FÉ
Mãos que pregam: tradução em Libras se fortalece nas igrejas evangélicas em Alagoas
Intérpretes e fiéis relatam como a inclusão vem sendo adotada nas celebrações religiosas em todo o Estado
Enquanto o pastor prega durante o culto, as mãos de Jaqueline se movem com firmeza e emoção. Ela traduz cada palavra em Libras para um grupo de fiéis surdos da Igreja Assembleia de Deus, no bairro do Farol, em Maceió. Os movimentos silenciosos de inclusão têm se tornado cada vez mais comuns em igrejas evangélicas em Alagoas. Somente a Assembleia de Deus em Alagoas conta com 116 igrejas que já oferecem essa acessibilidade, sendo 98 delas na capital e o restante no interior.
Jaqueline Soares dos Santos é intérprete de Libras há mais de 22 anos, ela iniciou sua trajetória justamente dentro da igreja. “Interpretar no contexto evangélico é diferente de qualquer outra área. Aqui, a gente interpreta com a alma. É preciso sentir a adoração para conseguir transmiti-la com fidelidade”, afirma.
Para ela, o culto é um momento de profunda conexão espiritual, e o intérprete não é apenas um tradutor, mas um canal de entrega. “Cada verso do louvor, cada palavra da pregação, se transforma em sinais concretos. O surdo precisa visualizar a mensagem, sentir a essência. E isso exige preparo, técnica e, acima de tudo, sensibilidade”, explica.
A atuação de Jaqueline não se limita ao púlpito. Ela também é intérprete da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e destaca que o contexto religioso exige um vocabulário específico. “Assim como na medicina ou no direito, a Bíblia tem seus próprios termos, personagens, cidades e ações. Quem não está familiarizado com esse universo encontra dificuldade. É preciso preparo prévio para interpretar com precisão”, diz.
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A presença de intérpretes nos cultos tem permitido que os surdos participem ativamente da vida religiosa. “Eles frequentam a Escola Bíblica Dominical, participam de cultos de doutrina, são batizados, fazem profissão de fé. Temos professores e pregadores surdos que ministram em Libras. É um processo completo de inclusão”, relata Jaqueline.
O pastor Maxwell dos Santos Matias, também da Assembleia de Deus, relata que a iniciativa surgiu da necessidade de acolher membros e filhos de fiéis que não conseguiam compreender a mensagem por conta da barreira linguística. Segundo ele, o impacto foi tanto espiritual quanto social.
“Antes, muitos estavam nos cultos, mas não conseguiam entender a mensagem. Hoje, com intérpretes preparados, tanto tecnicamente quanto espiritualmente, vemos vidas sendo transformadas. Temos professores, cantores e até pregadores surdos atuando na igreja. É um trabalho voluntário, mas feito com dedicação e preparo. Eles oram, se atualizam, cuidam da aparência para não distrair os fiéis e se tornam verdadeiros canais de Deus. Já vimos testemunhos emocionantes, como o de uma jovem surda que voltou para Cristo depois de finalmente compreender e sentir a mensagem através da Libras. Isso mostra que a igreja está acessível e viva para todos”, comemorou.
REENCONTRO COM A FÉ
A fiel Thais Stefane é um exemplo do impacto dessa transformação. Surda de nascença, ela cresceu em uma família evangélica, mas se afastou da igreja na adolescência por não conseguir compreender as mensagens. “Eu via as pessoas chorando, emocionadas, mas não entendia o que estava sendo dito. Perguntava ao meu irmão, mas ele resumia e eu continuava sem entender”, lembra.
Foi apenas ao conhecer o Ministério de Acessibilidade em Libras da Igreja Assembleia de Deus do Farol que Thais reencontrou seu caminho espiritual. “Lá, encontrei intérpretes e pessoas bilíngues que me acolheram. Hoje, congrego perto de casa, entendo a palavra, me emociono com os cultos. A acessibilidade me trouxe de volta para Deus”, afirma.
Ela destaca que a inclusão vai além da tradução. “Jesus se comunica com todos, inclusive com os surdos. Ele quebra todas as barreiras. Hoje, entendo a Bíblia, aprendo mais a cada dia e me sinto parte da igreja”, diz.
Em muitas igrejas, os pastores passaram a investir na formação de equipes de acessibilidade, promovendo cursos de Libras e incentivando a participação ativa dos surdos nas atividades da igreja.
MISSÃO E PREPARO ESPIRITUAL
Na Igreja Batista do Farol, em Maceió, o Ministério Abba Libras também tem promovido a inclusão com dedicação. A intérprete Erika Foster do Nascimento explica que o trabalho exige preparo técnico e espiritual. “No culto a Deus, temos uma postura de reverência. Atuamos como ponte para que a Palavra alcance e transforme a realidade do surdo, assim como acontece com o ouvinte”, afirma.
Segundo Erika, a preparação começa dias antes do culto. “Estudamos as músicas e os textos, pesquisamos os sinais mais adequados. Contamos com intérpretes de apoio e usamos toda a expressão facial e corporal para dar clareza à mensagem”, explica.
Ela destaca que o vocabulário bíblico exige domínio de sinais específicos e a capacidade de “criar cenários” com as mãos. “O surdo é visual. Precisamos desenhar imagens com os sinais para que ele compreenda o sentido da mensagem”, completa.
A participação dos surdos, segundo Erika, é ativa. “Eles são estimulados a copiar a interpretação e a sinalizar durante os louvores. Isso os aproxima de Deus e fortalece sua fé”. Em uma das experiências mais marcantes, ela inverteu os papéis com um fiel surdo durante a música. “Ele leu e sinalizou a letra, e eu o acompanhei. Foi emocionante vê-lo participando”, lembra.
A jovem Júlia Fernandes, da Igreja El Shaday, também encontrou na Libras uma missão. “Conheci uma surda no pós-pandemia que queria ir à igreja, mas não tinha quem a ajudasse. Fiz um curso de Libras e comecei a sinalizar para ela antes mesmo de concluir”, conta.
Para Júlia, a acessibilidade é um direito. “É essencial que todos entendam o que está sendo pregado. O surdo precisa se sentir bem-vindo, saber que aquele espaço também é dele”. Hoje, ela integra uma pequena equipe que sinaliza em cultos e eventos da igreja. “Nosso plano é ampliar a equipe e garantir acessibilidade em todos os cultos no próximo ano”, afirma.
AVANÇO NA IGREJA CATÓLICA
A mobilização também começa a alcançar outras denominações. Na Igreja Católica, o arcebispo de Maceió, Dom Beto Breis, anunciou que a Arquidiocese implantará a Pastoral do Surdo. A decisão foi tomada na última Assembleia Arquidiocesana de Pastoral, em novembro.
Segundo o arcebispo, cursos para formação de intérpretes devem ser ofertados ainda no primeiro semestre de 2026. A comissão responsável pela implantação será formada no próximo ano.