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A dif�cil vida de quem precisa de um abrigo

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Alice cai no fundo do poço para chegar ao País das Maravilhas. Sonha, Alice. Em Maceió, o Poço é um pesadelo real, sem fundo e sem teto para dezenas de mendigos, catadores de lixo, viciados em crack e alcoólatras. O bairro que liga o Centro à parte nobre da cidade tem calçadas e praças disputadas por habitantes noturnos, num convívio que alterna camaradagem, desconfiança e intrigas. Na boca da noite, o maior ponto de concentração é a porta do Albergue Municipal Professor Manoel Coelho Neto, na Avenida Comendador Leão. Inaugurado há dois anos, o abrigo já reduziu a capacidade pela metade e não pode abrigar mais do que trinta homens e cinco mulheres. Quando a porta se fecha, quem fica fora perambula na ?selva? em que se transformam as ruas do bairro do Poço durante a madrugada. O morador de rua queimado semana passada: risco de morte Pouco mais de uma semana depois que atearam fogo em Josemir, o albergue tinha menos ocupantes, camas vazias davam mostras da frequência reduzida. Nas redondezas, as ruas estavam quase desabitadas. Na praça, apenas três ou quatro homens tomavam cachaça num banco mais afastado. Na calçada ao lado do posto de combustíveis, dois idosos dormem em cima de papelões. Próximo à esquina da Comendador Leão com a Avenida Brasil, um garoto se contorce, deitado sozinho, tremulando os braços e pernas, provavelmente sob o efeito do crack. ?Depois que incendiaram o rapaz não se acha mais ninguém aí na rua. Antes do acontecido, sempre juntava mais de vinte pessoas nessa praça?, informa o albergado Fabrício Augusto dos Santos, 31 anos. Abrigo é esperança para moradores A vida na rua não é fácil. Para quem habita no chamado mundo cão, o dormitório com banho de chuveiro, prato de comida e cama quentinha à noite é como um intervalo na novela de dramas enfrentados diariamente. Após dormir dois anos na rua, Alan Vicente Lima reencontrou no albergue a vontade de viver, o desejo de reencontrar a família e a força para lutar contra o vício da noia, como é mais chamado o crack entre os usuários de Maceió. Encontrar uma fonte de renda honesta é difícil, mas não impossível. Hoje, Alan trabalha como garçom para uma vendedora ambulante na Praia de Pajuçara, mas já penou ao tentar faturar como guardador de carros. ?Perdi um dente, levei pedrada na testa e apanhei dos outros flanelinhas porque fui olhar carro na área deles. Cheguei de bobeira e levei tromba, fui expulso?. Maioria enfrenta problemas com drogas A maioria dos hóspedes enfrenta problemas com drogas ou mora nas ruas, mas o albergue também abriga pessoas sem estrutura de habitação temporária, famílias de retirantes ou viajantes de passagem por Maceió que não têm dinheiro para voltar à terra natal. Ricardo Barcelos, 37, apresenta-se como consultor de vendas e começa a contar um pouco da sua história, dizendo que deixou o Paraná para encontrar uma filha em Fortaleza. Como estava desempregado e o dinheiro acabou, a viagem de volta foi interrompida em Maceió. Após encontrar apoio na Secretaria Municipal de Ação Social (Semcas) e conseguir retirar os documentos, resolveu morar em Maceió. Número de vagas cai pela metade A instalação improvisada dos conselhos tutelares das regiões 1 e 2 no albergue, desde julho do ano passado, tomou um sala e um quarto do dormitório masculino. Como outro quarto também foi fechado para funcionar como almoxarifado, a quantidade de vagas para homens caiu pela metade. Ao invés das 60 camas anunciadas no dia da inauguração, existem apenas 30 espaços, e nem todos nos beliches, alguns colchões ficam espalhados pelo chão. Nas noites de chuva, a lotação do abrigo sempre fica esgotada. Segundo a coordenadora Geovânea de Almeida, quando não cabem todos, o albergue aciona o Projeto Guardião, que tem um transporte para transferir o desabrigado até um albergue filantrópico na Pitanguinha.

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