PARAÍSO
Coral em formato de coração atrai pedidos de casamento em Maceió
Pesquisadora diz que o turismo pode atuar como aliado da preservação e alerta para excessos


Uma formação recifal em formato de coração, localizada no mar da Ponta Verde, em Maceió, tem se consolidado como cenário de pedidos de casamento. Apenas no último ano, cerca de 50 pedidos foram realizados no local, que ganha maior visibilidade durante a maré baixa, quando o mar apresenta condições favoráveis para passeios.
A calmaria das águas permite atividades como o passeio de caiaque transparente, uma das opções mais procuradas por moradores e turistas. A imagem do chamado “Coral do Amor” ganhou projeção nas redes sociais e ampliou o interesse pelo ponto, situado em uma das áreas mais movimentadas do litoral da capital.
O empresário João Batista dos Santos, que conhece a região desde a infância, identificou no local uma oportunidade de negócio. Segundo ele, a repercussão começou após a publicação de uma foto feita durante um passeio pessoal, ao lado da esposa. “Desde criança eu exploro essa área. Quando comecei a fazer o passeio de caiaque transparente, fiz uma foto bem na ponta do coração e a imagem teve uma repercussão muito grande”, relatou.

Com o aumento da procura, os registros passaram a incluir imagens aéreas. “No início, eu não fazia fotos com drone, mas percebi o interesse das pessoas e investi nisso para mostrar o cenário de outra forma”, explicou.
Os passeios duram, em média, uma hora e meia e, além das imagens, o local passou a colecionar histórias marcantes.
CONEXÃO COM O MAR
Entre os casais está a estudante Júlia e o turista paulista Pedro Oliveira, que oficializaram o pedido em dezembro do ano passado, durante a primeira viagem do casal ao Nordeste. “Era uma viagem muito importante para nós, e eu queria torná-la ainda mais especial. Encontramos o perfil do João e combinamos tudo antes mesmo de chegar a Maceió”, contou Pedro.
Para Júlia, o cenário teve significado especial. “O mar é muito importante para mim. Durante o pedido, senti uma conexão muito forte. Foi um momento mágico”, disse.
ATENÇÃO AMBIENTAL

Apesar do apelo turístico, especialistas alertam para a necessidade de cuidados com a formação recifal. A coordenadora do eixo de restauração do Projeto Corais de Alagoas, a pesquisadora Ana Grillo, explica que a chamada “pedra do coração” é uma formação recifal natural.
“Trata-se de uma estrutura formada por sedimentos arenosos e organismos marinhos, como os corais, que possuem esqueletos calcários e contribuem para a construção desses recifes ao longo do tempo”, esclarece.
Segundo ela, recifes costeiros são comuns no litoral nordestino, mas seus formatos variam conforme fatores ambientais. “Essas estruturas são moldadas tanto pela agregação de sedimentos e organismos quanto pela degradação provocada pela ação do vento e do mar”, afirma.
A especialista alerta que alterações na integridade dos recifes podem indicar impactos ambientais. “Fragmentações ou redução dessas formações podem sinalizar processos de erosão, que podem ser acelerados pelo aumento da visitação, pisoteamento e ancoragem de embarcações”, explica.
Ana Grillo também chama atenção para os efeitos das mudanças climáticas. “O aquecimento global eleva a temperatura do oceano e provoca estresse térmico nos corais, levando ao branqueamento. No verão de 2024, registramos temperaturas de até 32°C, com branqueamento de cerca de 20% dos corais da região e mortalidade superior a 60%”, pontua.
TURISMO CONSCIENTE

Sobre o crescimento do turismo, ela reforça a necessidade de visitação consciente. “Essas estruturas são frágeis e podem ser quebradas com o pisoteamento. O excesso de visitantes também pode afugentar organismos marinhos e aumentar a presença de lixo e substâncias nocivas”, destaca.
Para a pesquisadora, o turismo responsável pode atuar como aliado da preservação. “Quando bem geridos, esses ambientes contribuem para a conscientização ambiental. O turismo de experiência, aliado à informação correta, fortalece o vínculo das pessoas com a natureza e incentiva práticas mais responsáveis”, conclui.
