MEIO AMBIENTE
Paraíso da vida selvagem entre praias e coqueiros
Com cerca de 500 animais resgatados, Ecopark Sol e Mar já registrou o nascimento de seis onças-pintadas
Em meio às belezas naturais de Maragogi, no Litoral Norte de Alagoas, um local se tornou refúgio para animais silvestres que, após serem resgatados, não podem mais retornar à vida selvagem. O espaço abriga diferentes espécies, oferecendo cuidados veterinários constantes e um ambiente adaptado para garantir qualidade de vida e bem-estar. Além de um abrigo, o Ecopark Sol e Mar também funciona como centro de educação ambiental, aproximando visitantes da realidade da fauna brasileira.
Recentemente, um nascimento especial chamou a atenção: mais uma onça-pintada veio ao mundo dentro do Ecopark, reforçando a relevância do trabalho de conservação realizado no local. E não foi a primeira vez que isso aconteceu. No total, seis filhotes da espécie já nasceram por lá de forma natural, fato que tem contribuído para manutenção da espécie, que é símbolo da fauna brasileira e encontra-se ameaçada de extinção.
Entre histórias de recomeços e desafios, o parque se consolida como um espaço de preservação e conscientização, onde cada animal carrega consigo não apenas as marcas do seu passado, muitas vezes difícil, mas também a esperança de sensibilizar a sociedade para a importância de proteger as espécies nativas.
Proprietário do local, o pernambucano radicado em Alagoas, Murilo Loureiro, conta que o Ecopark nasceu após o falecimento do pai dele, período em que a mãe acabou ficando sozinha para administrar a pousada - que leva o mesmo nome do Ecopark - na cidade de Maragogi. Residente em Recife à época, ele precisou se mudar para a cidade alagoana e acabou levando duas araras Canindé que já criava, a Jade e o Blue.
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O casal de aves, bastante receptivo, chamava a atenção dos hóspedes e visitantes. Mesmo sendo legalizado perante o órgão ambiental, denúncias começaram a chegar a respeito da presença desses animais na pousada e o próprio Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) passou a incentivar o empreendedor a criar um local para preservação da fauna. Em 2020, nascia o Ecopark Sol e Mar.
“Hoje, o ecopark abriga uma média de 500 animais, dos quais a maioria são vítimas de maus tratos e do tráfico de animais silvestres, sendo encaminhados pelos órgãos ambientais. Devido a esse fato, não podem retornar à natureza, por isso abrigamos e cuidamos de todos eles aqui, onde muitos fazem parte de projetos de conservação”, destaca Murilo Loureiro, que diz realizar o trabalho movido pelo amor tem pelos bichos.
Entre os animais que podem ser encontrados pelos visitantes no ecoparque, alguns apresentam algum grau de perigo de extinção, como é o caso da onça-pintada, arara azul, papagaio-chauá, Mutum-de-alagoas (extinto na natureza), lobo guará e do macaco aranha. Segundo Murilo, por estarem na condição de ameaçados, eles recebem uma atenção ainda mais especial, pois estão inseridos em programas de reprodução para a conservação dessas espécies.
Somente da onça-pintada já nasceram seis filhotes. Dois permanecem no Ecopark Sol e Mar - Simba, que foi o primeiro a nascer por lá, e Luna, que tem cerca de um ano de idade e foi a última a nascer até então. Já os outros quatro foram destinados a outros empreendimentos de fauna, com fins de conservação.
“Esses animais fazem parte de um programa de conservação ex situ, que é quando acontece fora do ambiente natural, ou seja, em cativeiro”, afirma Murilo.
O Ecopark fica situado ao lado da pousada que leva o mesmo nome, mas são empreendimentos diferentes. Quem se hospeda na pousada tem acesso livre ao espaço, além de contar com um cronograma especial de interação com algumas espécies, mas qualquer pessoa pode vivenciar a experiência de estar perto de determinados animais.
A interação com os bichos, inclusive, é um dos pontos que mais chamam a atenção. Para o visitante, uma experiência inexplicável. Já para o ecoparque, trata-se de uma ação de educação ambiental, o “conhecer para preservar”.
