Cidades
Festejo combate intoler�ncia religiosa
Quase 100 anos depois de um dos mais violentos e emblemáticos episódios contra os praticantes de religiões de matriz africana, o ?Quebra de 1912?, como ficou conhecida a destruição das casas de Candomblé e de Umbanda em Alagoas, o governador Teotonio Vilela sancionou, no último dia 16 de janeiro, a Lei nº 323/2008, de autoria do deputado Judson Cabral (PT), que institui o dia 2 de fevereiro como o Dia Estadual de Combate à Intolerância Religiosa. Para além de um simples dia de comemoração, a data representa a remissão do poder público diante de um fato que por quase um século esteve encoberto por uma névoa de silêncio, indiferença e preconceito. Apesar de a Lei valer para toda e qualquer religião dentro do território alagoano, amanhã, quando ?pipocarem? as primeiras comemorações e manifestações do dia 2 de fevereiro, quando tradicionalmente já se comemora o dia de Yemanjá, nenhuma outra comunidade religiosa terá mais motivos para celebrar do que os mais de 20 mil seguidores, entre babalorixás, yalorixás, filhos e filhas de santo, além de agregados dos cerca de 2.500 ?terreiros? espalhados pelos 102 municípios alagoanos. Afinal, foram as federações que os representam que reivindicaram e batalharam para que a Lei nº 323/2008 fosse aprovada e a data incluída no calendário civil do Estado. ### Episódio é considerado um dos mais violentos do Estado No dia 2 de fevereiro de 1912, a Liga dos Republicanos Combatentes, uma sociedade com fins políticos, ligada a Fernandes Lima, opositor ferrenho do então governador Euclides Malta, promoveu um verdadeiro massacre nas ?casas de xangô?, como eram denominados os terreiros. Há doze anos no poder, Euclides Malta era acusado de frenquentar e proteger os praticantes dos cultos afro-brasileiros de Maceió. Os opositores de Malta atribuíam sua permanência no poder à sua relação com as ?bruxarias? praticadas nos terreiros. ### Peças fazem parte de coleção rara Após a destruição dos ?terreiros de Maceió?, as peças, adereços, adornos e indumentárias que sobraram das casas de cultos afro-brasileiros foram jogadas dentro das delegacias da capital e expostas ao escárnio popular. Posteriormente todas as peças foram doadas pelo governo alagoano ao museu da Sociedade Perseverança e Auxílio dos Empregados do Comércio de Maceió. Quase 100 anos depois, o que restou do ataque aos terreiros em 1912 se constitui numa das mais raras coleções de peças religiosas genuinamente africanas. Para alguns estudiosos, nem mesmo na África é possível encontrar objetos parecidos com os que fazem parte da Coleção Perseverança, como foi batizada. ///