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Lixo “esquecido” na praia invade os oceanos, afeta ecossistemas e acaba com vidas marinhas

Mais de 1,7 tonelada de resíduos já foi recolhida das praias de Maceió só neste ano; pesquisador fala sobre o problema

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Imagem ilustrativa da imagem Lixo “esquecido” na praia invade os oceanos, afeta ecossistemas e acaba com vidas marinhas
| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal

Basta dar alguns passos na areia da praia para se deparar com um lixo “esquecido” por algum banhista. Um canudo, uma tampa de garrafa ou uma sacola plástica aparentemente inofensivos, mas que têm prejudicado de forma severa o ecossistema marinho, matando espécies e destruindo corais.

O problema é global, mas o Brasil responde por uma grande parcela da poluição marinha registrada atualmente, com o despejo de mais de 1,3 milhão de toneladas de plástico nos oceanos por ano. Em Alagoas, também é grande a quantidade de resíduos deixados no mar. Em 2025, conforme dados da Superintendência Municipal de Desenvolvimento Sustentável (Sudes), foram recolhidas somente nas praias de Maceió 9,4 toneladas de lixo. Em 2026, até 18 de fevereiro, esse quantitativo já ultrapassava 1,7 tonelada.

O principal material responsável pela poluição do mar é o plástico e estudos apontam a estimativa de que, a cada minuto, entra o equivalente a um caminhão de lixo plástico nos oceanos. Em Alagoas, pesquisadores avaliaram a presença desse material poluidor ao longo de todo o litoral e ele foi encontrado em todas as praias avaliadas, sendo mais frequentes os de uso único, como sacolas, copos, embalagens de salgadinhos e canudos.

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| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal

De acordo com o pesquisador da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e coordenador do ECOA LAB, o professor doutor Robson Santos, um item que também se destaca nas praias que ficam mais próximas dos centros urbanos, como a de Jatiúca e Ponta Verde, são as bitucas de cigarro, que, por incrível que pareça, estão diretamente ligadas ao plástico.

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| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal

“Muitas vezes as pessoas não associam as bitucas de cigarro ao plástico, mas elas são majoritariamente feitas de acetato de celulose, um tipo de plástico que não é biodegradável, além de terem vários resíduos químicos tóxicos adsorvidos durante o fumo”, afirma.

Recentemente, em parceria com o Instituto Biota de Conservação, o ECOA LAB fez uma pesquisa avaliando a ingestão de plástico pela tartaruga-verde e o resultado só demonstrou o que já se imaginava: uma em cada cinco tartarugas havia ingerido plástico.

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| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal

“Além disso, também mostramos que as tartarugas marinhas podem ser boas bioindicadoras de poluição por plástico, pois a quantidade de plástico ingerido por elas está relacionada à quantidade desse material encontrado nas praias. Ao avaliar a presença dele nas praias e a quantidade ingerida pelas tartarugas-verde, nós concluímos que o aumento de apenas uma unidade de plástico flexível, como sacolas plásticas ou embalagens de biscoitos e salgadinhos, por metro quadrado de praia, eleva em mais de 100 vezes da quantidade de plástico ingerida pelas tartarugas”, afirma.

Segundo o pesquisador, esse impacto vai muito além de um único animal. Estudos apontam que mais de 1.500 espécies já foram registradas ingerindo plástico, de baleias a insetos, podendo causar morte direta ou problemas crônicos de saúde. A chance de ingestão aumenta quando o material se assemelha ao alimento natural das espécies, seja pela forma ou pelo cheiro, e também quando os animais estão com fome ou possuem dieta mais diversificada, aceitando assim uma maior variedade de alimentos.

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| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal
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| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal
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| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal

“Quanto mais fome o animal tem, maior é a chance de ingerir plástico, pois ele passa a aceitar uma gama maior de tipos diferentes de itens como potencial alimento. Animais que naturalmente comem uma grande diversidade de itens alimentares, também seriam mais suscetíveis à ingestão de plástico”, destaca.

