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FALTA DE MOBILIDADE

Acidentes de trânsito crescem em Alagoas: média diária ultrapassa 15 atendimentos no HGE, e motos lideram registros

Aumento representa 8,46% em comparação com o primeiro trimestre de 2024

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O número de vítimas de acidentes de trânsito voltou a crescer em Alagoas. Somente no primeiro trimestre de 2025, o Hospital Geral do Estado (HGE), em Maceió, registrou 1.423 atendimentos — uma média de 15,8 por dia. No mesmo período do ano passado, foram 1.312 ocorrências, com média de 14,6 vítimas por dia. O aumento representa 8,46% em comparação com o primeiro trimestre de 2024.

Os dados mostram ainda que, das vítimas atendidas neste início de ano, 543 foram envolvidas em acidentes com motocicletas, sendo 53 delas crianças com idades entre 0 e 11 anos. Em todo o ano passado, o HGE contabilizou 5.525 casos, sendo 2.113 por moto, o que reforça a predominância desse tipo de veículo nas estatísticas de lesões graves no trânsito.

Por trás dos números, histórias como a do técnico em informática Ricardo Barros, de 36 anos, mostram o impacto físico, emocional e financeiro dos acidentes. Ele voltava do trabalho para casa, no conjunto Village Campestre, quando colidiu com um carro. “Foram momentos muito difíceis. Eu não estava em alta velocidade e nem o carro que bati. Nenhum dos dois teve culpa, na verdade, mas eu fiquei muito machucado, já que a peça da moto entrou na minha perna. Passei dias internado, adquiri uma infecção, fiz raspagem na perna. Todo esse tempo fiquei sem trabalhar, o que atrapalhou ainda mais minha rotina. Mas graças a Deus consegui me recuperar”, relatou.

João Manoel, também vítima de acidente de moto, lembra que foi surpreendido por um carro em uma travessia irregular. “Vinha na minha mão, quando um carro atravessou a rua e me atingiu de lado. Eu caí no chão já desacordado. Me levaram para o hospital, eu fraturei a perna e a clavícula, passei por cirurgia e levei mais de 4 meses para poder voltar à minha vida normal”.

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Engenheiro perito em acidentes de trânsito, Antônio Monteiro
Engenheiro perito em acidentes de trânsito, Antônio Monteiro | Foto: (Foto: Cortesia)

Para o engenheiro perito em acidentes de trânsito, Antônio Monteiro, a situação é reflexo de um cenário crítico de mobilidade e falta de políticas públicas estruturadas.

“Hoje a gente tem um problema grave, tanto na cidade de Maceió quanto no interior do estado, de falta de opção de mobilidade. No interior, não há transporte público adequado ligando os povoados e cidades-sede. Na capital, o trânsito está travado em muitas ruas”, pontua.

Monteiro destaca ainda o impacto do deslocamento de moradores da região afetada pelo afundamento do solo, causado pela mineração da Braskem.

“Entre 40 e 50 mil pessoas de menor poder aquisitivo foram transferidas para áreas como Benedito Bentes, Marechal Deodoro, Rio Largo e Satuba. Todo mundo migra para a motocicleta como meio de transporte”, explicou. Ele chama atenção para um dado alarmante: Alagoas tem 140 mil motos a mais do que condutores habilitados.

“É um volume muito grande de motos sendo guiadas por motociclistas inabilitados, principalmente no interior do estado. A frota de motos já está próxima de 600 mil no estado. E como a moto é um veículo mais frágil, o número de mortos e vítimas graves acaba aumentando”, alertou.

Além da precariedade da mobilidade, o perito aponta a imprudência e a desobediência ao Código de Trânsito Brasileiro como fatores que agravam a situação. “É flagrante ver motos guiando na contramão, passando no sinal vermelho, andando por cima da calçada. Há um sentimento de impunidade, somado à imperícia de quem não tem habilitação. A ausência do capacete também agrava o resultado final do acidente com a moto”, afirmou.

O perfil das vítimas mais frequentes, segundo Monteiro, é composto por jovens de 16 a 29 anos. “Eles estão entrando no mercado de trabalho, muitas vezes no subemprego, como motofrete ou mototáxi, em condições irregulares. Muitas cidades não têm sequer credenciamento oficial. As associações que organizam os mototaxistas definem suas próprias regras, que estão longe das exigências do Código de Trânsito”, completou.

Para o especialista, a solução não passa apenas por fiscalização, mas por um conjunto de ações integradas. “Precisa de calçadas seguras, mais investimentos em ciclovias, ciclofaixas, transporte público adequado e faixas exclusivas para o transporte de massa. Não adianta só fiscalizar, tem que oferecer alternativas seguras de deslocamento”, defendeu.

Monteiro também alertou para a falta de controle de velocidade nas vias estaduais e municipais de Alagoas. “Somos o único estado do Brasil que não tem esse controle nem nas rodovias estaduais, nem nas vias locais. Dos 102 municípios alagoanos, apenas 18 estão integrados ao Sistema Nacional de Trânsito, algo que é obrigatório por lei há 27 anos”, criticou.

Como medidas urgentes, defende a municipalização do trânsito, o funcionamento efetivo dos órgãos municipais, o controle de velocidade nas rodovias e um esforço maior de conscientização da população. “As pessoas precisam entender que não é para beber e dirigir só se tiver lei seca, ou andar na velocidade correta só se tiver radar. Não é colocar uma criança em cima da moto porque ninguém está olhando. É preciso valorizar a vida e ter percepção de risco para não cometer as loucuras que a gente vê diariamente nas vias”, concluiu.

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