AUMENTO
Matrículas na educação especial crescem 179% em Alagoas na década
Em 2025, eram 43.876 alunos dessa modalidade nas redes pública e privada dos 102 municípios alagoanos


Alagoas registrou crescimento de 14,2% nas matrículas da educação especial em 2025, atingindo 43.876 alunos. O número representa 5% do total de estudantes do estado. O avanço é ainda mais expressivo no recorte de dez anos: em 2015, eram 15.704 alunos, uma alta de 179%, segundo o Censo Escolar 2025 do Ministério da Educação (MEC). Os dados ganham rosto na história de Gabrielle do Egito, 17. Estudante do 3º ano do ensino médio e diagnosticada com autismo nível 1 de suporte, ela tem uma trajetória de adaptações e busca por inclusão real.
Segundo a irmã, Anne do Egito, 25, as dificuldades surgiram no maternal, quando o diagnóstico foi fechado. “Nos anos iniciais foi muito difícil, porque a gente não sentia acolhimento. A Gabi ficava muitas vezes excluída, no canto da sala, sem fazer parte das atividades”, lembra. O cenário agravou-se na alfabetização. Embora a escola se dissesse inclusiva, não oferecia auxiliar de sala. Sem apoio institucional, Gabrielle contou com a ajuda do auxiliar de outro aluno autista. A falta de suporte e episódios de bullying levaram a família a trocar a estudante de instituição três vezes. Desde o 6º ano, Gabrielle estuda na mesma escola, onde possui acompanhamento pedagógico e auxiliar. Contudo, Anne ressalta que o método ainda é falho: o material adaptado costuma ser simplista e pouco desafiador.
“A inclusão só acontece quando há conhecimento. É preciso capacitar professores, dialogar com as famílias e entender cada aluno para além do diagnóstico. É também necessário falar sobre autismo, TDAH, dislexia e outros transtornos, com as próprias crianças e adolescentes, porque a inclusão verdadeira só acontece quando há um conhecimento sobre cada situação. Os diretores precisam estar abertos a fazer a transformação para que as escolas se tornem referências não somente pela aprovação nas universidades, mas também pela inclusão dos alunos neurodivergentes. Eles também precisam de acolhimento, de educação de qualidade e de se sentirem pertencentes ao ambiente”, declara Anne.
Henilson Erthal, diretor-geral das Escolas Adventistas do Nordeste, confirma o aumento na procura por vagas, o que exige reestruturação. A rede tem unidades em Maceió e União dos Palmares. Para Erthal, o tempo de preparação é o maior gargalo: “Cada estudante apresenta necessidades específicas e, muitas vezes, a escola precisa responder a essas demandas em um tempo relativamente curto. Nem sempre as instituições se sentem totalmente preparadas”.
Para a pesquisadora e doutora em educação especial Daniela Ribeiro, o salto nas matrículas reflete o fortalecimento de políticas públicas, a Lei Brasileira de Inclusão e o aumento de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Entretanto, Daniela alerta que o acesso não garante a aprendizagem. “A inclusão depende de condições pedagógicas concretas”, pontua, citando a escassez de profissionais especializados e a falta de tempo para planejamento conjunto entre docentes. Para ela, a inclusão de qualidade ocorre quando o aluno não apenas está presente, mas acessa o currículo e interage socialmente. “A escola deixa de apenas garantir presença física e passa a promover aprendizagem significativa”, conclui.
Em Maceió, a Secretaria Municipal de Educação (Semed) registrou 5.738 alunos na educação especial em 2025, sendo cerca de 2 mil com TEA. Ao todo, 2.394 alunos recebem atendimento especializado em 116 Salas de Recursos Multifuncionais e 706 via parceria com organizações da sociedade civil. A rede municipal conta com cerca de 2.500 profissionais de apoio (eram 500 em 2021). O número de professores do Atendimento Educacional Especializado saltou de 100 em 2021 para 164 em 2025, enquanto o total de intérpretes de Libras passou de 8 para 21 nos últimos cinco anos.
A Secretaria de Estado da Educação de Alagoas (Seduc-AL) informa que o crescimento observado reflete um movimento nacional de ampliação do acesso de estudantes com deficiência, TEA e altas habilidades à escola regular. A Seduc diz ainda que os estudantes matriculados em salas comuns contam com o apoio do Atendimento Educacional Especializado (AEE), realizado prioritariamente em salas de recursos multifuncionais. Esse trabalho envolve a elaboração do Plano Educacional Individualizado (PEI) e do Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE), construídos entre professores da sala comum, da educação especial e equipe pedagógica. Além do suporte pedagógico, a secretaria diz desenvolver ações de apoio psicossocial, enfrentamento do abandono escolar e atividades de formação voltadas à temática da inclusão e dos direitos das pessoas com deficiência.
