loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
sábado, 07/03/2026 | Ano | Nº 6176
Maceió, AL
25° Tempo
Home > Cidades

SAÚDE

Obesidade atinge 37,7% dos alagoanos e supera população com peso adequado

Dados mostram alta do excesso de peso e especialista alerta sobre desigualdade social ultraprocessados

Ouvir
Compartilhar
Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Whatsapp
Imagem ilustrativa da imagem Obesidade atinge 37,7% dos alagoanos e supera população com peso adequado
| Foto: AFP

Alagoas tem mais pessoas em situação de obesidade do que dentro do peso considerado adequado, com base nos parâmetros do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, vinculado ao Ministério da Saúde. Em 2025, do total de pessoas analisadas pelo órgão do governo federal, 37,73% estavam em algum grau de obesidade, que vai do nível 1 ao 3. Aqueles em condição adequada de peso formavam uma parcela de 25,91%.

A enfermeira de Maceió Junnyane Costa tem 31 anos. Com 1,75 metro de altura, ela pesa 106 quilos. Conforme os parâmetros estabelecidos, enquadra-se na obesidade nível 1. Para estar no peso considerado adequado, com base no Índice de Massa Corporal (IMC), precisaria estar com, no máximo, 75 quilos.

Ela conta que está pré-diabética e tem picos de pressão alta. “Não é nada fácil. Atividades simples do dia a dia às vezes são complicadas, como uma caminhada, subir e descer escadas”, relata.

Mas nem sempre foi assim. Entre 2019 e 2020, seu peso era de 70 quilos. Um problema familiar afetou de forma direta e profunda o seu emocional, o que, segundo ela, foi uma peça-chave para o ganho de peso. “Com o tempo foi aumentando. E a ansiedade foi piorando esse ganho. Quando me dei conta do meu peso, já estava com 106 kg”, conta Junnyane.

A enfermeira relata que tentou emagrecer diversas vezes. “Já tentei jejum intermitente, inibidores de apetite, shakes que prometem diminuir a fome, dieta da sopa, dieta para contar as calorias diariamente e academia”, afirma, destacando que as estratégias funcionavam por um período, mas depois não havia continuidade.

Segundo o Ministério da Saúde, em 2025, dentro de um total de 646.508 alagoanos avaliados, 243.930 estavam nos grupos de obesidade de níveis 1, 2 e 3, o que representa 37,7% da população. Esse percentual é maior do que o de pessoas dentro do peso considerado adequado, um total de 167.513, equivalente a 25,91%.

Além disso, o percentual de obesos em Alagoas também é maior do que a média do Nordeste, onde 33,85% da população está em algum nível de obesidade. No Brasil, o estado também apresenta índice superior à média nacional, que é de 36,29% da população obesa.

As taxas também aumentaram ao longo dos últimos anos. Em 2020, 31,01% estavam obesos; em 2024, eram 36,21%; e, em 2025, o índice chegou a 37,73%.

Para o professor da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e diretor da Associação Alagoana de Nutrição, Haroldo Ferreira, o percentual de obesos em Alagoas representa uma situação “bastante preocupante”.

“Quando menos de um terço da população adulta apresenta peso adequado e mais de um terço já se encontra em algum grau de obesidade, fica evidente que o excesso de peso deixou de ser uma questão individual para se configurar como um fenômeno coletivo. Nessa magnitude, e considerando suas consequências, estamos diante de um grave problema de saúde pública”, afirma o professor.

Segundo o Ministério da Saúde, a obesidade é uma doença complexa, gerada por múltiplos fatores de natureza individual, coletiva, social, econômica, cultural e ambiental. Isso significa que, nem sempre, a condição está associada apenas à responsabilidade do indivíduo.

“A obesidade aumenta o risco de doenças como diabetes, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer. Portanto, esses números não indicam apenas uma questão estética ou comportamental, mas revelam um importante desafio sanitário, com impacto direto na qualidade de vida da população e sobre o sistema de saúde”, pontua Ferreira, que também é pós-doutor em epidemiologia.

No caso de Alagoas, o professor ressalta a importância de considerar fatores como desigualdade social, menor renda média, insegurança alimentar, acesso irregular a alimentos in natura e ampla disponibilidade de alimentos ultraprocessados. Estes últimos, segundo ele, costumam ser mais baratos, duráveis e amplamente divulgados.

“Assim, esse percentual mais elevado de obesidade reflete um contexto social e econômico que favorece padrões alimentares menos saudáveis — muitas vezes não por escolha individual, mas por restrição de acesso e de oportunidades”, considera.

Ele cita um estudo recente conduzido por um grupo do qual faz parte, que analisou povos indígenas em Alagoas. Segundo o professor, foi identificado que 100% das crianças menores de seis meses já haviam consumido algum tipo de alimento industrializado, quando ainda deveriam receber exclusivamente aleitamento materno.

“O achado foi surpreendente, porque esperávamos maior preservação de práticas alimentares tradicionais; e preocupante, porque a introdução precoce de produtos ultraprocessados contribui para a formação de hábitos alimentares inadequados e para o aumento do risco de excesso de gordura corporal ao longo da vida”, explica o especialista.

O professor defende que nem sempre a obesidade está ligada à “falta de vontade” do indivíduo, já que o ambiente em que as pessoas vivem exerce forte influência sobre hábitos e decisões. Por isso, ele reforça a importância de políticas públicas voltadas a áreas como saúde, educação, assistência social, agricultura e planejamento urbano, capazes de favorecer escolhas alimentares mais saudáveis.

“As iniciativas do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional de Alagoas são exemplos importantes do que pode ser feito. Pode-se citar, por exemplo, a recente medida proposta pelo conselho e acatada pelo poder público estadual, que regulamenta o tipo de alimento disponibilizado nas cantinas escolares. Trata-se de uma ação relevante, não apenas por ampliar o acesso a opções mais saudáveis durante o período escolar, mas também por contribuir para a formação de hábitos alimentares adequados, com repercussões que ultrapassam o ambiente escolar”, afirma.

Relacionadas