Cidades
Licen�as m�dicas est�o corretas
A Tia Socorro não é mais a mesma. A turma da 5ª série nota a diferença. Ela não liga mais para a bagunça, chora no meio da aula, esquece o assunto, vive irritada, tapa os ouvidos e puxa os próprios cabelos. Meses depois, a tia pede socorro à Junta Medica do Estado e os alunos ficam sem aula de Geografia. Socorro está entre os 1.611 professores da rede pública de Alagoas que receberam licença médica este ano. Cerca de 30% deles apresentam quadros de depressão e outras doenças mentais. Como as escolas estaduais têm pouco mais de 10 mil docentes para dar conta de 300 mil alunos, a grande quantidade de enfermos compromete ainda mais o já convalescente ensino público. Só nos últimos 45 dias, foram mais 533 licenças, cerca de 160 por avaliação psiquiátrica. Os números chamam a atenção do Ministério Público (MP) e geram desconfiança. Mas a suspeita revolta professores e peritos que lidam com os transtornos da mente humana. ### Mestra passou quinze dias sem dormir Assim como um veterano de guerra que se lembra das bombas e tiros disparados no front, a professora Maria do Socorro Nunes de Lima não suporta ouvir barulho após 26 anos de aulas em escolas públicas. Fica assustada, irrita-se e é atacada por uma dor de cabeça lancinante. Após cumprir várias licenças, tentou voltar ao trabalho no sossego de uma biblioteca no Cepa, mas não conseguiu por causa da algazarra que ouvia nos corredores e no lado de fora da escola. Gritos de alunos são como bombas para ela. ### Socorro: ?Não daria a primeira aula? A rotina de trabalho era chocante e ficava ainda pior quando chegavam notícias sobre o homicídio de algum garoto. ?Havia alunos nota dez e depois a gente sabia que eram bandidos e tinham sido assassinados?. Consciente do perigo que corria, a professora desenvolveu uma técnica para sobreviver nesta ?selva escolar? e evitar problemas. ?Quando sabia que era um bandido ou maconheiro, nunca batia de frente, sempre conversava e eles viravam meus amigos. Um desses alunos de Socorro foi o conhecido traficante Sandrinho, morto pela polícia. ### Preconceito inibe início de tratamento médico Boa parte dos professores que pedem licença por doenças mentais ficam frente a frente com o psiquiatra Adalcir Cunha, o único desta especialidade na Junta Médica. Alguns casos são aprovados pelos peritos em Medicina do Trabalho, mas a maioria passa por ele, que prefere não acirrar a polêmica sobre a suspeita do excesso de mestres afastados e se coloca à disposição para esclarecer qualquer caso. ?Chegaram a dizer que há licenciados trabalhando em outro lugar, basta me dizer quem é que a gente cancela a licença?. ### Diretor questiona levantamento do MP O diretor de perícia médica e saúde ocupacional do Estado, Geraldo Lima, garante que o número de licenças criticado pelo Ministério Público não equivale à quantidade de professores afastados. ?Hoje não temos mais do que 2,5% deles fora da sala de aula?. Segundo o médico do trabalho, algumas licenças duram apenas de quinze dias a um mês, muitos servidores receberam mais de uma licença e até a contagem dos 1.611 casos deve ser questionada. ?No Diário Oficial desta quinta, por exemplo, tem as licenças concedidas no último dia 10, que foram republicadas por alguma falha?. Para Lima, a interpretação destes números é bastante relativa. ?Confio plenamente na minha equipe, os critérios adotados não são graciosos?, enfatiza o diretor. ### Sindicato repudia promotora que contestou licenças Os trabalhadores da Educação do Estado aprovaram uma moção de repúdio à postura da promotora Cecília Carnaúba, numa assembleia realizada na última quinta-feira. Para o Sindicato dos trabalhadores em Educação do Estado de Alagoas (Sinteal), a representante do MP ?deprecia uma categoria por demais sacrificada e menospreza o adoecimento que de fato existe?. A vice-presidente da entidade, Célia Capistrano, afirma que os professores já tinham sinalizado para o problema, defendendo que o Estado desenvolva políticas e programas para minimizar o problema, principalmente humanizando a jornada de trabalho. ///