VIOLÊNCIA ESTRUTURAL
Resposta para o feminicídio exige mais do que polícia
Este ano já foram registrados 25 casos em Alagoas, superando 2024 que teve 21
Como prevenir e combater um crime de raízes profundas, alimentado pela desigualdade de gênero? O feminicídio, expressão máxima da violência contra a mulher, já fez 25 vítimas neste ano em Alagoas, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP). O número ultrapassa os 21 casos contabilizados em 2024.
Especialistas ouvidos pela Gazeta apontam que esse é um problema que não se resolve apenas com ações de segurança pública. Exige políticas de proteção, respostas do sistema, ampliação de abrigos e renda para as vítimas, além de investimento em educação.
A professora e pesquisadora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Elaine Pimentel destaca que esse tipo de crime é uma prática culturalmente fundada na estrutura social do patriarcado e que se reproduz até os dias de hoje com a ideia de que o homem tem domínio, posse e propriedade sobre a mulher.
“Dar fim à vida de uma mulher significa silenciá-la sempre, impossibilitá-la de fazer o que quiser, de viver a vida, de estar em liberdade. Cada feminicídio evidentemente é um e tem suas situações específicas, mas é claro que a conduta se respalda nessa ideia de que os homens têm, em tese, essa propriedade e que, portanto, podem acabar com a vida de uma mulher. O que é um grande absurdo”, opina.
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A professora diz que o enfrentamento ao feminicídio é extremamente desafiador porque demanda ações de curto, médio e longo prazo. A curto prazo, ela sugere dar visibilidade às políticas realizadas. A médio prazo, políticas públicas que protejam as mulheres mais efetivamente, além das que já existem. E, a longo prazo, uma mudança de cultura que começa desde a infância.
CASOS RECENTES
Levantamento da Polícia Civil aponta que, somente em outubro, ocorreram oito assassinatos de mulheres. Três casos, comprovadamente, foram feminicídios. O número pode aumentar com o andamento das investigações. No primeiro semestre de 2025, foram registrados 718 feminicídios no País, de acordo com o Mapa Nacional da Violência de Gênero.
Os quatro casos recentes em Alagoas chamaram a atenção pela crueldade. No dia 10 de outubro, Luana Cristina de Menezes Cabral, de 27 anos, foi encontrada morta dentro do próprio apartamento, no bairro Trapiche da Barra, em Maceió. A morte foi por estrangulamento.
No dia seguinte, a enfermeira Ketyni Maria Gomes da Silva, 28, foi morta por asfixia, em casa, no bairro São Jorge, também em Maceió. O ex-marido confessou o crime.
No último dia 13, foram vítimas de homicídio Orisvaldo Silva Santos e de feminicídio Elenita da Conceição Santos, caso ocorrido na zona rural de Senador Rui Palmeira. O suspeito, preso, é irmão do homem assassinado e ex-companheiro da mulher.
O caso mais recente foi em Jaramataia. Karoline Roberto dos Santos Bezerra, de 23 anos, foi encontrada morta dentro de casa com claros sinais de violência. O marido dela foi preso. Testemunhas relataram que, na noite anterior, o homem teria dito que iria se matar após a companheira decidir encerrar o relacionamento.
FEMINICÍDIO: COMPLEXO E PROFUNDO
A chefe de Políticas de Segurança à Mulher da SSP/AL, Camila Paiva, diz que o feminicídio é um crime muito peculiar, porque envolve contexto profundo e não permite uma única solução.
“Antes de chegar ao feminicídio, vem uma série de violências que essa mulher sofre, só que num ambiente doméstico em que não se sabe o que está acontecendo”, avalia Camila Paiva.
Segundo ela, a maioria dos casos ocorre entre vítimas que nunca denunciaram o agressor. Dessa forma, o primeiro desafio a ser enfrentado é a denúncia.
“Às vezes ela é dependente economicamente do marido. Então seria necessário ter políticas públicas que incentivassem a mulher a ingressar no mercado de trabalho, para que ela pudesse ter autonomia financeira, se sustentar e muitas vezes sustentar os filhos”, analisa.
COSTUMES MACHISTAS E PATRIARCAIS
A psicóloga clínica Karyllane Rodrigues avalia que, para pensar nas causas do feminicídio, é preciso olhar para a construção da sociedade em que vivemos hoje, pautada em costumes machistas e patriarcais. “O feminicídio é causado e alimentado por um sistema que, por anos a fio, deu aos homens privilégios e a manutenção das relações de poder e controle”, afirma.
Para combater o feminicídio, a psicóloga destaca a necessidade de veicular informações sérias acerca do tema.
“É importante que a gente mexa — e isso tem acontecido, mesmo que em passos pequenos — na estrutura da nossa educação e modo de viver. É preciso pensar em políticas públicas de saúde, educação, emprego e segurança, e que essas políticas visem olhar para as mulheres em suas multiplicidades”, sugere.
Karyllane reforça a importância de que as leis sejam cumpridas de forma mais rigorosa, para que agressores não encontrem brechas e impunidade. Ela acrescenta que a mudança só existirá quando houver trabalho sério e investimento real para que mulheres possam trabalhar, ter lazer, acesso aos direitos básicos e segurança — sem que suas vidas estejam em risco.
CONTROLE E POSSE DO CORPO FEMININO
A professora e pesquisadora do Instituto de Psicologia da Ufal Sheyla Fernandes diz que o feminicídio pode ser entendido como resultado de um conjunto de fatores culturais, históricos e estruturais que naturalizam a violência contra as mulheres.
“Além disso, a dependência econômica, o medo e a descrença nas instituições dificultam a denúncia e o rompimento das relações violentas, permitindo que a violência escale até o feminicídio”, destaca.
Para combater o problema, segundo a pesquisadora, são necessárias ações integradas dirigidas às causas estruturais, culturais e institucionais. Ela ressalta que o fortalecimento das políticas de proteção, respostas rápidas do sistema de justiça e a ampliação do acesso das mulheres a abrigos, renda e autonomia são caminhos claros para enfrentar o feminicídio. “É essencial investir em educação para a igualdade de gênero, desde a infância, e em campanhas públicas que desnaturalizem a violência e incentivem a denúncia. O enfrentamento também passa pelo acesso à informação sobre direitos e ferramentas de apoio. Somente com políticas articuladas e prevenção será possível reduzir de forma sustentável os índices de feminicídio”, finaliza Fernandes.