parceria com as diversas ONGs e com estagiários e profissionais de diversas áreas.