Cidades
Tr�fico expulsa moradores de bairro em Macei�
Não há mais sossego em nenhum bairro de Maceió, mas em alguns, a criminalidade choca pela velocidade em que está crescendo. O bairro do Pinheiro, antes pacato e seguro, é um exemplo claro da mudança provocada essencialmente pelo tráfico de drogas. Opção de uma classe média formada basicamente por servidores públicos qualificados, como juízes, delegados, promotores de Justiça, por bancários, comerciários, o Pinheiro é apontado hoje como uma das áreas mais perigosas de Maceió. É quase impossível encontrar algum morador que nunca tenha sido assaltado ou não conheça alguém vítima da bandidagem. Na mesma área, a violência avança nos bairros Jardim Acácia, Alto do Céu, Sanatório, e nas localidades de entorno, como Jardim Alagoas e Mutange. Assaltos, onde se perde do celular ao automóvel, e em alguns casos a própria vida, têm marcado o cotidiano da população naquela área da cidade. ### Bandos infernizam padre e comerciante Relatos de pessoas assaltadas têm sido cada vez mais comuns na região do Pinheiro. A vítima pode ser qualquer um: homem, mulher, idoso, jovem, criança, adolescente. Não há nem mesmo um horário específico em que os assaltos aconteçam, à noite, como era comum até alguns anos. ?É a qualquer hora. E agora eles não estão nem se preocupando se tem muita gente em volta. Chegam apontando arma e ameaçando matar?, reclama o comerciante Deraldo Alves Silva Filho, de 50 anos, praticamente o mesmo tempo que mora no Pinheiro. Depois de ter o estabelecimento assaltado por três vezes, inclusive com arma apontada para sua cabeça, mudou de local e de atividade. ?Estou agora vendendo móveis usados. Espero que os bandidos me esqueçam um pouco?, diz Deraldo Silva. ### Vítimas diante de bandidos drogados O estudante assaltado quando se dirigia a um passaporte (lanchonete) próximo à sua residência, e que foi deixado apenas de camisa numa rua do Pinheiro, se mostra consciente de que poderia não ter tido tanta sorte, já que os assaltantes, que em sua avaliação aparentavam menos de 25 anos, davam sinais de que estavam drogados. ?Foi muito rápido, mas eles se mostraram nervosos, agitados?, acrescenta K. Situação semelhante viveu a estudante Ana Mércia Vieira, 20, assaltada próximo à praça Menino Jesus de Praga, no Jardim Acácia, onde mora. Dois homens numa moto lhe apontaram uma arma e exigiram o celular que ela, bastante nervosa, entregou rapidamente. Além desse episódio, ela conta que o irmão, de 14 anos, foi assaltado dentro do Cepa, onde estuda, por um rapaz vestido com camisa da Escola Moreira e Silva, uma das unidades do maior complexo educacional do Estado. ### Veneno que assola bairros da capital O crack invadiu a periferia de Maceió. É o que revela um estudo feito pela estudante Priscila Tenório Costa, 23, moradora do Pinheiro, que produziu um documentário sobre o uso dessa droga, na capital. Intitulado O Veneno Lata, o trabalho foi apresentado como tese de conclusão no curso de Comunicação, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). O Centro de Estudos e Atenção ao Alcoolismo e Outras Dependências (Ceaad), uma das unidades da Rede de Atenção Integral à Saúde Mental, em Alagoas, foi fonte de estudo na pesquisa realizada por Priscila Costa. Ali ela conseguiu depoimentos de usuários, que relataram como a droga está disseminada e destruindo vidas em toda cidade. ### Fornecedor entrega droga em domicílio aos usuários A droga está em qualquer parte da cidade, e não há dificuldade para adquiri-la. A exigência é uma só: dinheiro na mão. Até os riscos de ir pegar na ?boca-de-fumo? tem diminuído, pois os traficantes criaram formas de fazer a droga chegar ao usuário sem que este se desloque de casa, da porta do colégio, da casa da tia, do barzinho. Muitos deles têm uma espécie de serviço de entrega. Basta telefonar e a mercadoria chega onde o comprador estiver. No estoque a maconha é uma velha conhecida, mas enfrenta a dura concorrência do crack, uma droga hoje tão popularizada que já chegou ao interior de Alagoas. Há registro de apreensões em Marechal Deodoro, Santana do Ipanema e Arapiraca. Em Maceió os batalhões da Polícia Militar fazem apreensões diárias, quantidades significativas, confirmando o avanço dessa droga. Entidades de combate ao uso de entorpecentes alertam para uma epidemia do crack na capital alagoana. ### ?Boca-de-fumo?: lucro e armamento Para conhecer de perto a realidade de uma área da periferia dominada pelo tráfico pedimos a um ?guardador? de carros que nos ajudasse a conseguir entrevista com o ?dono da boca? e com seus ?empregados?. São rapazes entre 17 e 26 anos, que não estudam, dedicando todo o tempo ao ?serviço?. Eles têm turno definido para estar ali, seja para repassar a droga ao usuário que chega para comprar no varejo (duas a três pedras), seja para entregar aqueles que pegam quantidades maiores (10 a 20) para revender. Estão sempre armados, em alguns casos com armas de grosso calibre, como pistolas 380 e Ponto 40. Aqui vale uma pausa para salientar que o grande volume de dinheiro movimentado pelo crack está gerando um outro negócio criminoso: o tráfico de armas. Os traficantes estão sempre prontos a adquirir uma pistola, revólver ou qualquer outra arma potente. ///