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Cidades est�o amea�adas pelos lix�es

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Como feridas abertas e purulentas, os lixões estão espalhados pelas cidades alagoanas. O problema é nacional, mas aqui por essas paragens a questão ganha contornos dramáticos. Em todas as regiões do Estado, toneladas de lixos são depositadas de maneira irresponsável e criminosa, sejam às margens de rios, em área de caatinga e até em áreas de proteção ambiental. Além da degradação do meio ambiente, o acúmulo tresloucado de lixo também degrada o homem e arranca-lhe sem dó nem piedade o que lhe resta de dignidade. Nesses locais imundos e fétidos, desempregados e desvalidos disputam espaço e até comida com ratos, baratas e moscas. Sob os lixões, os lençóis freáticos padecem. Em volta deles, os rios sucumbem, os peixes morrem, as nascentes secam e a natureza grita por socorro. ### Mau cheiro incomoda no Sertão Olho d?Água das Flores ? No Sertão de Alagoas, foi o clamor da comunidade quilombola do Sítio Gameleiro, na zona rural de Olho d?Água das Flores, no Sertão de Alagoas, que trouxe à tona o problema crônico dos lixões dos municípios da Bacia Leiteira do Estado. Há dez anos, o destino das cerca de oito toneladas diárias de lixo produzidas era um terreno de pouco mais de 20 tarefas, no Sítio Gameleiro, na zona rural do município, onde vivem cerca de 44 famílias. Cansados da fedentina e das constantes queimadas, em dezembro de 2007, moradores decidiram interditar o lixão. ?Nós já não aguentávamos mais o mau cheiro e a fumaça todos os dias dentro das nossas casas?, conta Emílio Bezerra Silva, o Dinho, presidente da Associação Comunitária do Sítio Gameleiro. ### Lixão contamina nascente de rio Olho d?Água das Flores ? Sob o sol inclemente do Sertão alagoano, ajoelhado sobre o solo seco e esturricado do que já fora densa caatinga, um sertanejo lamenta a morte de uma nascente de rio. Uma tragédia numa região onde a água vale mais que ouro. Outrora límpido e vivo, o riacho Traboia serpenteava em seu leito de pedras no pé da Serra do Gavião, no Sítio Gameleiro, na zona rural de Olho d?Água das Flores. Durante o período de chuvas, certamente, o riacho engordava e desaguava em algum afluente mais importante da região da bacia hidrográfica do Riacho Grande, no Médio Sertão, cujos rios e riachos se encontram e vão desaguar no imenso Rio São Francisco. A vegetação de suas margens era de caatinga, segundo contam os moradores. O lugar era tomado por espécies nativas, a exemplo do angico, que dominava a paisagem com arbustos frondosos. ### Matadouro contribui com sujeira São José da Tapera ? O lixo, o zumbido das moscas, o mau cheiro e as ossadas de cabeças de boi combinam-se para dar forma a uma paisagem dantesca. Situado dentro da zona urbana de São José da Tapera, a 265 quilômetros de Maceió, o lixão da cidade reúne em um só local as duas mazelas responsáveis pela degradação do meio ambiente na maioria das cidades alagoanas: o lixão e o matadouro. Ao lado dos monturos, a vala por onde escorre o sangue dos animais abatidos se estende quase pelo meio da rua e vai formar adiante uma espécie de lagoa escura de sangue talhado, a céu aberto, e terrivelmente malcheirosa. A poucos metros desse cenário, um grupo de cidadãos taperenses sobrevive em meio à miséria, às moscas e a todo tipo de transtornos provocados pela imundície do local. ### Sonho de trabalhador é descartado Quando deixou a cidade de Itabuna, no interior da Bahia, onde nasceu, e rumou cheio de esperança para a capital paulista, há cerca de dez anos, ele pensava em ?vencer na vida?, arrumar um emprego e ajudar a família. Assim como tantos outros nordestinos, Élson Oliveira dos Santos partiu para São Paulo em busca de um lugar ao sol. Se dependesse dele, não voltaria tão cedo ao Nordeste. Mas