SOLIDARIEDADE
Mais da metade das famílias alagoanas nega doação de órgãos
Falta de informação e diálogo prévio mantêm recusa em 55% e emperram fila que já soma mais de 600 pacientes no Estado
Com uma taxa de recusa familiar de 55% em 2025, Alagoas supera a média nacional de doação de órgãos, que ficou em 45% no mesmo período. O dado preocupante ganha destaque no Setembro Verde, mês de incentivo à doação de órgãos e tecidos. Enquanto a recusa predomina, 629 pessoas aguardam na fila por um procedimento que pode salvar ou transformar suas vidas no estado.
Para especialistas, o principal desafio para reverter esses números é explicar de forma correta e acessível à população como funciona a autorização para o procedimento. “Isso causa um impacto grande, tendo em vista que temos mais de 600 pessoas aguardando por um órgão hoje no nosso estado”, avalia Daniela Ramos, coordenadora da Central de Transplantes de Alagoas.
Atualmente, a lista de espera no estado é composta por 564 pessoas aguardando por córnea, 45 por rim e 20 por fígado — não há pacientes na fila por um coração. Entre janeiro e julho de 2026, foram realizados 76 procedimentos (62 de córnea, 8 de rim e 6 de fígado), número inferior aos 81 registrados no mesmo período do ano anterior.
A legislação brasileira exige o consentimento explícito dos parentes para a retirada dos órgãos. “A doação precisa ser autorizada expressamente pela família de primeiro grau ou, na ausência desta, de segundo grau. O nosso maior desafio ainda é a informação”, alerta Daniela Ramos, ressaltando a importância de manifestar o desejo em vida. “Se não conversarmos com nossos familiares, no momento da morte fica muito mais difícil para eles dizerem ‘sim’. Devemos informar a população sobre a importância de quem está na fila esperando por esse tão sonhado sim”.
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As autoridades reconhecem que a decisão ocorre em um momento delicado, logo após a constatação de morte cerebral, mas enfatizam que o gesto altruísta beneficia pessoas sem qualquer vínculo com a família do doador.
SUPERAÇÃO
A generosidade de uma família no momento da dor foi o que salvou a vida do estudante Jackson Filipe da Silva Santos, de 35 anos, morador de Marechal Deodoro. Em 2018, ele foi pego de surpresa ao ser diagnosticado com hepatite autoimune, condição que atinge o sistema imunológico e que acabou evoluindo para uma cirrose hepática, exigindo o transplante.
“Iniciei o tratamento entre idas e vindas ao hospital, chegando a passar 21 dias internado fazendo uso de medicações. A doença se agravou de forma silenciosa e, em 2024, quando eu tinha 33 anos, comecei a perceber um inchaço abdominal muito grande”, conta Jackson. Apesar de ser jovem e ter o plano de levar uma vida normal, viu o quadro se agravar após exames de imagem. Ele ressalta que sua cirrose não teve causa alcoólica: “Gosto de frisar isso porque as pessoas, por desconhecimento, ainda colocam um rótulo por conta da bebida, e no meu caso não foi”.
Apesar dos hematomas e do inchaço, ele não desistiu e continuou trabalhando e estudando no Instituto Federal de Alagoas (Ifal), onde busca realizar o sonho de ser professor. Até pouco tempo atrás, ele sentia seus sonhos sendo enterrados, mas a espera na fila durou dois meses e meio — um tempo considerado rápido.
“Recebi a ligação no dia 29 de agosto de 2024 para ir à Santa Casa realizar o transplante porque havia surgido um doador. Aquele misto de sensações vinha desde 10 de junho, quando fui listado. Conheci pessoas que nem tiveram a oportunidade de entrar na fila e faleceram devido à gravidade da doença”, recorda.
Para Jackson, o gesto anônimo representou um renascimento: “Houver esse sacrifício da partida do amor da vida de alguém, mas eu também sou o amor da vida da minha família. Agradeço muito a generosidade daquela decisão. Foi graças a essa doação que estou aqui hoje”.