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�ndios formam tribo do diploma

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Palmeira dos Índios ? Idyarony é um guerreiro da tribo Xucuru Kariri. Com dezoito verões na vida e sangue vermelho na veia, o índio não teme ameaças, enfrenta o preconceito e luta contra a ignorância. Após desbravar os perigos da Mata da Cafurna e conhecer segredos do ritual do Ouricuri, o maior rito de passagem da sua vida aconteceu fora da aldeia. O curumim virou homem na marra, dentro da escola dos brancos, diante de provas de fogo e humilhações que jamais imaginou se deparar. Primeiro dia de aula do ensino médio. Idyarony estava todo orgulhoso. Deixava a aldeia para estudar na cidade de Palmeira dos Índios porque a escolinha indígena só tem ensino fundamental. Seguia cheio de expectativa no banco de madeira pregado na carroceria da caminhonete D-20, único transporte oferecido pela prefeitura. Tinha chegado ao colégio grande, entrou na sala, conheceu novos colegas, era o único índio presente (motivo de orgulho ou de vergonha?). Distância é vencida com dedicação A trilha da aldeia à universidade é árdua. A maioria dos alunos precisa cruzar boa parte do Estado para chegar ao campus em Palmeira dos Índios. Eles viajam da zona rural de municípios dos quatro cantos do mapa, como Porto Real do Colégio, Joaquim Gomes, Inhapi, Feira Grande, Pariconha e São Sebastião. Por causa da distância, os cursos acontecem dois dias da semana. Mas é puxado. Sexta-feira, das 13 às 22h30, e sábado, das 8 às 12 horas. Mãe de seis filhos e avó de dois netos, a aluna de Ciências Biológicas Rubenita de Lima começa a se preparar para as aulas na quinta-feira. Arruma a casa, deixa comida pronta para o marido, ajeita as crianças, revisa o caderno, separa as apostilas e a pequena bagagem para embarcar no ônibus de ?Seu? Cícero, na sexta de manhã cedo. Só volta sábado à noite. Até lá, a filha maior cuida dos mais novos. Todo esforço vale a pena para quem começou a realizar, após 38 outonos vividos, o sonho de ter um diploma. Toré para fortalecer os laços O próprio cacique Xucuru Kariri da aldeia Fazenda Canto, Manoel Celestino, foi conhecer a Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), conversou com os professores, perguntou detalhes sobre os cursos e dançou o toré para fortalecer os laços com a instituição. Vindo da zona rural do município de Pariconha, o Geripankó Cícero Pereira, 31 anos, destaca a importância de adquirir conhecimentos e capacitação técnica para repassar na tribo. ?Vamos preparar melhor os pequenos índios para atuar nesse meio cultural fora da aldeia, sem esquecer os nossos valores, a nossa cultura?, disse. Cícero já estudou em escolas de não-índios e ensina que é preciso estar atento para evitar problemas. ?Acredito que o preconceito só ganha espaço quando você deixa. Se você tem consciência da sua posição, da identidade cultural, se tem orgulho de ser índio, isso não acontece?, explica o estudante de Pedagogia, já formado em Letras por uma faculdade particular em Água Branca. Cafurna: lugar de difícil acesso A palavra ?cafurna? vem do cruzamento de ?cafua? com ?furna?, que significam antro, cova, esconderijo, lugar retirado e esquisito. Na aldeia da Mata da Cafurna, os índios mais antigos afirmam que o local também tem este nome porque a mata era cheia de furnas, utilizadas como armadilhas para caçar animais. De fato, o acesso à aldeia é para poucos. A longa subida na estrada de chão é o primeiro obstáculo, também é preciso conhecer bem o caminho para não se perder. E quando chega lá, o visitante que não é índio enfrenta a desconfiança dos aldeados. Só é bem-vindo quem recebe autorização do cacique para caminhar na área. Mesmo assim, no primeiro dia de visita, a reportagem da Gazeta ficou limitada a realizar entrevistas na creche e na escola porque os homens da tribo participavam da organização do ritual do Ouricuri. Ensino se adapta a avanços Aluna do curso da Uneal, Hildérika de Lima testemunhou 40 primaveras, dedicou metade da vida ao ensino de crianças da tribo e tem uma preocupação. ?Os alunos já vêm para a escola aculturados de casa. É a TV, o DVD, a antena parabólica e os próprios pais que os distanciam dos valores indígenas?. A professora esclarece que não é contra os avanços, mas destaca a importância de saber conviver com as mudanças. ?Eu posso usar o meu batom, dançar um forró ou um reggae, mas eu não esqueço da minha cultura, adoro dizer que sou índia, tenho orgulho do meu povo. Tem gente que acha estranho ver um índio de carro ou com TV em casa, mas os tempos mudaram, a gente também tem direito?, explica Hildérika. Índio não desiste do sonho Quando foi humilhado pela professora de inglês no primeiro dia de aula do ensino médio, Idyarony Wezely confessa que ficou sem saber o que fazer. Enquanto toda a classe zombava do nome indígena, ele confessou que, por um momento, sentiu vergonha, mas depois veio a raiva. ?Eu permaneci calado, porém, a professora disse ?não sei o que esses índios vêm fazer na escola, eles só vivem roubando terra de um, assaltando outro e não têm coragem de trabalhar, são um comboio de vagabundo sem ter o que fazer??. Quando disse para a professora se desculpar e que a vagabunda era ela, o índio foi expulso da sala, suspenso por quinze dias da escola e ameaçado de ser levado ao fórum para responder por desacato. ?Com tanto desaforo, eu também disse que ela era burra porque não tinha conhecimento da história do Brasil e que eu não deixava ninguém falar assim da minha cultura?, lembra Idyarony. Aldeias são invadidas por álcool e drogas A Mata da Cafurna está à espera de um pajé. O último foi destituído da função médico-espiritual por causa de dois problemas que afetam tribos e ameaçam a educação indígena. O alcoolismo e o uso de drogas também avançam nas aldeias e esculhambam vidas, assim como fazem na cidade grande. O ex-pajé Lenuir Tibiriçá ainda ostenta um grande cocar e gosta de posar para fotos com visitantes, principalmente se lhe dão um trocado. Ele mostra fotos de viagens que fez para Brasília e para a França, como representante dos povos indígenas, e ainda se apresenta como pajé da aldeia. Só que seu auge passou faz tempo e nenhum índio o reconhece como líder espiritual. Tribo está conectada ao mundo Tradição e tecnologia convivem na Mata da Cafurna. Às vezes em contraste, às vezes em harmonia. Como o novo e o antigo, a internet e o artesanato fazem parte da vida na aldeia. A dona de casa Tânia Alves de Souza já é avó de dois netos e usa o computador todos os dias, há quase dez anos. ?Temos a web via satélite e sempre acesso para fazer pesquisa, para me comunicar. Uso Yahoo, MSN, Google, Terra, Orkut, Blog e várias ferramentas. O índio tem que acompanhar a evolução tecnológica senão fica para trás?. Mainei Gomes da Silva, 20 anos, aprendeu com o pai que pode adaptar uma furadeira com polia para aumentar a produção de peças de artesanato e melhorar a renda. ?Assim a gente consegue fazer mais zarabatanas, arcos, flechas, lanças e cachimbos para a Semana do Índio. Vamos vender em Recife, dá para levar umas 200 peças?, calcula o artesão Cícero Correia, pai de Mainei.

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