loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
sábado, 26/09/2026 | Ano | Nº 6320
Maceió, AL
22° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Cidades

APÓS 11 ANOS

‘CHACINA DE GUAXUMA’: caso termina sem condenação e com perguntas sem respostas

Único acusado de matar uma família quase toda ganha absolvição definitiva; somente criança sobreviveu

Ouvir
Compartilhar
Imagem ilustrativa da imagem ‘CHACINA DE GUAXUMA’: caso termina sem condenação e com perguntas sem respostas

Uma das histórias mais sombrias de violência em Alagoas chegou ao fim neste ano sem que ninguém fosse condenado pelo crime: a ‘Chacina de Guaxuma’, como ficou conhecido o quádruplo homicídio de Evaldo da Silva Santos, 29 anos, de sua esposa, Jenilza de Oliveira Paz, 25, e dos filhos do casal, Guilherme de Oliveira Santos, 2, e Esterfany Eduarda de Oliveira Santos, 8.

Imagem ilustrativa da imagem ‘CHACINA DE GUAXUMA’: caso termina sem condenação e com perguntas sem respostas

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu, em 26 de janeiro deste ano, restabelecer a absolvição do único denunciado pelo crime: Daniel Galdino Dias, reconhecido pelo único sobrevivente do ataque, o terceiro filho do casal, que à época tinha 5 anos. Com isso, o processo criminal que assustou a população alagoana pela crueldade foi arquivado em 2026 e só poderá ser reaberto se surgirem fatos novos.

A vida da família mudou completamente quando o casal decidiu sair do bairro da Pescaria para ir morar em Guaxuma, também em Maceió. Evaldo, à época catador de latinhas, conseguiu emprego de caseiro em um sítio. Apenas 15 dias após a mudança, o local virou palco do massacre que tiraria a sua vida e a de quase toda a sua família.

Às 10 horas do dia 8 de novembro de 2015, a polícia chegou ao Sítio Zé Peó, na rodovia AL-101 Norte, e se deparou com a cena do crime. Os quatro corpos estavam espalhados por pontos distintos. Jenilza foi encontrada atrás da casa, apenas de blusa e calcinha, com as mãos amarradas por uma corda elástica usada em bagageiros de motocicletas — a mesma utilizada para prendê-la a uma pilastra. Uma saia da vítima estava perto do seu braço esquerdo.

Shorts Youtube
Play
Carro bate em poste e interdita Avenida Gustavo Paiva, em Maceió

Carro bate em poste e interdita Avenida Gustavo Paiva, em Maceió

Play
Pedido cancelado mobiliza entregadores em frente a condomínio na Ponta Verde

Pedido cancelado mobiliza entregadores em frente a condomínio na Ponta Verde

Play
Avó e neto são presos após mãe e bebê serem mantidas em cárcere

Avó e neto são presos após mãe e bebê serem mantidas em cárcere

Play
Recém-nascido é encontrado carbonizado no DF; polícia busca suspeitos

Recém-nascido é encontrado carbonizado no DF; polícia busca suspeitos

Play
Aos 80 anos, Lula brinca em Maceió: “Decidi que vou viver até os 120”

Aos 80 anos, Lula brinca em Maceió: “Decidi que vou viver até os 120”

Todas as vítimas, segundo a Polícia Civil, foram mortas a golpes de foice
Todas as vítimas, segundo a Polícia Civil, foram mortas a golpes de foice

As crianças foram achadas dentro de valas formadas por material de construção, onde tentaram se esconder do ataque. O filho sobrevivente foi socorrido pelo Samu e levado ao Hospital Geral do Estado (HGE). Evaldo estava a 700 metros da residência.

Todas as vítimas, segundo a Polícia Civil, foram mortas a golpes de foice. Evaldo sofreu 11 lesões nos braços, teve uma mão decepada e um corte profundo na nuca que quase o decapitou. Eduarda e Guilherme apresentaram quatro e três lesões no rosto, respectivamente. Jenilza tinha seis ferimentos, a maioria na face.

