Cidades
Centro difunde a cultura budista em AL
Foi em 1959. A tensão e a insegurança que pairavam sobre o povo tibetano originam uma revolta popular. Passada uma década do início da invasão, a República Popular da China finalmente consolida a tomada do Tibet, país vizinho. Os monastérios são destruídos e a prática do budismo reprimida. Mais de um milhão de tibetanos são mortos; outros cem mil conseguem fugir e são obrigados ao exílio. Tenzin Gyatso e Chagdud Tulku Rinpoche estão entre eles. O primeiro refugia-se na Índia e torna-se um dos mais populares pensadores e pacificadores mundiais, mais conhecido como Dalai Lama. ### Templo traz harmonia e meditação O muro vermelho destaca a casa de número 225 na Rua Clarêncio Jucá, localizada no bairro do Farol. Uma fina corrente exposta na parede ao lado do portão é o primeiro sinal de que aquela não é uma casa qualquer. Um pequeno puxão na corrente e... ?tiimm?. O som tranquilo do pequeno sino faz as vezes de cigarra e atrai o porteiro que abre entrada para o Centro de Budismo Tibetano Chagdud Kunzang Ling. Ambiente agradável, o templo é antecedido por um jardim repleto de plantas. É lá que a sanga (?aqueles que amam a virtude?, os praticantes) realiza as meditações e as preces destinadas a figuras sagradas do budismo, como o próprio Rinpoche. ### Doutrina secular prega o altruísmo Religião ou filosofia de vida? Não é tão fácil resumir a doutrina secular do Budismo, originada bem longe do mundo ocidental. A avaliação é da fundadora do Kunzang Ling, Ruth Guimarães. ?São muitos os conceitos errôneos repassados por aí. Só um lama qualificado, como o Kenpa, por exemplo, está preparado para responder corretamente a todas as perguntas, pois tem o aprendizado de antigos mestres?. Entretanto, é possível estabelecer uma relação entre o que é verdade e o que é mito no budismo. Para começar, a ideia do próprio Buda, que não é um deus, pois a doutrina não é regida por uma visão teísta. Ele nada mais é que aquele que revela todas as qualidades positivas da mente, como conseguiu o príncipe indiano, nos anos 500 a.C. ?Mas o estado búdico é inerente a cada um de nós, é a nossa própria natureza. Por isso treinamos sempre a nossa mente para revelá-lo?, explica Ruth. ### Doações ajudam manutenção de templo Privilegiado com relação a outros centros budistas Brasil afora, o Chagdud Kunzang Ling se distribui em cerca de 600 metros quadrados, entre cômodos e área externa. E, desde a boa nova de que um lama passaria a residir por lá, a partir deste mês de abril, ninguém para de trabalhar. Já no fim do ano passado, quando a notícia foi oficializada pela direção do Chagdud Gonpa Brasil, se viam os primeiros preparativos. Hoje, o som das preces se mistura com o barulho de martelos e furadeiras. Os praticantes circulam entre pedreiros e pintores. Gente que trabalha para reformar banheiros, renovar pisos, pintar paredes, transformar escritório em quarto, área de serviço em cozinha. ### Peças trazem valor sentimental Entre os produtos comercializados no bazar do Chagdud Kunzang Ling, um chamava a atenção. Em meio a roupas, calçados e acessórios, lá estava ele: um carrinho de bebê, conservado, tanto que parecia novo. Não à toa era o artigo mais caro, posto à venda ao preço de R$ 100, valor oito vezes menor que aquele pelo qual foi adquirido, há pouco mais de dois anos, quando a pequena Beatriz Pema Tsomo nasceu. Beatriz é a única filha da budista Danielle Maciel, que, mais do que ninguém, aguarda com ansiedade a chegada do Lama Kenpa à capital alagoana. Geógrafa e professora da Universidade Federal de Alagoas, Danielle começou a frequentar os exercícios de meditação em meados de 2004. ### Prática em madeira foi desenvolvida no Butão A última vez em que Lama Kenpa veio a Maceió foi em outubro de 2008, quando, além de visitar a esposa e a filha, orientou retiros com ensinamentos budistas. Dois meses depois, voltou ao Butão, seu país de origem, onde resolve as últimas pendências antes de fixar residência em Maceió. Foi no Butão que Kenpa desenvolveu as habilidades com o trabalho em madeira, consideradas extraordinárias pela comunidade budista. A capacidade de medir, cortar e instalar detalhes de madeira, sem qualquer erro ou necessidade de revisão, é atribuída à prática profunda da meditação. ///