COMPORTAMENTOS COMPULSIVOS
Maceió oferece tratamento no SUS para vício em apostas
Psiquiatra alerta que dependência digital ativa mesmos mecanismos cerebrais do álcool e de drogas
A popularização das plataformas de apostas online, as chamadas bets, transformou o entretenimento esportivo em um gatilho para o desenvolvimento de comportamentos compulsivos. Diante do crescimento expressivo de casos de dependência, a Prefeitura de Maceió passou a disponibilizar tratamento psiquiátrico e psicológico gratuito para pessoas com o transtorno por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), integrados ao Sistema Único de Saúde (SUS). O acolhimento atende a uma demanda urgente na saúde mental da capital.
“O acolhimento e o acompanhamento desse público são realizados em todos os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), por se tratar de uma demanda espontânea de saúde mental”, informou a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), em nota.
A ciência classifica essa dependência como ludopatia ou jogo patológico. A médica psiquiatra Suzzana Bernardes explica que o transtorno se configura quando o indivíduo perde o arbítrio sobre a atividade, resultando em severos prejuízos emocionais, sociais e financeiros. O mecanismo biológico do vício digital assemelha-se diretamente ao de substâncias químicas.
“O que acontece no cérebro é a mesma ativação de mecanismos envolvidos nas dependências de álcool e drogas. Há a ativação do sistema de recompensa. Quando a pessoa faz a aposta, há liberação de dopamina”, afirma Suzzana Bernardes.
O mercado de apostas expandiu-se expressivamente após a legalização em 2018 e a posterior regulamentação em 2024. Impulsionado por campanhas publicitárias agressivas que prometem lucros fáceis, o setor atrai perfis vulneráveis. Foi sob essa influência que o maceioense José Melo (nome fictício adotado para preservar a identidade do entrevistado) iniciou a prática.
“Eu comecei, vamos dizer assim, pela ilusão e pela influência também. Tá ali, no convívio, todo mundo apostando. Aí comecei ganhando, fui ganhando uma grana boa”, relata José.
O curso da patologia, contudo, é marcado pela necessidade obsessiva de reaver perdas financeiras, o que agrava o endividamento. Segundo a especialista, o cérebro do dependente sente prazer inclusive na incerteza e na sensação de “quase ganhar”. Com o tempo, o indivíduo perde o interesse por atividades cotidianas e hobbies saudáveis.
“Quando perdia, dava vontade de recuperar tudo. Aí que era pior, vamos supor, botava R$ 20, ganhava ali R$ 50, então pensava: ‘Ah, vou arriscar ali mais R$ 50’. Perdia os R$ 50, desses R$ 50 que eu perdia, tentava recuperar de novo com mais R$ 50, perdia e daí já ia embora R$ 100. Nisso fui me afundando cada vez mais”, detalha o apostador.
Em estágios avançados, a compulsão gera crises de abstinência e desvios de conduta nas relações familiares. José Melo relembra que a urgência em obter recursos para jogar o levou a criar justificativas falsas para conseguir transferências financeiras:
“Na época em que eu estava no vício total, me dava uma agonia [ficar sem apostar]. Eu começava a querer pedir dinheiro emprestado, entendeu? Com um e com o outro. Inventava alguma coisa para ver se o pessoal me passava. Aí inventava uma mentira qualquer, que o pessoal realizava um Pix”, conta.
Diferente de outras dependências, o vício em jogos de azar não manifesta sinais físicos evidentes, o que exige atenção redobrada dos familiares a mudanças comportamentais crônicas. Suzzana Bernardes orienta que parentes fiquem alertas a pedidos constantes de dinheiro, mentiras recorrentes, isolamento com dispositivos digitais, irritabilidade e insônia.
“O tratamento que eu trouxe foi suspender meu CPF de todas as plataformas pelo GOV. Pronto, não tenho mais acesso, e, mesmo se eu quisesse ter acesso aos sites, eu teria que preencher um formulário enorme”, conclui.
Para obter assistência em Maceió, os cidadãos podem procurar diretamente o Caps mais próximo de sua residência, sem necessidade de agendamento prévio.
*Sob supervisão da Editoria.