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| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal

Em trabalhos realizados ao longo do litoral brasileiro, foi constatado que mais de 70% das tartarugas analisadas ingeriram plástico e que apenas meio grama dele pode ser suficiente para provocar a morte delas. Em escala global, a ingestão de cerca de 20 a 30 itens eleva para 90% a probabilidade de morte em aves e mamíferos marinhos.

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| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal

Além da mortalidade, o plástico intensifica outros problemas ambientais. Nos recifes, por exemplo, aumenta a ocorrência de doenças e o branqueamento dos corais. Em nível biológico, estudos mostram que partículas microscópicas conseguem atravessar barreiras celulares e comprometer tecidos, afetando crescimento, reprodução e comportamento das espécies.

CONSUMO

Outro fator agravante é a própria lógica de consumo. Embora o plástico seja durável e resistente, quase metade do que é produzido vira embalagem descartável e grande parte é jogada fora em menos de um ano. “A reciclagem, por sua vez, resolve apenas uma pequena parcela do problema: menos de 10% do plástico mundial é reciclado e, no Brasil, cerca de 1%. Muitas vezes o material reciclado gera produtos de menor valor e não retorna à sua forma original”, pontua o pesquisador.

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| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal

Para o professor, a solução para o problema da poluição marinha passa necessariamente por mudanças estruturais. “Não iremos solucionar o problema apenas pela destinação correta do lixo e pela reciclagem. Precisamos reduzir a produção e o uso indiscriminado do plástico. Um material que dura centenas de anos não pode ser produzido para ser usado apenas uma vez”, reflete.

Ele defende ainda políticas públicas que incentivem uma economia circular, diminuam plásticos problemáticos e priorizem materiais menos nocivos ao meio ambiente e à saúde humana.

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| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal

“Nem todo plástico é igual. Os polímeros diferem em seu potencial de reciclabilidade assim como nos impactos potenciais à saúde humana e à biodiversidade. É inegável que o plástico é um material com qualidades, um exemplo disso é o seu uso na medicina. Porém, a poluição por plástico é um problema grave, crônico e onipresente, e que precisa ser encarado com seriedade. Precisamos de redução da produção e uso do plástico, e de políticas públicas que favoreçam uma economia circular e com produtos que sejam menos nocivos à saúde humana e ao meio ambiente”, fala o professor doutor Robson Santos.

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| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal

Ele conta que, atualmente, pesquisadores trabalham na elaboração de uma proposta para o município de Maceió e para o estado de Alagoas com estratégias de monitoramento e combate à poluição por plástico, buscando medidas baseadas em evidências para diminuir o problema.

Enquanto as políticas amplas não avançam, pequenas escolhas diárias podem fazer a diferença e, literalmente, salvar inúmeras vidas marinhas. Evitar o uso de produtos plásticos e descartáveis, por exemplo, pode ser a contribuição dada por cada pessoa para que as praias voltem a ser um habitat limpo e seguro para todos.

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| Foto: Cortesia ECOA LAB/Ufal

“As ações individuais têm impacto. Se você pensar que uma única unidade a mais de plástico flexível por metro quadrado na praia aumenta em mais de 100 vezes a quantidade de plástico ingerido pelas tartarugas, isso pode te fazer pensar duas vezes antes de pegar uma sacola plástica no mercado ou comprar produtos que geram rapidamente lixo plástico, como sacos de biscoito e salgadinhos ou refrigerantes, que também já sabemos que fazem mal para a nossa saúde”, conclui.

POLUIÇÃO NAS PRAIAS EM NÚMEROS

>>> 9,4 toneladas de lixo retiradas das praias de Maceió em 2025


>>> 1,7 tonelada de lixo retirado das praias de Maceió em 2026 (até 18 de fevereiro)


>>> O equivalente a 1 caminhão de lixo plástico é despejado nos oceanos a cada minuto


>>> Em Alagoas, uma em cada 5 tartarugas analisadas já ingeriu material plástico


>>> Apenas ½ grama de plástico pode ser suficiente para provocar a morte de tartarugas

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