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Frota de Alagoas envelhece e 30% dos carros têm mais de 20 anos, diz Detran
Estado possui mais de 139 mil veículos com duas décadas de uso; especialistas alertam para riscos


Com 455.501 automóveis emplacados em Alagoas — sem contar motocicletas —, o estado tem atualmente 30,57% da frota com 20 anos ou mais de fabricação, o equivalente a 139.236 veículos, de acordo com dados do Departamento de Trânsito de Alagoas (Detran-AL). A economia é apontada como o principal fator para o envelhecimento da frota.
Os dados mostram que a idade média dos carros em Alagoas é de 18,10 anos. Esse envelhecimento é visível no volume de veículos que ainda circulam datados do século passado, com registros que remontam ao ano de 1926. Ao analisar os períodos de maior concentração de veículos, os dados mostram que os anos de 2012 (22.896 unidades), 2013 (22.387 unidades) e 2010 (22.070 unidades) lideram o ranking de emplacamentos que compõem a frota atual. Logo em seguida, aparecem os anos de 2011, com 21.613 veículos, e 2014, com 20.854. Entre os modelos que se mantêm frequentes nas ruas alagoanas, o Chevrolet Classic LS se destaca com um contingente de 4.279 unidades registradas.

IMPACTOS NO TRÂNSITO E NA SEGURANÇA
O envelhecimento da frota traz reflexos diretos para o trânsito e a segurança viária. Para o engenheiro de trânsito Antônio Monteiro, parte do problema é “estrutural” do mercado brasileiro. Segundo ele, os carros vendidos no país tendem a ter menor durabilidade em comparação aos automóveis comercializados no exterior.
“Historicamente, no Brasil, os carros não duram tanto. Na Europa e nos Estados Unidos, a frota tem qualidade superior de mecânica e equipamentos, o que permite uma vida útil maior. Aqui, para baratear o preço, alguns itens são retirados, e isso faz com que os veículos durem menos”, explica.
Monteiro acrescenta que, em Alagoas, a extensa área litorânea contribui para o desgaste dos veículos, já que a maresia acelera a corrosão e compromete componentes ao longo do tempo. Com o avanço da idade dos automóveis, a manutenção preventiva torna-se ainda mais “essencial”. Para o engenheiro, a falta de revisão adequada aumenta o risco de acidentes.
“Um veículo em alta velocidade com problema de freio ou de pneu aumenta muito a possibilidade de perda de controle e de acidentes. Sou defensor da inspeção veicular, que não é novidade e já está prevista no Código de Trânsito Brasileiro há muitos anos”, afirma. “O problema é que, independentemente da idade do carro, as pessoas precarizam itens como pneus, freios e direção. Um ponto pouco discutido, por exemplo, é o recall”, conclui.
Segundo o especialista, cerca de 2 milhões de veículos no Brasil precisam passar por recall, mas muitos proprietários não comparecem às concessionárias. Como consequência, há registros de acidentes, inclusive com mortes, relacionados a falhas em equipamentos de segurança, como airbags.
CARESTIA FREA O ALAGOANO
Para o economista Diego Farias, o cenário econômico é hoje o principal entrave à compra de veículos novos. Segundo ele, o envelhecimento da frota está associado a uma combinação de fatores, como renda real estagnada, juros elevados, crédito mais restrito e preços dos carros acima da inflação. Diego ressalta ainda que, apesar do aumento nas vendas, a classe média não é a principal compradora.
“Quem compra hoje são, majoritariamente, pessoas de alta renda, empresas, locadoras, frotistas e motoristas de aplicativo financiados. A classe média posterga a troca e mantém carros com até 10 anos de uso”, afirma.
O economista cita que o preço dos automóveis está entre os maiores obstáculos à renovação da frota. Diego Farias conta que, em 2025, o mercado de carros “populares” no Brasil passou a apresentar valores “praticamente incompatíveis” com a renda média do brasileiro. “O preço mais que dobrou, enquanto o salário médio não acompanhou. O resultado é que o consumidor não consegue mais trocar de carro a cada quatro anos, como fazia antes”, analisa.
Para reduzir custos, muitos motoristas acabam trocando o carro pela motocicleta. Atualmente, a frota de motos em Alagoas supera a de automóveis. Desde 2006, o número de motocicletas mais que triplicou: passou de 68.238 unidades fabricadas entre 1954 e 2006 para 273.999 entre 2007 e 2026.
Para Antônio Monteiro, esse movimento tem impacto direto na segurança viária. “Vivemos um problema seríssimo, que é uma epidemia de mortes envolvendo motocicletas. A moto é uma fuga para os problemas de mobilidade e para a dificuldade”, alerta.
*Sob supervisão para Editoria.
