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O Noel da Vila: a esperan�a que se encontra no lixo

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Papai Noel caiu no Lixão de Maceió. Tinha o pé atolado na lama com chorume do Alto de Jacarecica. Preso a poucos dias do Natal, esperado por crianças, soterrado por plásticos, papelões e restos de feira. Se existe, ninguém o viu, estava desaparecido, nem as renas sabiam onde achá-lo. Não pense que o bom velhinho despencou do trenó, passadão com a bela vista do mar em contraste com a montanha esfumaçada de lixo. Foi esquecido, jogado fora por alguém que deixou de acreditar nele. Mais um fora da lista de pedidos. Do canto mofado de uma gaveta, o enfeite de Noel deixou a chaminé e desceu pela lixeira, embarcou no caminhão da coleta e seguiu da área nobre da cidade para o fim do mundo do consumo. Perdido o encanto, partiu do Polo Norte para os confins do Lixão. Ao invés dos alvos flocos de neve a que está habituado, toneladas de entulho caíram por cima daquele senhor de barba branca, com sua distinta roupa vermelha. ### Rosinha: ?É o melhor presente de Natal? Rosinha é Maria Rosineide dos Santos, 23 anos, mãe de quatro filhos, encontrada pela reportagem da Gazeta de Alagoas no dia 10 de dezembro de 2009, na casa de taipa onde mora na Favela do Lixão, em Maceió. A fachada do domicílio chama logo a atenção. Ao lado da janela, uma escada produzida com material reciclado foi colocada de enfeite com os bonecos de Noel descendo, prestes a entrar sorrateiramente. ?É o melhor presente de Natal da minha vida. O meu esposo, ontem, achou tudo isso no lixo e trouxe para casa?, conta Rosinha, saltitante e orgulhosa com a façanha. As surpresas não param por aí, ela volta para dentro e sai com duas grandes caixas de plástico, amorfas, puxa dois fios de energia, ajeita uma gambiarra com várias tomadas e liga a estranha engenhoca vermelha e branca. ### Lembrança faz ex-catador desacreditar Dentro de um barraco na Vila Emater 2, o ar é nervoso. Conseguimos autorização para entrevistar um traficante e um viciado em crack (a famigerada noia). A mãe do chefe do tráfico na região veio nos conhecer de perto e sentou para conversar. O movimento por trás da porta fica mais intenso. Vez por outra, aparece alguém para nos encarar ou escutar as perguntas. A pauta da reportagem é a violência nas favelas e grotas de Maceió, em trechos onde nem a polícia entra. O traficante demora, não chega. O líder comunitário que fez o contato está com medo. O calor aumenta, pinga o suor. Decido sair para tomar um arzinho. No beco da favela, uma casa de taipa se destaca com cinco enfeites de Papai Noel subindo a escadinha ao lado da janela. ### Esperança surge entre a violência A pauta sobre violência foi cumprida. Entramos em alguns dos lugares mais perigosos de Maceió, entrevistamos traficantes, viciados e policiais para retratar um pouco do cotidiano hostil em grotas e favelas de Maceió. Mas havia muito mais para narrar. Aquela manhã inteira na Vila Emater 2 tinha revelado casos e personagens que não poderiam ser subtraídos da edição especial de domingo. Concluída a reportagem, hora de escrever. E agora, como contar as histórias natalinas no meio da matéria sobre violência? Sugeri aos editores mostrar que a violência também se expressa na falta de assistência médica, de acesso à educação e de outras políticas públicas. E, mesmo assim, catadoras de lixo, como Rosinha, nunca deixaram de acreditar em Papai Noel. Fugia do tema e faltava espaço nas páginas. A Gazeta estava repleta de anúncios, graças ao bom trabalho do departamento comercial e das agências de publicidade que garante os nossos salários. ///

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