“Durante a visita, o público pode ter contato com diversos animais, como araras, furões, geckos, dragão barbado, teiú, iguana, jabuti, serpentes, gaviões e corujas. Sem dúvidas, o que mais faz sucesso é a interação com as serpentes, principalmente por serem animais que muita gente tem medo. Aqui, muitos conseguem se permitir conhecer a espécie e enfrentar os medos”, conta Murilo.
EQUIPE DEDICADA
E por trás de todo o encanto da fauna brasileira, está uma equipe de profissionais empenhada nos cuidados com a saúde e o bem-estar desses bichos. São veterinários, zootecnista e biólogo que ficam responsáveis, diariamente, pelo manejo e alimentação dos animais, além de tratadores e guias, que estão em contato direto com eles, cuidado para que tudo esteja bem.
A médica veterinária pós-graduada em clínica e cirurgia de animais silvestres, mestre em Ciência Animal e doutoranda em Ciência Animal pela Ufal, Mayara Lúcio, é uma das profissionais que atuam no local. Ela conta que os animais que chegam provenientes de apreensão pelos órgãos ambientais podem apresentar alguns traumas, o que dificulta o manejo e a adaptação deles, que passam a demandar uma atenção ainda maior.
Todos os animais passam por um período de quarentena, onde são alimentados, cuidados e observados diariamente para ver se apresentam sinal clínico de alguma doença, já que a maioria delas tem um período latente, com os sinais demorando a aparecer.
“A quarentena é de suma importância para a prevenção de disseminação de doenças no plantel. Depois, é feita a realização dos exames, descartando qualquer probabilidade de doenças, eles são introduzidos aos recintos juntamente com outros da mesma espécie, sempre respeitando o tempo e adaptação de cada indivíduo. Todos os animais recebem cuidados médicos veterinários, sempre sendo realizados exames de rotina para avaliação do estado de saúde dos mesmos, e quando necessário, entramos com tratamento específico. Além disso, é ofertada uma alimentação balanceada de acordo com cada espécie e indivíduo, preparado pelo nosso zootecnista”, explica a médica veterinária.
Mayara conta que todos os animais silvestres representam um desafio na hora dos cuidados, por se tratar de anatomias e fisiologias diferentes, mas, para ela, os primatas tendem a ser, de fato, os mais desafiadores, por serem animais muito inteligentes, que exigem um manejo especial. “O condicionamento acaba facilitando bastante”, diz.
O nascimento de animais é motivo de comemoração para toda a equipe envolvida. No caso das onças-pintadas, por exemplo, Mayara fala da felicidade de contribuir para a reprodução da espécie.
“Com certeza, tem um significado muito especial para a gente. Por se tratar de uma espécie que é topo de cadeia e está em perigo de extinção devido à caça e à degradação do seu ambiente, ficamos muito felizes em contribuir com a reprodução dela. O Ecopark Sol e Mar está inserido em projetos de conservação de espécies, e como todo projeto de conservação, temos um programa de reprodução que é bem planejado. Por mais que a forma de reprodução utilizada seja a natural, há todo um planejamento e cuidado por trás, oferecendo toda a assistência e cuidados necessários”, afirma.
A especialista ainda destaca que todos os animais disponíveis para interação com o público passaram por um processo de adaptação de manejo e, muitos deles, por serem oriundos de apreensão e por terem um contato maior com humanos, já são mais adaptados a isso.
“Além disso, temos uma programação de interação, certificando que esses animais só terão contato com os visitantes uma ou duas vezes na semana, sempre respeitando o bem-estar de todos eles. Antes de todas as interações, conversamos com os visitantes sobre os indivíduos e passamos instruções da forma correta de manejo. Também orientamos sobre a necessidade de higienização das mãos antes e após o contato com cada um deles, como medidas profiláticas”, afirma.
Unindo preservação, educação e acolhimento, o Ecopark Sol e Mar se firma como um espaço que vai além do lazer, se tornando um ponto de resistência em defesa da biodiversidade brasileira. Cada resgate, cada nascimento e cada visitante sensibilizado reforçam o impacto de um trabalho que alia ciência, cuidado e amor pelos animais.
Serviço:
O Ecopark Sol e Mar funciona todos os dias, de 9h às 16h, e não precisa de agendamento prévio para fazer a visita, somente em casos de grandes grupos. O ingresso custa R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia entrada).