Cidades
Popula��o espera a��es p�blicas
Embaixo de papelão e alumínio, onde crianças, jovens e adultos se abrigam, o trabalho não pára. É preciso pressa para dar conta das bonecas feitas em retalho de tecido que serão vendidas nas ruas do bairro e garantirão o sustento das famílias naquele dia. Sem o sururu, que num passado não muito distante foi a principal fonte de renda da população situada na região lagunar, o jeito agora é buscar alternativas. Quem não consegue, passa fome, prostitui-se ou entra para o mundo do tráfico de drogas. É nesse cenário de absoluta pobreza que vivem as famílias das quatro favelas às margens da lagoa, no Vergel do Lago: Muvuca, Torre, Mundaú e Sururu de Capote. São ao todo 1.531 famílias, que representam o retrato mais fiel da exclusão social. ### Mudança não passa de promessa Nos becos da favela Sururu de Capote, uma das regiões mais pobres de Maceió, a ausência do prefeito, mesmo durante a campanha eleitoral, é tida como um sinal de abandono. A prometida transformação, para seus moradores, não passa de sonho. ?Ele já tem quatro anos na prefeitura e agora que vem dizer que vai fazer alguma coisa por nós? Se ele teme vir na comunidade, que venha com seus seguranças, mas que se sente com o povo para discutir as necessidades dos moradores?, cobra Vânia Teixeira, 37, presidente da Associação de Ações Comunitárias dos Moradores da Orla Lagunar. Ela reclama: ?A gente aqui só é vista como marginal, mas o prefeito precisa se juntar à comunidade e ouvir essas mães sofredoras?. ### ?O prefeito esqueceu da gente? Num lugar onde poucos se arriscam a sair de casa à noite, com medo da violência, onde o tráfico de drogas domina e a população vive refém da bandidagem, a prometida transformação anunciada pelo prefeito de Maceió soa como uma afronta. Localizado no bairro Benedito Bentes, o Conjunto Carminha é habitado por moradores retirados de áreas como as favelas da região lagunar. Foram levados para lá com a promessa de que teriam moradia e melhores condições de sobrevivência. A casa foi garantida, mas a esperada qualidade de vida não veio até hoje. ?Isso aqui é uma miséria. O prefeito esqueceu a gente. Não veio nem na campanha?, diz Maria do Socorro Carvalho, moradora do conjunto há nove anos. ### Ação Social estudará número de pobres Principal alvo dos adversários durante a campanha política, a assistência social do município prepara o ?contra-ataque? para tornar possível a transformação prometida pelo prefeito Cícero Almeida. Para isso, a secretaria terá primeiro de saber quantos são, onde estão e como vivem os excluídos em Maceió. Por enquanto, os únicos números que a secretaria dispõe são da Defesa Civil municipal, que apontam a existência na capital de 570 habitações em situação de risco e seis mil famílias nessas condições. Levando em conta que a média de pessoas por moradia é de cinco habitantes, Maceió teria 30 mil pessoas em situação de risco, nas grotas e encostas, por exemplo. ### ?Periferia será Ponta Verde dos pobres? Na tarde da quarta-feira, 8, o prefeito Cícero Almeida recebeu a Gazeta para uma entrevista. Em pauta, o anúncio feito por ele logo após o resultado das urnas de que a periferia será sua prioridade nos próximos quatro anos. Falante, Almeida chegou a afirmar que só ?vai faltar o mar? para a região virar a Ponta Verde dos pobres. Fez promessas de mudanças sociais para os excluídos e anunciou investimentos em áreas como habitação, saúde e educação. Na sexta-feira, 10, para mostrar que a periferia terá mesmo sua atenção nesse segundo mandato, Almeida foi à Grota do Ari, no Jacintinho, onde inaugurou obras de pavimentação e drenagem. A presença dele causou alvoroço entre moradores, que disputavam a ?preferência? do prefeito. *** Gazeta - Pouco depois de ser eleito o senhor disse que sua prioridade no segundo mandato seria a periferia. Será? Cícero Almeida ? A periferia será a principal beneficiada, como foi. Não poderia no primeiro mandato cuidar de imediato totalmente da periferia e esquecer a cidade. Maceió hoje é uma cidade turística, tem pontos atrativos, tem uma Pajuçara linda de se ver, Jaraguá, Ponta Verde, Jatiúca com novo sistema de iluminação, que é o cartão-postal da cidade, e nós temos também uma periferia que também foi atendida em quase todos os seus anseios. Para se ter uma noção, estamos entregando até o dia 24 de dezembro 19 grandes obras na periferia. ### Conceito aponta para pobreza O arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Pedro Cabral, é enfático ao falar sobre periferia, termo que, segundo ele, nem sempre representa essa condições social. Para Cabral, em cidades norte-americanas e inglesas, por exemplo, há muitas comunidades de alto poder aquisitivo instaladas nas áreas periféricas da cidade. Gazeta - O que é uma periferia? Pedro Cabral - Quando se fala em periferia a sociedade entende como sendo uma área sem urbanidade. Contudo, esse termo ?periferia? nem sempre representa essa condição. Maceió, por exemplo, limita-se com o mar. Essas áreas à beira-mar, geográfica e geometricamente, é uma periferia urbana e todos sabem que nelas se concentram os segmentos da sociedade mais bem aquinhoados. Em cidades norte-americanas e inglesas há muitas comunidades de alto poder aquisitivo instaladas nas áreas periféricas da cidade. Por outro lado, há centros degradados. /// Uma das favelas da periferia de Maceió: lugar onde poucos ainda acreditam em promessas. Foto: Robson Lima