Cidades
N�o existe o crime perfeito
Era tarde de quinta-feira, por volta das 17 horas, quando chegamos à casa amarela, de número 259. Lá nos esperava dona Marilza Acioli, pedagoga, mãe de Fábio Acioli, o jovem atacado brutalmente, no dia 11 de agosto de 2009. Fábio foi encontrado com 80% do corpo queimado, após ter sido levado no carro em que dirigia, de propriedade de seu pai, para um canavial, no Benedito Bentes. Além de espancado, o estudante de Design Gráfico, aos 21 anos, teve o corpo embebido em gasolina e queimado. Passados dez meses da tragédia, dona Marilza recebeu a equipe da Gazeta com semblante triste e olhos aflitos, visivelmente abalada. Já se vai quase um ano desde que seu filho fora assassinado, mas a dor da perda permanece forte. A tentativa de trazer um pouco da presença de Fábio era notória logo à entrada da casa. Vários porta-retratos com fotos do filho estão dispostos na sala. E já que estamos em época junina e de Copa do Mundo, dona Marilza fez questão de escolher fotografias em que Fábio aparece trajando roupas típicas de São João e camisas da seleção. Panfletagem ?Nós tomamos essa posição porque eu acredito que alguém pode ter visto, presenciado alguma situação,ouvido alguém falar. Algo que venha a contribuir para que a gente possa concluir este inquérito. Não existe crime perfeito. A não ser que não queiram concluir. Mas eu não acredito que vai ser assim com o meu filho e espero que este não seja mais um caso nas estatísticas de crimes não solucionados?. Investigações Dona Marilza preferiu não falar muito sobre os rumos da investigação. Foi breve e repetiu, mais de uma vez, que acreditava na Justiça. ?Eu tenho esperança, estou acreditando no trabalho deles, porque senão... Acredito que o tempo é esse mesmo, antes de um ano acho que não vamos conseguir muita coisa. E a gente, com essa ajuda [distribuição de panfletos], pretende contribuir muito?. Acusados Durante as investigações, a Justiça pediu a prisão preventiva de três suspeitos de serem os executores do crime. Dona Marilza ficou cara a cara com um deles, Rafael Cícero de França, que no dia do crime foi atingido por um tiro e é acusado de participar da trama. Durante o encontro com o suspeito, dona Marilza não tinha autorização para falar ou questionar nada. ?Acredito que o objetivo era saber se eu o conhecia, se já tinha visto... Mas eu não o conheço, nunca vi?. Mandante ?Eu não acredito que houve mandante. E se houvesse, eu não acredito que seria para matar o meu filho. Meu filho foi confundido. Ele era um menino que tinha traços comuns, então o alvo poderia ser alguém com características iguais as dele. O Fábio não era um menino de se envolver com grupo, com bebida, com nada. Era um menino pacato, caseiro, família. Até hoje não existe uma pessoa que diga que o Fábio era chato, nem de brincadeira. Eu não acredito que ele possa ter dado motivo para a pessoa ter tanto ódio a ponto de matá-lo do jeito que matou?. Dia do crime Fábio costumava pegar a mãe no trabalho, todos os dias, às 17 horas. E na tarde daquela terça-feira não foi diferente. Após pegar dona Marilza, passaram em um supermercado e foram para casa. ?Ele chegou e foi logo tomar banho, porque tinha uma prova de inglês, numa escola de línguas. Disse que quando voltasse jantaria, porque já era 19h10 e a prova estava marcada para as 19h30?. Como era Fábio Segundo dona Marilza, Fábio não gostava de baladas. Geralmente frequentava a casa dos amigos ou os convidava para ir à sua própria casa. Ela diz que quando ele saía, no máximo ia para um barzinho, e que inclusive chegou a acompanhar o filho em uma oportunidade. ?O que ele gostava mesmo era de cinema?, lembra a saudosa dona Marilza, para em seguida comentar que Fábio não gostava de praia, por causa do seu biotipo físico. ?Ele se recusava a tirar a roupa e mostrar o corpo devido à obesidade, embora de fevereiro para cá, depois de uma cirurgia nas amídalas, tivesse emagrecido. Ele não comprava roupa, eu já sabia inclusive as medidas da circunferência da coxa e da cintura dele, porque ele tinha vergonha. Isso seria mais um motivo para as suposições de que meu filho frequentaria festas em lanchas não fazerem sentido?. Saudade Hoje, dona Marilza parece medir o tempo de uma forma diferente. Ela lembra que a família estava muito feliz, pois a irmã mais velha de Fábio voltaria para Maceió, depois de passar dois anos na Irlanda. Dona Marilza já programava um fim de ano na presença de todos. Emocionada e com voz embargada, comenta sobre a trajetória universitária do filho: ?Ele se formou designer gráfico este ano?, numa confusão de tempo verbal, como se por alguns instantes esquecesse de tudo. Na verdade, se Fábio estivesse vivo, concluiria o curso este ano. Dona Marilza ainda mostra, orgulhosa, um dos desenhos do filho, que segundo ela foi feito em um curso, em São Paulo, uma semana antes do crime.