loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quarta-feira, 05/08/2026 | Ano | Nº 6282
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Cidades

Cidades

Balas perdidas matam inocentes em AL

Ouvir
Compartilhar

Uma festa de aniversário, um passeio no parque de diversões, a feira no mercado. Atravessar a rua para chegar em casa, uma brincadeira na cama dos avós. Instantes da vida dilacerados por um pequeno pedaço de metal. Com a velocidade de quase 700 quilômetros por hora, a bala perdida encontra a pele e entra sem pedir licença. O alvo era outro, mas o estrago é o mesmo. Nunca o Estado de Alagoas presenciou tantos casos de bala perdida como nas três últimas semanas. No breve intervalo de tempo entre os dias 24 de outubro e 11 de novembro, pelo menos treze pessoas inocentes foram atingidas. Seis morreram. O cano da arma não faz distinção, as idades das vítimas vão desde um bebê de dois meses até um homem de 75 anos. Duas crianças estão hospitalizadas, outras duas perderam a vida. ### Criança de 5 anos é atingida diante do irmão de apenas 3 Se já são perversos por atingir pessoas indefesas, os casos de bala perdida chocam ainda mais quando acertam bebês e crianças. O barulho dos tiros assustou o menino Marcos Antônio, de 3 anos, que não entendeu bem o que acontecia com a irmã de 5 anos. ?Mainha, o homem soltou uma bomba em Bibi?, gritava Marcos, enquanto via a menina Vitória caída no meio da rua, em frente de casa, no conjunto Padre Donald, no município de União dos Palmares. Momentos antes, três homens identificados pela polícia como traficantes de drogas chegaram à esquina da casa de Vitória para executar Ivan José de Souza e Josué Leandro de Lima, por causa de uma dívida. Ivan morreu na hora, Josué conseguiu escapar baleado porque agarrou a menina e se protegeu com o corpo dela. ### ?Nem imaginava o que aconteceu? A dona-de-casa Mayara Ferreira, 17 anos, estava bastante ansiosa na manhã da última quinta-feira. Ela iria colocar o filho no colo e amamentá-lo pela primeira vez, onze dias após os fatídicos acontecimentos vivenciados dentro de um parque de diversões instalado no conjunto Osman Loureiro. Naquele domingo, dia 2, o passeio da mãe com a família e o bebê Murilo Arthur Macieira foi interrompido por disparos de uma arma de fogo. ?Meu marido estava no carrinho bate-bate com a minha irmã, minha mãe estava com o Murilo no colo e eu vi um homem com uma arma na mão correndo atrás de outro. Apesar do medo, eu nem imaginava o que tinha acontecido?, descreve Mayara. ### Traficantes em guerra apertam o gatilho A chaga social do tráfico de drogas provoca seqüelas que se espalham muito além do alcance dos viciados e traficantes. Um exemplo disso é a grande quantidade de vítimas de balas perdidas disparadas por quadrilhas em combate ou durante perseguições a usuários endividados. A favela de lona do conjunto Eustáquio Gomes é um dos principais pontos de entrada de drogas de Maceió e cenário de uma guerra entre os traficantes da região e um grupo do Trapiche da Barra. Segundo o delegado Waldor Coimbra, a área se tornou um inferno e muitos moradores estão deixando os barracos para morar em outro lugar. Na manhã de terça-feira, um grupo armado invadiu a favela com a missão de matar os chefes do tráfico local e foi recebido à bala. O tiroteio durou cerca de dez minutos. Um traficante foi morto, outro ficou ferido e a polícia prendeu quatro homens que participaram da ação. ### ?Antes, balas tinham endereço certo? Há bem pouco tempo só se ouvia falar em bala perdida em grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo. Só que a explosão do consumo e do tráfico trouxe esta realidade da violência urbana para as cidades alagoanas, principalmente Maceió. As conseqüências são o aumento da criminalidade, o alto índice de homicídios e a banalização da morte. Para a socióloga Ruth Vasconcelos, coordenadora do Núcleo de Estudos sobre a Violência em Alagoas (Nevial) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a entrada mais intensa das drogas na sociedade traz uma relação direta com a violência urbana. ?A nossa história sempre foi marcada por balas que tinham endereço certo, a violência sempre esteve presente na política alagoana, mas seguia outra lógica?. ### Pai morre nos braços do filho em festa de aniversário Quem vai para uma festa de aniversário só imagina fazer uns brindes e cantar os parabéns, jamais espera uma bala vinda da rua como emissária da morte. O carpinteiro e mestre-de-obras José Cláudio da Silva tombou sem vida nos braços do filho, José Cláudio Jr., na noite do último domingo, no bairro da Levada. ?Eu estava do lado dele, na calçada, quando vi três homens descerem de um carro na rua para matar um tal de Cícero, mas um dos tiros acertou no ombro esquerdo do meu pai, que caiu nos meus braços. Eu botei ele no colo, mas o pai foi perdendo força e parando de respirar, a bala pegou uma veia que sangrou muito e em menos de cinco minutos ele estava morto?. ### Atentado mata um e fere cinco Entre os episódios com vítimas de balas perdidas registrados em Maceió, um dos mais chocantes é o que ocorreu no dia 24 de outubro, próximo à localidade conhecida como ?praça da fumaça?, no Vergel. Um bando armado chegou à região com o objetivo de matar integrantes de uma quadrilha rival, mas como não acharam ninguém decidiram ?não perder a viagem? e começaram a atirar a esmo, para todos os lados. Como a Gazeta registrou na época, ?o saldo da batalha de um exército só foi um estudante morto e cinco trabalhadores feridos à bala?. Assustado com os tiros, o estudante José Anderson da Silva correu, foi alvejado com dois tiros nas costas e morreu na hora. A gangue queria fazer uma demonstração de força, mostrando todo o poder de fogo e seguiu adiante. /// Parque no Conjunto Osman Loureiro: o que seria local de diversão, acabou em tragédia para o pequeno Murilo Macieira. Foto: Gilberto Farias

Relacionadas