A perícia concluiu que Evaldo estava na trilha de acesso à comunidade quando se deparou com o algoz. Golpeado e caído ao chão, continuou sendo atacado, e sua mão decepada foi jogada na vegetação. Em seguida, o assassino seguiu até a casa do caseiro, onde encontrou os demais familiares. A mulher foi capturada e levada aos fundos do imóvel, onde foi amarrada antes de ser morta. Na sequência, o criminoso buscou as crianças nas valas do terreno, atingindo primeiro Eduarda e depois os dois meninos.

A natureza da chacina levou as autoridades policiais e a Secretaria de Segurança Pública a afirmarem que nunca haviam presenciado tamanha crueldade. Uma comissão de delegados foi criada para investigar os motivos e os responsáveis pelos assassinatos.

Imagem ilustrativa da imagem ‘CHACINA DE GUAXUMA’: caso termina sem condenação e com perguntas sem respostas

O primeiro suspeito foi o antigo caseiro, demitido para a entrada de Evaldo. A hipótese de vingança foi descartada após o homem apresentar um álibi. Denúncias anônimas apontaram outros suspeitos e motivações: desde retaliação do tráfico até a venda de uma motocicleta. Ao longo do inquérito, ao menos quatro pessoas chegaram a ser presas.

Daniel Galdino entrou na investigação após informações anônimas e relatos de moradores que disseram ter sabido dos corpos por ele. Segundo as testemunhas, Daniel chegou nervoso afirmando ter encontrado o cadáver de Evaldo a caminho da praia, ter corrido até a casa para avisar a mulher — achando-a também morta — e ter sugerido procurar as crianças no sítio. Ao depor, Daniel entrou em contradição com esses depoimentos.

Ainda em 2015, os suspeitos foram apresentados por fotografias à criança sobrevivente, que apontou Daniel Galdino como autor dos ataques nas três vezes em que foi submetida ao procedimento. Esse método por fotos hoje é limitado a apenas uma vez pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Em 10 de dezembro de 2015, na sede da Polícia Federal, ocorreu o reconhecimento presencial com 13 homens divididos em três grupos. No grupo em que Daniel estava, o menino apresentou forte temor e se agarrou a um delegado — reação interpretada pela polícia como confirmação de autoria.

À época, a comissão de investigadores afirmou não ter dúvidas sobre a execução do crime e levantou a hipótese de que a motivação envolveria uma negociação sobre a compra de um barco com o irmão de Daniel. O investigado negou envolvimento e afirmou que estava na barraca de espetinho da sogra durante toda a madrugada. Preso em 24 de novembro de 2015, respondeu ao processo detido até 2022.

Imagem ilustrativa da imagem ‘CHACINA DE GUAXUMA’: caso termina sem condenação e com perguntas sem respostas

No julgamento pelo Tribunal do Júri, em março de 2022, o Ministério Público defendeu a condenação com base no depoimento da criança e na menção que ela fez a uma mancha branca no cabelo do agressor, compatível com a de Daniel. A defesa sustentou a tese de negativa de autoria por falta de provas. “Quero só me defender. Minhas mãos calejadas são de trabalhar no sistema, de pescar, e não de matar ninguém”, declarou o réu no plenário.

Os jurados absolveram Daniel por ausência de provas, e ele teve a prisão revogada após 6 anos e 4 meses preso. O Ministério Público recorreu ao Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ-AL), que anulou o julgamento e determinou novo júri. A defesa, contudo, recorreu ao STJ alegando que a anulação violava a soberania dos vereditos. Em 26 de janeiro deste ano, o STJ acolheu o pedido e restabeleceu a sentença absolutória.

Com o trânsito em julgado e o arquivamento, o caso emblemático termina sem respostas: se Daniel Galdino foi absolvido por ausência de provas, quem matou uma família quase inteira e por quê?

Relacionadas