GESTO DE SOLIDARIEDADE
Recusa familiar à doação de órgãos é de 75% em Alagoas
Estado registra crescimento de 10% no número de transplantes realizados no 1º quadrimestre de 2026 na comparação com o mesmo período do ano passado
No primeiro quadrimestre de 2026, a taxa média nacional de famílias que recusaram a doação de órgãos foi de 45%. No mesmo período, Alagoas atingiu o percentual de 75%. Apesar do dado preocupante, o Estado registra avanços anuais: foram realizados 43 transplantes entre janeiro e abril, um aumento de mais de 10% em relação aos 39 procedimentos ocorridos no mesmo período de 2025.
Segundo a Central de Transplantes de Alagoas, vinculada à Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), o balanço deste ano inclui 37 transplantes de córneas, três de fígado e três de rins. Entre os beneficiados está o autônomo Fernando Cezar Azevedo Silva Júnior, de 24 anos, morador de Arapiraca.
Submetido a um transplante renal no último dia 6 de abril, Fernando recorda a rotina de hemodiálise que enfrentava três vezes por semana. “Eu esperei na fila do transplante do Hospital do Coração Alagoano, em Maceió, por três meses. Passei por um transplante renal. Aconselho quem não doa órgãos a doar, pois salva vidas. Um corpo pode salvar em torno de cinco a oito pessoas, doando alguns órgãos. E quem faz hemodiálise como eu, procure também entrar numa fila de transplante para ter uma qualidade de vida melhor”, disse.
FILA DE ESPERA E DESAFIOS CULTURAIS
Atualmente, 608 pessoas aguardam na fila por um transplante em Alagoas. A lista inclui 554 pacientes à espera de córneas, 40 por rim e 14 por fígado. Para a coordenadora da Central de Transplantes, Daniela Ramos, a principal causa da negativa familiar é o desconhecimento sobre a vontade do doador.
“Quando a gente vai analisar tecnicamente os motivos da recusa, a causa principal é o desconhecimento, em vida, do desejo do doador. A legislação brasileira não permite deixar a vontade registrada por escrito. A prática não é reconhecida legalmente para a doação post mortem. Então, a família tem que autorizar a doação”, analisa Daniela.
Ela reforça que o diálogo é essencial para superar tabus. “Muitas pessoas não conversam sobre isso, porque existem mitos e tabus. É uma questão muito delicada. É muito mais fácil quando a família sabe o desejo do doador em vida para que, no momento da fatalidade e de dor, possa realizar o último desejo. É até uma questão cultural”, avalia.
CENÁRIO NACIONAL E RECOMEÇO
O Brasil bateu recorde em 2025, com 31 mil transplantes, um crescimento de 21% em relação a 2022. O Ministério da Saúde aponta que o resultado reflete a melhoria na distribuição interestadual e o aumento das equipes de captação, que passaram de 1.537 para 1.600 profissionais entre 2022 e 2026.
Para o jovem Fernando Cezar, o transplante trouxe de volta a qualidade de vida. “Hoje eu estou muito feliz, pois agora eu não tenho mais limitações como antes. Posso comer coisas que antes eu não podia e, por conta do transplante de rins, eu voltei a urinar também. Está correndo tudo bem, graças a Deus”, comemora.
Sobre a rotina anterior ao transplante, Fernando Cezar recorda o desgaste provocado pelo tratamento e pelas condições de trabalho. O autônomo explica que o quadro clínico dificultava a execução de suas atividades profissionais, principalmente em dias de calor intenso, situação que ampliava o cansaço físico. Ele relata que a rotina profissional era frequentemente interrompida pela necessidade de deslocamento até a unidade hospitalar e pelo impacto das sessões de hemodiálise. “A sessão de hemodiálise exigia mais do meu corpo. A pressão baixava, eu saía fraco e muitas vezes eu não ia trabalhar porque eu tava cansado da hemodiálise do dia anterior”.
Fernando Cezar detalha que a rotina atual exige apenas o cumprimento de uma dieta equilibrada e o respeito rigoroso aos horários da medicação prescrita pelos médicos. O transplante permitiu que ele recuperasse hábitos simples, como se alimentar normalmente e consumir água sem as restrições severas do período em que os rins não funcionavam. A celebração por essa nova fase se traduz no desabafo que encerra o relato de sua trajetória: “Estou muito feliz porque não tenho as limitações de antes”.