Economia
Paix�o nacional come�a a pesar no bolso
Dez entre dez brasileiros elegem o feijão! O trecho da música consagrada pelas Frenéticas ? tema da novela Feijão Maravilha, exibida pela Rede Globo em 1979 ? continua valendo. Referência do sabor Brasil, o feijão mantém seu espaço de destaque na composição da mais substanciosa refeição diária na mesa brasileira. Mas manter a fidelidade a essa paixão nacional está cada vez mais pesado para o bolso do consumidor. De acordo com o presidente do Instituto Brasileiro do Feijão (Ibrafe), Marcelo Eduardo Lüders, a média nacional de preço do produto ao consumidor já subiu 175% este ano. Só nos últimos 45 dias a alta do preço foi de 100%. E a tendência que se observa de Norte a Sul do País, segundo ele, é de que vai continuar aumentando, pelo menos até meados de janeiro, quando começa a ser colhida a safra nos principais produtores ? os Estados do Paraná e Minas Gerais. Apesar do preço, alagoano não abre mão do feijão Do outro lado do balcão, o consumidor sente o peso, aciona a máquina calculadora, e confirma o alerta que vem do próprio bolso. ?Ficou muito mais caro comprar o feijão este mês?, avalia Maria Elúzia Gouveia. ?Já percebi isso há duas semanas. Está ficando difícil comprar?, confirma Severino Mariano. Mas, se está difícil comprar, mais difícil ainda para o brasileiro é abrir mão do sabor tradicional à mesa do almoço. Tem gente que não consegue passar um único dia sem comer feijão. ?Não tem jeito. Tem de comprar mesmo. Almoço sem feijão não é almoço?, diz Maria Elúzia. Na avaliação do presidente do Ibrafe, Marcelo Eduardo Lüders, não há mesmo substituto para esse famoso grão. Nem no peso nutricional, nem na relação de custo-benefício. ?Um quilo de feijão dá para alimentar mais de 10 pessoas. O consumidor pode até ficar três dias sem comer feijão, mas é difícil. Um trabalhador braçal, um operário da construção, se não comer feijão no almoço, quando chega as 3 horas da tarde já está com fome novamente?, observa Lüders. Queda na produção causou descontrole no preço do grão Não é a primeira vez que o preço do feijão solta as rédeas e galopa muito à frente dos índices gerais do IPC. Em 2008, por exemplo, o preço do quilo chegou a 7 reais. Este ano, a situação parece ser mais grave. A perspectiva do Ibrafe ? organismo não-governamental que acompanha o desempenho de produção e comercialização do feijãoem todo o País ? é de que o preço atinja os dois dígitos nos próximos meses. ?Pode passar de 10 reais?, diz Marcelo Eduardo, presidente da instituição. Segundo ele, o descontrole do preço aconteceu por causa da queda de produção registrada em todas as regiões brasileiras, por motivos diversos. ?O plantio foi menor este ano, nas principais regiões produtoras. Além disso, a safra sofreu efeitos do clima. Tivemos estiagem forte em São Paulo, chuva e seca no Nordeste, e isso comprometeu a safra. A tendência é que essa situação de preços altos continue até janeiro, quando sai a safra do Sul?, diz ele. Além disso, segundo Eduardo, este ano o governo não comprou todo o resíduo da safra passada, como se esperava. Produtor segura venda para elevar lucro | PATRÍCIA BASTOS - Repórter Arapiraca ? Conforme o secretário de Agricultura de Igaci, Valter Loureiro, apesar da melhoria na produção e do preço em alta, o produtor não deve comercializar toda a safra nesse momento. ?Quem vendeu o feijão há uma semana levou R$ 100 na saca, hoje esse valor já subiu para R$ 150. Mesmo assim, a recomendação é para os produtores não venderem tudo agora. Se eles aguardarem um pouco mais, poderão obter um preço ainda melhor daqui alguns meses?, declarou. Loreiro explica que a alta do preço do feijão, que no ano passado foi comercializado entre R$ 40 e R$ 60, se deve ao inverno atípico. Ele explica que em outras regiões produtoras, a estiagem prolongada provocou a quebra da safra, enquanto no interior de Alagoas, apesar de as chuvas terem chegado tardiamente, o inverno foi bom. ?A principal contribuição para o aumento da produtividade e a melhoria na qualidade dos grãos se deve ao clima. Apesar de o inverno ter começado mais tarde, atrasando o início da plantação, que normalmente acontece em maio, e desta vez só teve início no fim de junho, as chuvas tiveram um volume controlado, nem demais, nem de menos, trazendo lucros para o agricultor?, afirmou. Inverno atípico eleva produtividade Igaci ? A labuta é intensa, não dá para parar um minuto. Mas, mesmo com o sol causticante e a poeira levantada durante o trabalho de ?bater? o feijão ? processo para retirar os grãos de dentro da vagem ressecada, feito normalmente em máquinas acopladas a tratores ? o agricultor José Coleta, de Coité das Pinhas, Zona Rural de Igaci, sorri enquanto separa fardos de vagem. ?A gente fica triste quando o trabalho é pouco?, declara, sem parar de trabalhar enquanto conversa. ?Esses sacos de feijão já estão todos vendidos, depois de o feijão passar um dia ou dois secando no sol, o comprador vem buscar?, comemora. O entusiasmo de José Coleta tem um motivo, ele espera lucrar cerca de três vezes mais do que ganhou no ano passado com o feijão que colheu em suas terras. PB