Cidades
Mata Atl�ntica sobrevive em Coruripe
Um dilúvio de cana-de-açúcar engole a Mata Atlântica alagoana. Desde o início da colonização do Brasil, um mar de plantações mata a mata, com sede insaciável. Após cinco séculos de devastação da flora e da fauna, um projeto navega às margens do Rio Coruripe com missão semelhante à da Arca de Noé: salvar a rica biodiversidade de espécies fadadas à morte. Em meio aos 36 mil hectares de terras da maior usina do Estado, o Sítio do Pau-brasil pode muito bem ser comparado à embarcação bíblica. Só que no lugar dos casais de animais, os escolhidos para sobreviver são mais de cem mil sementes de até 60 espécies de árvores nativas da região. Elas são levadas para viveiros que produzem de 60 mil a 80 mil mudas a cada ano. Destas, quase 45 mil se transformam em árvores. ### Coleta de sementes para reflorestamento Acompanhar os passos de Seu Nilo na mata exige fôlego e atenção para lidar com uma sobrecarga de informações a cada instante. Como um raio energizado pela força da natureza, o mateiro caminha em direção às sementes, observa tudo ao redor e tagarela sobre as propriedades da árvores, colegas de trabalho para garantir o reflorestamento. Entre os meses de setembro e março, ele e três ajudantes coletam sementes espalhadas pelos 8 mil hectares de mata da região. Sozinho, Seu Nilo cata quase 30 mil sementes todos os anos. A partir de março já se pode plantar as primeiras mudas do ano, mas os meses cruciais são maio, junho e julho, quando uma equipe de 50 pessoas entra em ação. ### Conscientização de habitantes faz projeto dar certo Biólogos e técnicos ambientais da usina desenvolveram os projetos de reflorestamento, que só começaram a dar certo após a conscientização da população vizinha das reservas. Já são mais de 450 hectares de corredores ecológicos introduzidos em terras da usina. Quase 700 hectares que antes eram de plantação de cana-de-açúcar foram devolvidos à mata. O supervisor de gestão ambiental da Usina Coruripe, Allan Henrique Pedrosa, destaca uma ideia que está ajudando a garantir o crescimento das mudas. No Povoado Pontes, em Feliz Deserto, agricultores recebem um lote de terra para cultivar na RPPN dos Pereiras. ?O plantio das árvores acontece em consórcio com a agricultura de subsistência, enquanto a mata não se fecha, eles cuidam da roça e fazem o coroamento das mudas, deixando o solo ao redor limpo e retirando as ervas daninhas?, explica Allan. ### ?A gente entrava na mata para destruir? Quem vê hoje o trabalho de seu Nilo, não imagina que o mateiro já foi um lenhador voraz e se intitulava o maior caçador do Nordeste. Mas na década de 70, auge da expansão canavieira estimulada pelo Proálcool, a ordem era desmatar em nome do progresso do País. Nessa leva, uma infinidade de homens como Seu Nilo tinham a tarefa de fazer as árvores tombarem a mando dos usineiros. ?A gente entrava na mata todo dia para cortar madeira, para fazer casa e para a usina queimar. Era só para destruir mesmo, não tinha a pretensão de hoje. Naquela época, o buraco foi muito grande, desmatava demais, o progresso veio sem limite?, lamenta Seu Nilo, lembrando do canto de pássaros que já não escuta mais. ?O curió e o caboclinho se acabaram, mas um dia eles voltam?. ///