FIGURA CONHECIDA
Pace, o ‘cão atleta’ que virou símbolo da orla de Maceió
Vira-lata comunitário acompanha treinos, conquistou fama entre esportistas e mobiliza rede de proteção na praia


Quem frequenta a orla de Maceió para correr ou caminhar já deve ter cruzado com ele entre o Marco dos Corais e a roda-gigante. Vira-lata, sem dono fixo, Pace transformou a praia em território permanente e, aos poucos, virou figura conhecida entre moradores, atletas e turistas.
O cachorro apareceu há alguns anos na região e passou a acompanhar grupos de corredores nos treinos. A aproximação foi espontânea. Ele se juntava aos pelotões e seguia junto, mantendo o ritmo dos atletas por longos percursos. O comportamento chamou a atenção da Agra Assessoria, grupo de corrida que treina diariamente na orla.

Foi nesse ambiente que Pace ganhou nome. No vocabulário esportivo, “pace” é o ritmo médio por quilômetro, uma referência básica para quem corre. A escolha combinava com o desempenho do animal, que não se limitava a trajetos curtos. Houve dias em que acompanhou treinos de mais de 50 quilômetros, subindo avenidas como a Josefa de Melo e retornando sem demonstrar cansaço.
No começo, a história circulava apenas entre os corredores. Como havia outros cães pretos na região, ninguém sabia exatamente quem era quem. Todos eram chamados genericamente de “Negão”. Com o tempo, porém, o comportamento do cachorro passou a diferenciá-lo. Enquanto outros acabaram se acidentando no trânsito, Pace seguia ileso, atravessando ruas e acompanhando grupos sem se afastar do trajeto.

A influenciadora digital e atleta Juliana Muniz passou a organizar os cuidados com o animal. Além de acompanhar a rotina, criou um perfil nas redes sociais para dar visibilidade à história. “Eu decidi criar a fama dele de cachorrinho atleta porque queria que ele ficasse protegido”, explica. A estratégia acabou transformando o cachorro em símbolo informal da causa animal na orla.
A rotina atlética atrasou a castração por receio de que o procedimento interferisse no desempenho. A cirurgia só aconteceu em agosto do ano passado e foi bem-sucedida. Desde então, o animal conta com apoio de clínicas veterinárias e parceiros que garantem abrigo temporário, alimentação e atendimento médico sempre que necessário.
Tentativas de retirá-lo definitivamente da praia não funcionaram. Em diferentes momentos, houve a proposta de adoção, mas o comportamento mostrava o contrário: ele sempre retornava à orla. O espaço virou não apenas abrigo, mas cenário de convivência. Hoje, Pace circula livremente por academias, farmácias, lojas, prédios e até hotéis da região. Fotos e vídeos chegam diariamente às redes sociais.
O cachorro mantém uma rotina própria. Tem horários para correr, se alimentar e descansar. A comida vem de frequentadores, barraqueiros e apoiadores. Turistas também passaram a procurar o animal, incluindo o encontro com ele nos roteiros de viagem. Muitos vão à praia com o objetivo de correr ao lado dele ou registrar o momento.

Mesmo famoso, Pace mantém autonomia. Escolhe os grupos que acompanha e decide os percursos. Tentativas de identificá-lo com coleira, placa ou QR Code fracassaram: nenhum acessório durava mais de um dia. A proteção acabou sendo construída pela convivência e pelo reconhecimento coletivo.
Após casos recentes de violência contra animais de rua em Maceió, a discussão sobre uma possível adoção voltou à tona. Para quem acompanha de perto, porém, a situação exige cuidado. “Pace tem uma rotina muito específica e feliz na praia. Quem quiser adotá-lo precisa entender e respeitar isso”, resume Juliana.
Livre, ativo e integrado ao cotidiano esportivo da cidade, Pace se tornou parte da paisagem da orla. “Não pertence a uma casa, mas a um percurso”, defende a influenciadora. Entre o asfalto, a areia e os atletas, construiu seu próprio território e uma história que hoje já faz parte da cidade.
