SAÚDE PÚBLICA
Alagoas registra alta nos diagnósticos de HIV e avanço da aids, aponta Sesau
Número de casos cresceu 8,7% entre 2024 e 2025
Era final de novembro de 2003. Roberto Marinho tinha 37 anos quando descobriu a infecção pelo vírus HIV. Junto com o diagnóstico, sua família recebeu o alerta de que ele teria pouco tempo de vida, pois a aids já havia se desenvolvido. Roberto lembra-se de ter entrado no hospital sem forças. “Eu entrei em pânico”, relata.
O ativista tratou a síndrome e reestruturou sua vida. Graças à evolução da medicina, atualmente quem vive com o HIV pode alcançar a velhice com saúde. Roberto manteve o vírus sob controle, hoje tem 60 anos e nunca mais voltou a desenvolver a aids.
Apesar da evolução dos medicamentos antirretrovirais — que transformaram a infecção em uma condição crônica e tratável, evitando mortes precoces —, Alagoas registrou um aumento no número de novos diagnósticos e na evolução para a aids entre 2024 e 2025.
Dados da Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas (Sesau) revelam que, em 2024, foram contabilizados 862 novos diagnósticos de HIV. Em 2025, o número subiu para 937, representando alta de 8,70%. Em 2026, já foram computados 518 casos positivos.
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O avanço da infecção para a aids também cresceu no período: foram 369 registros em 2024 ante 416 em 2025, elevação de 13%. Em 2026, 154 casos da doença foram oficializados. Em contrapartida, o número de óbitos decorrentes da aids apresentou discreta redução, passando de 168 mortes em 2024 para 159 em 2025.
A Sesau ressalta a distinção técnica entre o HIV e a aids. O HIV é o vírus que ataca o sistema imunológico, enquanto a aids representa o estágio avançado da infecção, quando a imunidade fica severamente comprometida e abre espaço para infecções oportunistas. Uma pessoa com diagnóstico de HIV que recebe acompanhamento adequado pode, portanto, passar a vida inteira sem desenvolver a aids.
EVOLUÇÃO HISTÓRICA E COMBATE AO ESTIGMA
Os primeiros registros de HIV/aids no Brasil surgiram no início dos anos 1980. Até meados da década de 1990, o diagnóstico positivo era encarado como uma sentença de morte. Entre o final dos anos 1990 e o começo dos anos 2000, a condição passou a ser tratável, embora os esquemas terapêuticos fossem complexos, marcados pelo consumo diário de dezenas de pílulas e efeitos colaterais severos.
Nessa época, o preconceito social ainda era intenso. Foi nesse ambiente hostil que Roberto recebeu seu diagnóstico. “Na casa de familiares, quando eu chegava e pedia água, percebia muita discriminação por viver com o HIV. Algumas tias não me deixavam nem abrir a geladeira para pegar alimentos. Isso me afetou muito e eu ficava triste ao ver o medo dos parentes”, relembra.
Desde 2003, a ciência simplificou o tratamento, e a maioria dos pacientes hoje consome apenas um ou dois comprimidos diários, com poucos efeitos adversos. “Quando a gente se cuida, adere à medicação e obedece às orientações médicas, vive uma vida considerada normal”, destaca Roberto.
A série histórica da Sesau mostra que, entre 2016 e 2026, Alagoas acumulou 7.888 casos de infecção pelo HIV e 4.371 registros de aids. As notificações de HIV subiram gradualmente: foram 627 em 2016, 750 em 2017 e 801 em 2018. Após uma desaceleração no período pandêmico — quando foram notificados 497 casos em 2020 —, os números voltaram a subir, culminando no pico de 937 diagnósticos em 2025.
Os casos de aids oscilaram ao longo da década. O pico da série histórica ocorreu em 2018, com 501 notificações, seguido por reduções até a marca de 369 casos em 2024, quando os registros voltaram a subir para 416 em 2025. Quanto à mortalidade, 1.668 pessoas morreram em decorrência da aids no estado entre 2016 e 2026, tendo o ano de 2023 registrado o maior volume de óbitos (202).
O DESAFIO DO ENVELHECIMENTO E A PREVENÇÃO
O médico infectologista Fernando Maia esclarece que os esquemas terapêuticos modernos conseguem reduzir a carga viral a níveis indetectáveis quando seguidos à risca. Na prática, a carga viral indetectável impede a transmissão do vírus por via sexual e evita a queda da imunidade.
“Hoje o paciente não apenas sobrevive, ele vive com excelente qualidade e mantém uma rotina normal”, explica Maia. Com o aumento da expectativa de vida, o perfil dos pacientes mudou e a população com HIV está envelhecendo, atingindo com frequência os 60, 70 e 80 anos.
“Precisamos de um olhar diferenciado para acompanhar o doente no contexto do envelhecimento. É preciso considerar a interação medicamentosa com remédios de uso contínuo e controlar condições próprias da idade, como hipertensão, diabetes e dislipidemia”, aponta o infectologista.
Roberto Marinho, que atualmente coordena o núcleo de Alagoas da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e aids (RNP+), confirma que o envelhecimento saudável é o tema central das discussões ativistas.
DIAGNÓSTICO TARDIO E DESCONHECIMENTO SOBRE PREVENÇÃO
Outro obstáculo enfrentado no combate à epidemia é o diagnóstico tardio, que ocorre quando o paciente descobre a infecção já em fase avançada de imunodeficiência. “Nesses casos, o paciente pode ter sequelas irreversíveis ou podemos não conseguir reverter a queda da imunidade. O ideal é a testagem de rotina em pessoas assintomáticas para iniciar o tratamento precocemente”, reforça Fernando Maia.
O médico aponta a falta de informação como um dos fatores para o aumento no número de contágios. “Muitas pessoas desconhecem o próprio diagnóstico e continuam transmitindo o vírus involuntariamente. Além disso, grande parte da população que se expõe ao risco não conhece ou não utiliza métodos como a PEP e a PrEP.”
Disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), a PEP (Profilaxia Pós-Exposição) deve ser iniciada em até 72 horas após uma situação de risco sexual, mantendo-se por 28 dias sob acompanhamento médico. Já a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) consiste no uso contínuo ou programado de medicação antirretroviral antes da exposição, bloqueando os caminhos de infecção do vírus no organismo.
Na sede da RNP+ em Alagoas, Roberto acolhe constantemente pessoas com diagnósticos recentes. Ele reforça a importância da aceitação e da busca imediata por auxílio médico. “É preciso procurar viver bem, se amar, cuidar da alimentação, tomar os remédios no horário correto e encarar essa como uma condição de saúde qualquer, mesmo que parte da sociedade ainda não a veja assim”, finaliza.