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Parceria entre Arapiraca e USP usa plantas como bioindicadores de poluição

Bromélia barba-de-velho será usada para mapear a qualidade do ar e impactos da poluição na saúde

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Imagem ilustrativa da imagem Parceria entre Arapiraca e USP usa plantas como bioindicadores de poluição
| Foto: GazetaWeb.com

Em vez de sensores eletrônicos convencionais, Arapiraca agora usa bromélias altamente sensíveis à poluição para medir a qualidade do ar. No lugar de telas e gráficos instantâneos, estão as bromélias penduradas em árvores com a missão de revelar como a poluição atmosférica se espalha pela malha urbana. A iniciativa integra as ações do Programa Arapiraca Verde. O principal objetivo dos pesquisadores é cruzar dados minuciosos de vegetação, poluição atmosférica e conforto térmico para orientar futuras decisões.

Dados preliminares da gestão municipal indicam uma maior concentração de vegetação em bairros como Novo Horizonte, Senador Teotônio Vilela e Eldorado. Os pontos de monitoramento foram distribuídos estrategicamente de forma a representar diferentes realidades urbanas, estabelecendo um contraste claro entre áreas mais arborizadas e regiões consideradas mais “cinzas”, marcadas pela predominância de concreto e asfalto. As bromélias, que funcionam como bioindicadores, foram instaladas em bairros como Centro, Eldorado, Canafístula, Novo Horizonte e Planalto, além de locais públicos fundamentais como a Ciclovia do Trabalhador, o Bosque das Arapiracas e avenidas de grande circulação de veículos. A escolha busca permitir a comparação em tempo real entre microclimas urbanos e diferentes níveis de pressão ambiental, especialmente aqueles ligados ao intenso tráfego de automóveis.

O organismo escolhido para realizar esse monitoramento é a chamada barba-de-velho (Tillandsia usneoides), uma bromélia epífita que vive sobre o tronco de árvores e absorve água e nutrientes diretamente da atmosfera. Por não possuir raízes terrestres e não depender do solo para sua nutrição, a planta responde diretamente às condições e impurezas presentes no ar. Extremamente sensível às alterações ambientais, a espécie é considerada um bioindicador natural da presença de metais pesados e partículas nocivas emitidas pela queima de combustíveis fósseis. A leitura dessas respostas biológicas permite estimar a qualidade do ar em diferentes regiões da cidade, funcionando como um “sensor vivo” distribuído pelo território municipal.

O estudo é coordenado pelo doutorando em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP) Lucas Monteiro, em estreita parceria com a equipe técnica da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente (SMDUMA). A pesquisa dialoga diretamente com a chamada Regra 3-30-300, formulada pelo renomado urbanista holandês Cecil Konijnendijk. Essa regra propõe três metas claras para construir cidades ecologicamente mais sustentáveis: ver ao menos três árvores da janela de casa, viver em bairros que apresentem no mínimo 30% de cobertura vegetal total e estar a uma distância de no máximo 300 metros de uma área verde pública acessível.

Um dos pontos centrais abordados pelo estudo é a hipótese de que a distribuição de árvores não ocorre de forma homogênea na cidade — e pode refletir desigualdades históricas decorrentes do próprio processo de urbanização do município. Segundo a Secretaria, muitos dos bairros mais antigos de Arapiraca foram planejados e construídos em um contexto histórico no qual a arborização viária não era tratada como uma prioridade habitacional. A ausência de espaço adequado nas calçadas, os conflitos físicos com fachadas comerciais e a ocupação intensa do solo urbano contribuíram para a baixa presença de árvores nessas áreas tradicionais.

Em contrapartida, bairros de loteamento mais recentes costumam apresentar uma presença significativamente maior de vegetação planejada.

Dados da Prefeitura mostram que quase 60 mil árvores foram plantada na cidade desde 2022.

A principal hipótese científica defendida pelos pesquisadores é que as áreas urbanas com menor cobertura vegetal concentram uma presença significativamente maior de poluentes atmosféricos, o que poderá ser perfeitamente identificado por meio da análise laboratorial das barbas-de-velho recolhidas nos pontos de amostragem. O estudo busca relacionar futuramente esses dados biológicos a impactos reais na saúde pública, especialmente no que diz respeito ao surgimento ou agravamento de doenças respiratórias e crônicas associadas à poluição urbana cotidiana.

A aproximação acadêmica e institucional entre Arapiraca e a USP se intensificou nos últimos anos, impulsionada por eventos científicos e cooperações técnicas com o Instituto de Energia e Meio Ambiente da universidade paulista. O professor Maurício Lamano, orientador da pesquisa, participou ativamente de encontros sobre arborização urbana realizados no município alagoano e colaborou nas discussões do Plano Estadual de Arborização Urbana de Alagoas, que contou com oficinas de formulação sediadas em Arapiraca. A pesquisa atual é um desdobramento direto desse processo de cooperação científica e busca consolidar métodos replicáveis de avaliação da infraestrutura verde no contexto das cidades brasileiras.

Para a gestão municipal, o fato de o município se tornar objeto de uma pesquisa acadêmica desse porte é interpretado como o resultado prático de uma estratégia de planejamento ambiental estruturada, que envolve desde a arborização até a gestão de recursos hídricos, a ampliação da coleta seletiva e ações de educação ambiental nas escolas.

A expectativa das autoridades é que os dados produzidos pela parceria sirvam não apenas para o diagnóstico local, mas também como uma referência técnica para outras cidades brasileiras que enfrentam desafios semelhantes de urbanização, crescimento populacional e pressões climáticas.

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