foi o coração que falou mais forte. Na ?Terra da Garoa? apaixonou-se por uma alagoana. Depois de tentativas frustradas de se estabelecerem, ela o convenceu a voltar para sua cidade natal, para perto da família, onde teriam apoio e, quem sabe, melhor sorte. Regressaram para a pequena cidade de Olivença, no Sertão alagoano, a 188 km de Maceió. Agora Élson estava ali. Sob um sol infernal, às margens da AL-125, em meio ao zumbido das moscas, envolto por uma atmosfera densa e fétida. Depois de tentar a sorte como agricultor, nas lavouras de milho e feijão, Élson foi parar bem no meio de toda a imundície produzida pela população da cidade natal de sua esposa. Hoje, ele é ?dono? do lixão, o único catador de lixo de Olivença. ### Entulho suja rio que batizou cidade A barbárie ambiental está lá para quem quiser ver. Não precisa ir muito longe do centro da cidade de Jacaré dos Homens para constatar. Basta seguir pelas margens daquele que inspirou o nome do município e que agora agoniza. É nas margens do Rio Jacaré, um dos mais importantes da região hidrográfica do Riacho Grande, que o lixo produzido pela população do município é abandonado. O local fica a menos de um quilômetro da AL-220. A cena é deprimente. Montanhas de lixo se estendem ao longo das margens. Cabeças de boi, trazidas certamente do matadouro mais próximo, amontoadas a alguns metros do leito do rio, dão um toque sinistro à paisagem. ### Consórcio é solução do problema O projeto é grandioso e se for realmente executado da forma como está previsto será a primeira experiência do tipo, exemplo para todo o País. Para os prefeitos da região da Bacia Leiteira de Alagoas, o Consórcio Intermunicipal de Gestão de Resíduos Sólidos (Cigres) significa a solução de um problema que se arrasta há décadas. O fechamento dos lixões e a construção de um aterro sanitário para receber os resíduos sólidos da população de 12 municípios sertanejos, num total de cerca de 180 mil habitantes, já é tido como uma realidade para o assessor técnico da Associação dos Municípios Alagoanos (AMA), José Hugo Souto, engenheiro responsável pelo Cigres. ### Municípios tentam resolver situação Depois de 40 anos de descaso, o lixão de Mangabeiras, em Maceió, vive a expectativa de finalmente ter suas atividades encerradas. O superintendente de Limpeza Urbana do Município, Alder Flores, afirma que tão logo a primeira célula do aterro sanitário da cidade entre em funcionamento, o antigo lixão da capital será desativado. Se tudo correr dentro do previsto, as obras do aterro sanitário devem ser iniciadas a partir do próximo mês de junho. ?Estamos em fase de elaboração dos projetos, tanto para o início das obras do aterro quanto para a recuperação de toda a área do lixão?, explica Alder Flores. Segundo ele, já estão sendo finalizados os projetos necessários para que se iniciem os trabalhos de recuperação da área do lixão. ?Estamos desenvolvendo o plano de recuperação da área degradada?, explica Flores. De acordo com ele, daqui a pelo menos dois meses, todos os projetos serão enviados ao Instituto do Meio Ambiente (IMA) para serem apreciados. ### IMA convoca gestores para diminuir impacto ambiental Com o quadro de funcionários defasado e a carência de fiscais para a atender à demanda de todo o Estado, o Instituto do Meio Ambiente (IMA) tenta fazer com os gestores municipais adotem medidas para minimizar os impactos ambientais dos lixões espalhados por Alagoas. ?Sinceramente, eu me sinto impotente diante desse problema que considero gravíssimo. O IMA conhece a situação, mas o problema é que as prefeituras não têm dinheiro para resolver a questão. O que eu vou fazer? Chegar e ainda por cima aplicar uma multa para quem já está passando por dificuldades??, indaga o presidente do IMA, Adriano Augusto. Segundo Augusto, o problema dos lixões é generalizado e atinge todo o