DESCOBERTA
Caverna em Alagoas abriga uma das maiores colônias de morcegos do Brasil
Local tem mais de 20 mil espécimes e amplia conhecimento sobre a biodiversidade da Caatinga
Alagoas teve a primeira “bat cave” e “hot cave” reconhecida por especialistas. Situado no município de Belo Monte, no Sertão do estado, o local é considerado uma descoberta relevante para o ecossistema. A caverna, com cerca de 500 metros de extensão, abriga mais de 20 mil morcegos e revela um cenário ainda pouco conhecido da biodiversidade da região.
O local foi encontrado há cerca de dois anos por equipes da SOS Caatinga, durante uma expedição voltada à busca pelo macaco-prego-galego (Sapajus flavius). Desde então, a área passou a ser monitorada até receber a visita de especialistas, que confirmaram tecnicamente as características necessárias para classificá-la como uma “bat cave” e “hot cave”.
A confirmação veio após análises conduzidas por pesquisadores, entre eles a bióloga Jennifer Barros, doutora em Biologia Animal, gerente do Programa Brasil da Bat Conservation International e especialista em ecologia e conservação de morcegos cavernícolas. Segundo ela, as características desse tipo de ambiente são bastante específicas.
“Bat caves são cavernas com grandes colônias de morcegos, milhares deles. Algumas delas podem ser também hot caves, que são cavernas em que grandes colônias formadas por espécies de morcegos da família Mormoopidae alteram a temperatura no interior desse ambiente”, afirma, ressaltando o forte odor de amônia nesse tipo de caverna, devido ao “guano”, que são as fezes dos morcegos.
Na caverna de Belo Monte, diversos elementos físicos e ambientais foram determinantes para o reconhecimento. “Uma única entrada e pequena, presença de milhares de morcegos do gênero Pteronotus, temperatura e umidade relativa elevadas, com mais de 30ºC e quase 100% de umidade relativa”, detalhou a especialista ao descrever as condições do local. Esse conjunto de fatores cria um microclima extremamente estável, essencial para a sobrevivência das colônias.
A dimensão da população de morcegos também impressiona. De acordo com Jennifer Barros, a estimativa foi feita a partir de métodos técnicos. “Realizamos a filmagem e fizemos uma contagem dos morcegos saindo da caverna. Identificamos mais de 21 mil indivíduos”.
As espécies identificadas foram a Pteronotus gymnonotus e a Pteronotus personatus. Embora não sejam consideradas raras, a especialista ressalta que o tamanho da colônia encontrada em Alagoas é incomum. “As espécies não são raras, mas suas grandes colônias são. Das mais de 30 mil cavernas registradas no Brasil, cerca de apenas 20 são bat caves”, pontua.
INEDITISMO
O registro em Alagoas é inédito e tem grande impacto científico. “Essa descoberta é muito importante, pois, até então, só sabíamos que essas colônias estavam utilizando cavernas no Nordeste, nos estados de Sergipe, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. Esse registro em Alagoas preenche uma lacuna no conhecimento sobre a ecologia das espécies e pode contribuir para estratégias de conservação”, explicou.
MANUTENÇÃO DAS ESPÉCIES
Segundo a especialista, o local é fundamental para o ciclo de vida das espécies cavernícolas. “Essas espécies são dependentes de cavernas para a sobrevivência dos seus filhotes e manutenção de suas populações. Os filhotes nascem sem pelo e precisam ficar na caverna por um período de cerca de cinco semanas até que os pelos se desenvolvam e eles possam sair. Já as fêmeas formam colônias-maternidade, onde se revezam entre cuidar dos filhotes e sair para se alimentar”, diz Jennifer.
Outro aspecto relevante é a capacidade dos morcegos de modificar o ambiente interno da caverna. “As grandes aglomerações de morcegos aumentam a temperatura do ambiente dentro das cavernas para temperaturas próximas da temperatura corporal desses morcegos, cerca de 37 graus, e as características específicas dessas cavernas permitem a manutenção dessa temperatura e, consequentemente, a sobrevivência dos filhotes”, explicou.
Além da importância reprodutiva, Jennifer Barros destaca o papel ecológico desses animais. “Eles nos ajudam com diferentes serviços ecossistêmicos, como é o caso dos Pteronotus, espécie insetívora que se alimenta de toneladas de insetos todas as noites, fazendo o controle de pragas agrícolas e insetos vetores de doenças”. Ela também lembra que outras espécies desempenham funções de dispersão de sementes e polinização.
SEM VISITAÇÃO
Atualmente, o acesso à caverna permanece restrito, por orientação de especialistas, que defendem cautela para evitar impactos negativos, como “desmatamento do entorno das cavernas, mineração, vandalismo e o preconceito”, alertou a pesquisadora.
Ela também chama atenção para um problema recorrente. “Geralmente, as pessoas veem essa grande quantidade de morcegos e pensam que são os morcegos que se alimentam de sangue e tentam controlar as colônias com uso de pastas vampiricidas”, afirmou.
Esse tipo de prática pode causar danos irreversíveis às populações. “Precisamos proteger essas cavernas, sem visitação ou perturbação da colônia, com a criação de unidades de conservação. A educação ambiental é fundamental para que mais e mais pessoas saibam da importância desses animais tão maravilhosos”, finaliza.
De acordo com Marcos Araújo, coordenador do SOS Caatinga, há indícios da existência de outras cavernas na Caatinga alagoana, com potencial para abrigar colônias de morcegos, mas que ainda não foram exploradas.
Para ele, é preciso que as autoridades atuem para proteger esses espaços. “Precisamos de todo o apoio da prefeitura para que possamos fazer um projeto de educação ambiental para conscientizar toda a população”, destaca Marcos.