TRANSTORNOS
MERCADO DA PRODUÇÃO: reforma gera impacto e incerteza para permissionários
Obra foi anunciada logo após incêndio que destruiu parte do local no dia 21 de dezembro de 2025


A reforma do Mercado da Produção, no bairro da Levada, em Maceió, tem provocado impactos imediatos e um cenário de incerteza para dezenas de permissionários. A obra foi anunciada pela prefeitura logo após um incêndio que destruiu parte do local no dia 21 de dezembro do ano passado. O projeto pretende modernizar os equipamentos e melhorar as condições de trabalho e o atendimento ao público.
Os trabalhos tiveram início em 23 de dezembro de 2025, de acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminfra), com previsão de duração de até dois anos. Desde os primeiros dias, no entanto, comerciantes relatam transtornos, queda brusca nas vendas, falta de informação clara e ausência de medidas efetivas de assistência por parte da Secretaria Municipal de Abastecimento, Pesca e Agricultura (Semapa), responsável pela gestão dos mercados municipais.

Para a vendedora de frutas Juliana Araújo, que trabalha há dez anos no mesmo ponto do Mercado da Produção, a reforma começou de maneira abrupta e sem comunicação prévia adequada.
“Não houve aviso nenhum. De uma só vez chegaram carros da prefeitura, começaram a montar tapumes, cortar grades, com muita poeira, barulho de máquina e demolição. Era uma equipe tamponando, outra cortando, parecia que tudo estava acontecendo ao mesmo tempo”, relata.
Segundo ela, os prejuízos causados pela obra superaram até mesmo os problemas recorrentes do período chuvoso, quando o mercado costuma alagar.
“Na quadra chuvosa a gente já tem perda, lama, risco de doença, o cliente evita vir, mas nada se compara ao que essa reforma está causando. Teve dia de tanta poeira que a fruta começou a apodrecer. Precisamos protestar para colocarem um carro-pipa. O pessoal do açougue e do queijo simplesmente não consegue vender”, afirma.
Juliana conta que houve uma reunião entre permissionários e representantes da prefeitura em 2024, quando o projeto da reforma foi apresentado. Na ocasião, segundo ela, ficou acordado que qualquer retirada dos comerciantes seria acompanhada de realocação imediata em locais adequados, o que não ocorreu.
“O que foi combinado era que ninguém sairia sem ter para onde ir, mas não foi assim. Teve gente que foi retirada de um dia para o outro. A farmácia, por exemplo, foi despejada do sábado para o domingo, e na segunda-feira já começaram a demolir”, diz.
Sem alternativa, muitos permissionários passaram a arcar com custos próprios para continuar trabalhando. A procura por pontos alternativos elevou os preços de aluguel, tornando a situação inviável para parte dos comerciantes.
“Quem tem dinheiro para pagar R$ 2.700, R$ 3.000, R$ 4.000 de aluguel consegue. Quem não tem, é botar as coisas na cabeça”, resume Juliana.
Em nota enviada à Gazeta, a Semapa informou que “as medidas adotadas são conduzidas de forma a minimizar impactos e garantir a continuidade das atividades, dentro das condições técnicas e legais disponíveis”. Questionada sobre quais medidas concretas estariam sendo aplicadas, a secretaria não respondeu.

Os efeitos da reforma se espalham por todo o mercado. O comerciante José Gomes, que vende coco há mais de 20 anos no mesmo ponto, afirma que recebeu um prazo de 15 dias úteis para desocupar a área, acompanhado da promessa de apoio que, segundo ele, não se concretizou.
“A prefeitura chegou dizendo que a gente tinha 15 dias para sair, porque a obra ia começar. Disseram que teríamos assistência, que iriam nos realocar. A gente acreditou e ficou esperando”, relata.
De acordo com a Seminfra, a obra será executada de forma modulada, em duas etapas, permitindo o funcionamento parcial do mercado. No entanto, não há estimativa oficial para o término da primeira etapa da obra.
“Disseram para a gente que seriam três meses. Como fomos os primeiros a sair, a promessa era que voltaríamos rápido para um local definitivo”, afirma José.
Diante da frustração, ele alugou um espaço improvisado, pagando o dobro do valor que desembolsava anteriormente à prefeitura. Além do custo maior, a nova localização comprometeu o movimento.
“Só por mudar de lugar, o movimento caiu muito. As pessoas não querem fazer retorno, não querem descer do carro. Perdi muitos clientes”, conta.
A Prefeitura de Maceió não respondeu quando foi questionada sobre como será feita a realocação dos permissionários, se há prazo concreto para a conclusão da primeira etapa da obra e se existe previsão de auxílio financeiro ou estrutural aos comerciantes diretamente afetados.
Enquanto isso, para quem depende do mercado para sobreviver, a reforma se transformou, ao menos por ora, em um período de instabilidade, perdas financeiras e incerteza sobre o futuro.
*Sob supervisão da Editoria
