PROBLEMAS CARDÍACOS
Alagoas tem maior taxa de mortalidade cardiovascular do Brasil
São 245 mortes por 100 mil habitantes; cardiologista aponta falhas na prevenção e subdiagnóstico de hipertensão
Aos 50 anos, o pai de Walbert Santos morreu em decorrência de problemas cardíacos. Passados 17 anos, a lembrança continua marcada pela surpresa de descobrir uma doença somente após o óbito. “Ele era novo, praticava atividade física e não fumava”, conta Walbert.
A história ilustra um dos maiores desafios no combate às doenças cardiovasculares: identificar os sintomas antes que provoquem complicações graves. Em Alagoas, o alerta ganha força diante dos números. O estado registra uma taxa de 245,5 mortes por 100 mil habitantes, a maior do país, segundo o Hub de Doenças Cardiovasculares da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). O indicador lidera o ranking nacional.
Para o cardiologista José Wanderley, a falta de políticas públicas voltadas à prevenção está entre os gargalos que precisam ser enfrentados. “Essas mortes estão relacionadas a cardiopatias, doenças congênitas, doenças preexistentes, arritmias e AVC. Muitas dessas enfermidades podem ser detectadas com um simples eletrocardiograma”, afirma o médico.
O eletrocardiograma registra a atividade elétrica do órgão e pode identificar alterações importantes no ritmo cardíaco. O exame, entretanto, não detecta sozinho todas as patologias. A necessidade do procedimento deve ser avaliada por um profissional de saúde, de acordo com o histórico clínico e os fatores de risco de cada paciente.
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Entre as condições que elevam o risco, a hipertensão arterial merece atenção especial por permanecer silenciosa durante anos. Sem o controle adequado, a pressão alta aumenta as chances de infarto, insuficiência cardíaca e comprometimento dos rins.
No estado, José Wanderley chama a atenção para o número de pessoas que convivem com o problema sem diagnóstico ou sem manter o tratamento indicado.
“Um terço da população de Alagoas tem hipertensão, mas metade não sabe. Da outra metade que sabe, apenas 50% faz o tratamento correto”, diz o especialista.
O desconhecimento representa um obstáculo à prevenção. Sem diagnóstico, o paciente não consegue controlar a condição. Mesmo entre aqueles que conhecem o quadro, a interrupção dos medicamentos, o uso irregular das doses e a falta de acompanhamento médico mantêm os riscos.
Além da hipertensão, a obesidade está entre os principais fatores destacados pelo cardiologista, que defende a adoção de um estilo de vida saudável para conter a exposição aos riscos.
“É preciso ter hábitos saudáveis e coibir os fatores de risco. A obesidade e a hipertensão são dois grandes vilões. A obesidade está sendo comparada ao tabagismo; é uma doença séria que leva a vários problemas de saúde”, pontua.
O médico também alerta para o consumo de alimentos ultraprocessados, que possuem composição nutricional desfavorável. “Um dos maiores venenos são os alimentos ultraprocessados, que colocam cores e sabores artificiais para serem mais atrativos”, completa Wanderley.
O problema não se restringe a Alagoas. Segundo a SBC, uma pessoa morre por doença cardiovascular no Brasil a cada 72 segundos. Até outubro de 2026, o país acumulava 318.945 mortes por essas enfermidades, conforme o Cardiômetro. O número corresponde a uma média diária de 1.194 óbitos.
Dados do Plano Estadual de Doenças e Agravos Não Transmissíveis, elaborado pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), apontam aumento da taxa de mortalidade por doenças do aparelho circulatório entre 2013 e 2022. O indicador passou de 167,0 para 200,1 óbitos por 100 mil habitantes no estado — uma variação de 19,8%.
Para José Wanderley, conter esses números depende de políticas públicas capazes de ampliar a prevenção, o diagnóstico precoce e o acesso contínuo aos cuidados de saúde na rede pública.