Estado. ?Temos o caso do lixão de Piaçabuçu, que fica dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) da Marituba e próximo à Unidade de Conservação de Piaçabuçu e vizinho à reserva federal do Peba?, conta. De acordo ele, o prefeito de Piaçabuçu já procurou o IMA e está disposto a resolver a situação. ### Resíduos ameaçam polo turístico | SEVERINO CARVALHO - Repórter Maragogi ? Lixões existentes nas cidades litorâneas ao Norte de Alagoas são bombas-relógio prestes a implodir a principal atividade econômica da região: o turismo. Ficam na Fazenda Boa Vista, longe dos olhos de quem visita a Costa dos Corais, mas a menos de cinco quilômetros do mar, os dois lixões de Maragogi. Para chegar ao município balneário, porém, passa-se por Japaratinga, onde o cartão de visita é um aglomerado de lixo à margem da AL-465, guardado por urubus. Projeto para a construção de aterro sanitário, por meio de consórcio, existe desde 2006, mas ainda não saiu do papel. Maragogi é o município que mais produz lixo na região da Costa dos Corais. São 46 toneladas por dia, em média, segundo a empresa responsável pela limpeza pública. Em períodos como o carnaval, sobe para 80 mil quilos diários a produção. E tudo é levado para dois lixões, localizados na Fazenda Boa Vista, onde a paisagem não é das melhores. ### Catadores passam dia vasculhando Matriz e São Luís ? Nos lixões de Matriz do Camaragibe e de São Luís do Quitunde, braços em comum: o trabalho infantil. A Gazeta de Alagoas flagrou crianças e adolescentes em meio ao lixo, disputando refugos com urubus e vermes num ambiente insalubre, fétido. Elas são carregadas para a faina pelos pais que, desamparados e desempregados, encontram no lixo a sobrevivência. ?Prefiro meu filho aqui no lixão, do que está nas portas dos mercados pedindo esmola?, justificou a catadora Maria Silva dos Santos. Caçula de uma prole de 12 filhos, o pequeno e raquítico Abraão, de apenas 6 anos, não soltava a caçamba de brinquedo garimpada ali perto, no lixo. Parece sina. Minutos depois, estacionava ali uma caçamba, um colosso de ferro e borracha, carregada com entulhos. Todos partiram para o trabalho, inclusive Abraão, que deixou de lado o brinquedo de plástico. ### Famílias dividem restos com urubus Maragogi ? A catadora Maria Silva dos Santos, 50 anos, separava o lixo por tipo de material: de um lado, alumínio; do outro, borracha; acolá, papelão e, sobre um carro de mão, alimentos visivelmente estragados. Indagada sobre qual destino daria ao refugo, disse que se transformaria em lavagem (alimento) para os animais que cria: dez cães, 12 gatos, porcos... Mas, depois entrega. ?O que não serve, eu jogo para o bichos, mas, esse pacote de pão aqui, mesmo, vou comer com um cafezinho, quando chegar em casa?, revelou Maria. Há quatro anos, ela abandonou a casa na periferia de São Luís do Quitunde para morar, literalmente, dentro do lixão, onde levantou um barraco de lona. Dentro, amontoam 14 pessoas, entre filhos, nora e netos. Toda uma geração que vive, literalmente, do lixo. Até ?móveis? descartados mobíliam o casebre da família. ### Lixão invadiu obra de matadouro A Prefeitura de Viçosa tem dois ?abacaxis? para descascar: o lixão e o matadouro. Apesar de tratar de produtos diferentes, um já ocupou o espaço do outro. Ambos, no entanto, são alvos de ações do Instituto do Meio Ambiente (IMA) e do Ministério Público Estadual (MPE), que exigem instalações adequadas. Em 2004, o ex-prefeito Flaubert Torres não conseguiu concluir a construção de um matadouro-modelo, situado na Chã dos Costas. Seu sucessor, Péricles Vasconcelos, não deu seguimento ao projeto e transformou a área, já com galpão e escritórios erguidos, em lixão. O lugar passou quatro anos recebendo o que era descartado por uma população com mais de 26 mil habitantes. ///

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