CRIME ORGANIZADO
Documentos sigilosos revelam engrenagem financeira do CV em Alagoas
Empresas de fachada, mais de 100 contas em bancos e violência extrema fazem parte do modus operandi da facção
Por trás da estrutura de comando que operava a partir do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, a cúpula do Comando Vermelho (CV) em Alagoas mantinha uma engrenagem financeira sofisticada e um braço armado implacável. Documentos sigilosos da Polícia Civil e do Ministério Público de Alagoas revelam como o dinheiro do tráfico era lavado, a rotina de gastos dos operadores e o teor de mensagens que expõem a violência extrema da facção.
O principal operador financeiro desse esquema, segundo as autoridades, é Patrick de Almeida Silva, o PTK. Ele utilizava uma rede comercial de vestuário, barbearias e lojas de eletrônicos, entre elas a PTK Multimarcas e a PTK iPhone. Diligências de campo constataram que esses estabelecimentos quase não tinham circulação de clientes que justificasse o faturamento. Na prática, serviam para dar trânsito a transações pulverizadas. A quebra de sigilo bancário de PTK revelou a posse de mais de cem contas em instituições financeiras distintas.
A ocultação patrimonial passava, sobretudo, pelos parentes dos réus. A mãe de PTK, que não possui Carteira Nacional de Habilitação, aparece como proprietária de um Volvo XC60 e de uma Toyota Hilux usados pelo filho, além de ter registrado em seu próprio nome a empresa A P Vieira de Almeida Vestuário e Acessórios. O irmão dele transferiu mais de R$ 227 mil para as contas do influenciador. Um funcionário da loja de roupas foi usado para movimentar diversos volumes de dinheiro com PTK entre 2020 e 2024.
PTK ostentava um padrão de vida descompassado com sua renda: carros importados, motos aquáticas e viagens eram exibidos para os mais de 170 mil seguidores de sua conta no Instagram. As companheiras dos outros operadores adotavam conduta semelhante. Carla Danyele Cadete Gonzaga, esposa de Tinho, sem vínculo empregatício formal, submeteu-se a duas cirurgias plásticas, nos seios e no abdômen, e viajou com os filhos e os familiares do marido para o Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu e o parque Beto Carrero World. Viviane da Conceição Silva, esposa de Klebinho e operadora financeira do núcleo do Litoral Norte, movimentava valores discrepantes de qualquer atividade lícita e usava os recursos da mesma forma: viagens aéreas frequentes com os filhos e procedimentos estéticos.
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A violência que sustenta esse temor tem rosto e método. No Litoral Norte de Alagoas, sob a liderança de Klebinho e com o apoio de Ramon Vasconcelos, o Talismã, a facção impunha disciplina por meio do que os próprios investigados chamavam de “tribunal do crime”. Em uma sequência de imagens, uma mulher ainda não identificada aparece assassinada e esquartejada com facas, canivetes e serrote, com o corpo fracionado e colocado em baldes e sacos plásticos, depois submetido a uma solução química, possivelmente soda cáustica, num aparente esforço de destruir ou ocultar o cadáver.
Há ainda um episódio em que a confissão chega direto da fonte. Em julho de 2025, um contato identificado como Lalo enviou a Tinho um arquivo com fichas de pessoas investigadas pela polícia. Ao reconhecer um dos nomes ali listados, Tinho admitiu ter participado da morte dele: “Esse é pilantra, mas ele morreu tá ligado? Que a gente matou com mais de 27 tiros.” A perícia cruzou o nome com registros oficiais e confirmou que aquele homem foi, de fato, vítima de homicídio em 2025, após invasão à sua residência.