CORTESIA
Estudo inédito mapeia mais de 800 áreas com potencial arqueológico em Alagoas
Vestígios estão distribuídos em todo o território, mas em especial em municípios banhados por rios
Um levantamento inédito no Brasil, realizado em parceria entre a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a Universidade Federal do Piauí (UFPI), a Equatorial Alagoas e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), identificou mais de 800 áreas com potencial arqueológico em todo o estado. A iniciativa, denominada Modelo Digital de Impacto ao Patrimônio Arqueológico de Alagoas, representa um avanço significativo para a preservação do patrimônio cultural e para o planejamento de obras de infraestrutura.
O projeto mapeia regiões com maior probabilidade de ocorrência de sítios arqueológicos, utilizando tecnologias digitais, dados geoambientais e levantamentos de campo. A ferramenta foi desenvolvida a partir de uma base de dados que reúne informações sobre relevo, tipos de solo e redes hidrográficas, fatores relacionados à ocupação humana ao longo do tempo.
Com o uso de algoritmos e ferramentas de geoprocessamento, o modelo estima a probabilidade de existência de vestígios arqueológicos mesmo em áreas ainda não pesquisadas. As equipes percorreram mais de 500 quilômetros em atividades de campo, contribuindo para o mapeamento de 863 ocorrências arqueológicas já registradas no estado e utilizadas como base para o desenvolvimento do sistema.
Segundo o professor da Ufal e pesquisador do projeto, Kleython de Araújo Monteiro, as ocorrências serviram de base para “ensinar” o modelo a identificar padrões e reconhecer características associadas à presença de vestígios do passado. “O modelo consegue projetar probabilidades em outras áreas semelhantes”, detalha.
Segundo o professor, o conceito de “potencial arqueológico” não significa a confirmação imediata de sítios. “Quando falamos em potencial, estamos dizendo que há chance de existirem sítios, com base em ocorrências já identificadas. Mas sempre será necessária a validação em campo”, explica.
O estudo foi desenvolvido ao longo de dois anos, além de meses adicionais dedicados à verificação de áreas em campo em diferentes regiões de Alagoas. A proposta surgiu de uma articulação entre o Iphan e a Equatorial Alagoas, com o objetivo de reduzir riscos ao patrimônio arqueológico associados a obras de infraestrutura.
Embora o levantamento represente um avanço, o professor ressalta que ainda não é possível dimensionar o potencial arqueológico de Alagoas. Isso porque a ferramenta foi desenvolvida para ser continuamente atualizada. “O modelo está preparado para se corrigir e se aperfeiçoar à medida que novas informações surgem, seja com a descoberta de novos sítios ou com dados mais detalhados”, afirma.
DISTRIBUIÇÃO
PELO ESTADO
Os vestígios arqueológicos estão distribuídos por todo o território alagoano, mas alguns municípios se destacam pela maior concentração de ocorrências, como Olho d’Água do Casado, Delmiro Gouveia, Piranhas, Penedo, Marechal Deodoro, União dos Palmares e Porto Calvo, além de localidades ao longo do Rio São Francisco.
Segundo Monteiro, essa concentração está relacionada a fatores naturais. “A água sempre foi essencial para a sobrevivência humana, então há uma tendência de maior ocorrência de vestígios próximos a cursos d’água. Além disso, áreas com determinadas características geomorfológicas também favorecem certos tipos de sítios”, explica.
Ele destaca que a maior incidência em alguns municípios também pode estar associada ao volume de pesquisas já realizadas nessas regiões, especialmente em função de grandes obras.
“Empreendimentos como barragens e rodovias exigem acompanhamento arqueológico, o que acaba ampliando o número de registros nessas áreas. Isso não significa que outras regiões não tenham potencial, mas sim que foram menos investigadas”, pondera.
CARACTERÍSTICAS
DAS ÁREAS
O estudo permitiu identificar padrões associados à presença de diferentes tipos de vestígios arqueológicos. “Vestígios cerâmicos, por exemplo, costumam aparecer em áreas com solos mais argilosos. Já sítios com pinturas rupestres estão mais associados a regiões com maior declividade, como paredões rochosos. Sítios históricos coloniais tendem a ocorrer em topos de morros”, explica.
O levantamento considera vestígios que vão desde cerca de 7 mil a 8 mil anos atrás até períodos mais recentes.
PLANEJAMENTO
DE OBRAS
A pesquisa deve se tornar uma ferramenta estratégica para o planejamento territorial, especialmente em projetos de infraestrutura. Integrado ao Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI) da Equatorial, regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o projeto recebeu investimento de R$ 1,2 milhão.
Para o engenheiro ambiental da Equatorial Alagoas, Diego Souza, o mapeamento já começa a influenciar o planejamento, sobretudo da expansão da rede elétrica. “O mapeamento de áreas com potencial arqueológico impacta diretamente tanto o processo de licenciamento quanto a execução. Assim, o planejamento da expansão da rede elétrica se torna mais seguro e eficiente, reduzindo atrasos e prevenindo impactos ao patrimônio arqueológico”, afirmou.
Diego diz que um dos principais desafios do setor é levar energia a novas áreas sem comprometer bens históricos e ambientais.
O professor Monteiro reforça que o modelo funciona como um indicador de risco, auxiliando na tomada de decisões ainda na fase de projeto. “A ferramenta permite identificar os caminhos menos arriscados, oferecendo mais segurança para o planejamento de tempo e custos, além de reduzir a possibilidade de imprevistos durante a execução”, explica.