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SEGURANÇA

Alagoas apreende seis armas por dia em ofensiva contra facções

Mercado clandestino inclui desde desvios de CACs até fuzis alugados por bandidos; preço chega a R$ 45 mil

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Imagem ilustrativa da imagem Alagoas apreende seis armas por dia em ofensiva contra facções
| Foto: GazetaWeb.com

Para chegar a Alagoas e cair nas mãos de criminosos, uma arma de fogo pode percorrer mais de 2 mil quilômetros, até ser distribuída em depósitos clandestinos. O fluxo funciona como um sistema integrado que dribla a fiscalização e abastece facções.

Esse trajeto já foi mapeado pela Polícia Civil de Alagoas. As investigações permitem que o armamento seja apreendido após chegar ao Estado. As forças de segurança pública estaduais e órgãos federais já apreenderam 536 armas de fogo entre janeiro e março deste ano, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública — média de seis por dia. Do total, 479 foram recolhidas pela Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP), enquanto instituições federais apreenderam outras 57.

Os dados apontam crescimento de 10,11% nas apreensões da SSP no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2025, quando haviam sido recolhidas 435 armas. Foram retirados de circulação: 200 revólveres, 121 espingardas, 95 pistolas, 5 metralhadoras, 2 rifles, 1 carabina e 55 armas de outros tipos.

AS VIAS DE ENTRADA E O TRANSPORTE

Segundo o delegado Gustavo Henrique Barros, há três maneiras para a entrada de armas no Estado. A primeira é o tráfico interestadual e internacional, em que o material entra escondido em veículos de carga ou ônibus vindos de grandes centros ou regiões fronteiriças.

A segunda é o desvio do mercado legal, quando armas são furtadas ou roubadas de proprietários com registro de CAC (Colecionador, Atirador e Caçador). A terceira via é a fabricação artesanal em oficinas clandestinas locais.

Na rota Centro-Oeste/Sudeste transitam as armas de fabricação estrangeira. “Elas entram pelas fronteiras internacionais do país, passam por estados como Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais e seguem em direção ao Nordeste”, descreve.

Outro fluxo envolve as rodovias federais. Pela BR-101, o trajeto sai do Sul em direção a Sergipe. Pela BR-316, passa pelo Sertão de Pernambuco e chega a Alagoas pelo interior. “A Região do Agreste, como Arapiraca, e a Região Metropolitana de Maceió funcionam como os grandes centros de redistribuição para as facções”, comenta a autoridade policial.

Engrenagem fundamental do esquema, os transportadores rodoviários têm pouca evidência na hierarquia do crime. “O mercado funciona, sobretudo, com a utilização de ‘mulas’, que frequentemente são pessoas sem antecedentes criminais”, afirma o delegado. Para dificultar o trabalho da polícia, as organizações evitam estocar o material em grandes lotes no mesmo local. “Elas são pulverizadas em residências de periferias, terrenos rurais no interior ou enterradas em áreas de mata”.

RASTREAMENTO FORENSE

A SSP possui ferramentas capazes de rastrear o armamento, identificar em quais crimes foi utilizado e apontar o momento do desvio. Uma delas é o exame de balística forense, executado pela Polícia Científica por meio de sistemas automatizados. “Eles comparam a ‘assinatura’ da arma — como estrias no projétil e marcas no estojo — com crimes anteriores. A Polícia Civil atua em parceria com a Polícia Federal e o Exército para cruzar dados com o Sistema Nacional de Armas e o Sistema de Gerenciamento Militar de Armas, identificando o primeiro comprador e descobrindo onde ocorreu o eventual desvio”, esclarece.

TERRITÓRIO E MOEDA DE TROCA

No dia 19 de janeiro deste ano, câmeras de videomonitoramento registraram criminosos armados durante a madrugada em São Luís do Quitunde. Segundo as investigações, integrantes de facções rivais disputam o controle do tráfico na região. O episódio mais recente aconteceu no Benedito Bentes, às 3h do dia 18 de maio, quando homens encapuzados e armados circularam pela comunidade do Mocambo. Segundo o delegado Igor Diego, o grupo saiu da comunidade Dandara para vingar a morte de um integrante.

O armamento também é utilizado na tomada de novos pontos de venda e em confrontos com as forças de segurança. Além disso, funciona como moeda de troca, sendo comercializado de acordo com o estado de conservação, a demanda local e o fato de a numeração estar raspada. “Ela capitaliza o grupo que a possui por meio do aluguel ou da revenda rápida no mercado clandestino”, comenta Gustavo Henrique.

Modelos de calibre restrito, como pistolas 9 mm ou .40, são alugados por períodos curtos para execuções de rivais ou assaltos. “O locatário paga uma taxa em dinheiro ou uma porcentagem do lucro da ação criminosa”.

A pedido da Gazeta, o delegado citou a média de valores no mercado clandestino e a finalidade de cada categoria. Um revólver calibre .38, por exemplo, pode valer entre R$ 4 mil e R$ 6 mil e costuma ser usado em crimes como assaltos rápidos ou na segurança de pequenos pontos de drogas. A espingarda (escopeta calibre 12) costuma ser comercializada por R$ 6 mil a R$ 9 mil e geralmente é usada para a defesa de propriedades rurais ou segurança estática em bocas de fumo, com finalidade de intimidação.

A pistola pode ser comprada por valores que giram entre R$ 7 mil e R$ 12 mil, sendo considerada uma arma padrão de lideranças do tráfico, usada para execuções encomendadas e assaltos de maior relevância. Já a submetralhadora e o fuzil custam, em média, entre R$ 20 mil e R$ 45 mil, empregados pelas facções para demonstrar força, proteger grandes carregamentos e atuar em confrontos territoriais.

DESTINAÇÃO FINAL

Quando apreendidas, as armas são registradas no inquérito e encaminhadas ao Instituto de Criminalística para laudo de eficiência e balística. Depois, ficam guardadas à disposição do Poder Judiciário, vinculadas ao processo criminal. Com a autorização do juiz, as que não interessam mais às forças de segurança são encaminhadas ao Comando do Exército para serem destruídas por esmagamento ou fundição.

Para que sejam integradas às forças policiais, o Estado precisa manifestar interesse ao juiz da causa. Após autorização judicial e parecer técnico do Exército — que avalia as condições de segurança e padronização dos calibres —, o armamento recebe novas gravações institucionais e passa a ser utilizado pela polícia.

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