loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 0
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Cidades

Cidades

Em busca de nossos ind�genas

Ouvir
Compartilhar

Água Branca ? Quase cinco séculos depois do primeiro contato dos silvícolas brasileiros com os corsários franceses, que os levaram ao Velho Mundo para requintada exibição na corte do rei Henrique II, uma missão de professores-doutores daquele país pisou o solo sertanejo para diálogo com cinco povos indígenas. A missão dos acadêmicos é nobre: fortalecer a luta de Geripankó, Kalankó, Karuazu, Koiupanká e Katokinn pela demarcação do território, indispensável à prática de rituais dos quais foram privados durante décadas para não sucumbir à famigerada opressão branca, ainda comum graças à perseguição política e ao trabuco do pistoleiro de aluguel. Bernard Emery e Phillipe Walter, renomados pesquisadores de temas antropológicos da Universidade Stendhal, vieram aos confins do Estado graças ao convênio firmado com a Fundação Educacional Jaime de Altavila (Fejal) para capacitação de professores que tiveram propostas de pesquisas selecionadas para defesa do doutorado com orientação da renomada academia francesa. Dança indígena era proibida por coronéis Água Branca ? Jardilina Maria da Silva, 62 anos, demonstrava vigor físico superior a alguns dos adolescentes que seguiam o ritmo do pajé Antônio Kalankó durante o toré, dança ritmada pelo som do maracá, instrumento chocalhante na mão do pajé e de outros integrantes da tribo Kalankó, em terreiro de chão batido no povoado Lajeiro do Couro, zona rural de Água Branca. O bailar noturno dos praiás Inhapi ? O kalankó Adeilton Paulo Santos Silva, 10 anos, dança toré desde os três. Depois de muita insistência, convenceu o avô Antônio Francisco dos Santos a levá-lo à tribo Koiupanká, em Inhapi, para assistir a outro ritual sagrado: a dança dos praiás que circulariam pelo terreiro da comunidade depois da incorporação dos ?encantados?, espíritos dos antepassados. ?A tradição não pode morrer. Criança dança toré e praiá desde cedo?, explicava o líder espiritual da comunidade vizinha e responsável pela escolha de três dos seus para integrar os 17 praiás que dançariam naquela noite, sob a ?regência? de um dos encantados que ominariam o terreiro das 19 horas até nascer do sol do domingo subsequente, quando a dança seria retomada. Sincretismo é uma característica Inhapi ? O sincretismo religioso é outra característica das cinco tribos sertanejas visitadas pelos franceses especialistas em estudos antropológicos. Na Koiupanká, por exemplo, a matriarca Iracema Maria da Silva, índia de 68 anos, é responsável pelo acompanhamento espiritual da tribo. ?Aqui a gente só não cura doença que é de médico?, justificou-se aos visitantes. Dependência para plantar e colher Pariconha ? O agricultor José Arnaldo Elias de Souza, 32, não esconde o sofrimento diário. Renda incerta ao fim do mês, depende da piedade alheia para a colheita de frutas e hortaliças para alimentar a mulher e os filhos pequenos, em residência na minúscula, área da nação Karuazu, no povoado Campinho. ?Ninguém aqui tem terra. Dependemos da boa vontade do fazendeiro para plantar e colher?, avisa. Cacique Nina lidera a nação dos Katokinns Pariconha ? Inicialmente inserida na comunidade Karuazu, a nação Katokinn assumiu sua identidade étnica em setembro de 2002, graças à luta da primeira mulher cacique em Alagoas, Maria das Graças Soares Araújo, 49, a cacique Nina, líder das 324 famílias que resistem às adversidades econômicas espalhadas pela periferia de Pariconha ou pela área de retomada na zona rural. A comunidade perdeu o domínio da língua materna, oriunda do tronco Pankararu, mas cultiva canções repassadas pelos ancestrais. ?Vocês precisam registrar isso antes que Pesquisador estuda imaginário Profundo conhecedor da realidade dos povos indígenas alagoanos, o pesquisador Jorge Vieira finaliza detalhes para viagem à França e início dos estudos com objetivo de produzir tese de doutorado, na Universidade Stendhal, sobre o imaginário e as raízes mitológicas dos povos Geripankó, Kalankó, Karuazu, Katokinn e Koiupanká. A catalogação do ritos indígenas também é um dos nortes do trabalho. O pesquisador conhece como ninguém a luta das cinco comunidades porque as ajudou a conquistar o reconhecimento oficial enquanto componente, em Alagoas, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), órgão da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), criado em 1972, não só pelo reconhecimento oficial destes povos como também pela garantia do direito à diversidade cultural.

Relacionadas