Cidades
Fabrico artesanal mant�m viva tradi��o
Enquanto a fogueira queima em homenagem a São João, o pipoco das bombas faz a festa da pivetada e dá sustinhos em moças desprevenidas. Se o milho assa, casais mandam brasa num rala-bucho bom, mas donzela só pode soltar chuvinha. O som do forró é misturado com estalos de bebé, rajadas de traque e tiros de pistolão. Fogos artesanais dão um tempero acústico às festas juninas e garantem o reforço na renda de milhares de famílias alagoanas. A Associação dos Produtores de Estalos de Salão de Murici estima que as 14 fábricas de traque da cidade geram renda para mais de 2 mil pessoas. No entanto, quase nenhuma delas tem carteira assinada, o perigo de acidentes é constante e já houve vários flagrantes de trabalho infantil. Nos municípios de Ibateguara e São José da Laje, a produção de bombas e chuvinhas é ainda mais delicada porque utiliza pólvora e pode provocar grandes explosões. ### Invenção chinesa gera renda em Alagoas Sempre que compra o material (pré-clorato, alumínio e enxofre) para misturar e fazer a pólvora, o empresário José Lenildo Belarmino, o ?Deputado?, afirma que reflete como alguém pode ter inventado uma coisa dessa. ?O japonês ou foi o chinês é muito inteligente. Já pensou o cara que inventou a pólvora? Como foi que ele chegou lá??, indaga o ibateguarense. Na verdade, a pólvora foi inventada por chineses que buscavam, por ironia do destino, o elixir da imortalidade no século 9. Segundo o empresário, Ibateguara só produz fogos artesanais, utilizando apenas homens como mão-de-obra. ?Estes fogos de artifício bonitos são feitos nas grandes fábricas de Minas Gerais e da Bahia. Lá eles não deixam a gente nem entrar e uma coisa curiosa é que só botam mulher para trabalhar?, observa. ### Chuvinhas têm preparo diferenciado O preparo de chuvinhas acontece em locais isolados da produção de bombas porque envolve quantidades muito maiores de pólvora. Na tenda do empresário Rodrigo Gomes da Silva, 25, apenas ele e o irmão mais velho trabalham. Com os braços e o rosto cobertos pelo pó prata, o fabricante pacientemente preenche com pólvora os 600 canudos de chuvinha amarrados num rolo só. Com a ajuda do funil, um a um, todos as chuvinhas são preenchidas em cerca de uma hora. Para agilizar a produção, eles já compram os canudinhos feitos e aumentam a cadeia de geração de renda da comunidade. ### Calçadas dão lugar para a produção dos traques O traque que vem da prata brilha no chão e nos olhos de centenas de mães do município de Murici. Elas ficam sentadas nas calçadas para produzir até mais de dez mil estalos de salão num dia inteiro de trabalho e garantir a principal fonte de renda da família. Além dos traques, algumas donas-de-casa também embalam crianças de colo durante a atividade. Cristiane Cardoso, 18 anos, dá uma pausa no trabalho para amamentar o bebê e se lembra de um acidente que sofreu há três anos atrás. ?A massa secou demais e estourou. Fiquei com as mãos inchadas e a bandeja cortou a minha barriga?, conta Cristiane, explicando que a massa composta por prata, ácido e areia grossa deve ser mantida úmida para não provocar acidentes. ?É perigoso, se demorar a embalar, a massa fica muito seca e explode com o atrito?, afirma. ### Produto é vendido para o mercado paraguaio O fabricante Dogival Lins atua no ramo de traques há vinte anos e garante que este tipo de produção é menos perigosa porque não utiliza pólvora, mesmo assim a manipulação da prata exige cuidados. ?Temos liberações do Ministério do Trabalho e do Exército para funcionar e é preciso usar equipamentos de segurança como óculos e protetor de ouvidos para preparar a prata?, explica. O quilo do metal precioso é comprado por cerca de R$ 1.500 e precisa ser derretido e misturado ao ácido para, então, se tornar um pó branco, extremamente explosivo e sensível a qualquer atrito. Por isso o material deve ficar bem umedecido ao se fazer a massa com a parte grossa da areia peneirada. ///