Economia
Artes�o fatura menos de um m�nimo
Alagoas tem cerca de oito mil artesãos cadastrados no Programa do Artesanato Brasileiro (PAB). A grande maioria (86%) desses artistas populares, responsáveis por manter viva uma expressão singular da cultura alagoana, é do sexo feminino, e tira das cestarias produzidas em palha de taboa e ouricuri, e das rendas de linhas trançadas que desenham o filé, o labirinto, o redendê e a singeleza, a renda financeira para o sustento da família. Os dados revelados no primeiro Censo do Artesão Alagoano, concluído esta semana pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico, Energia e Logística (Sedec), mostram que para 72% dos artesãos alagoanos, a maior fonte de renda familiar vem exatamente da atividade artesanal. Mas a mesma pesquisa mostra o quanto pequena é essa renda. Pelo menos 62% dos artesãos entrevistados no censo tiram do artesanato uma renda menor que um salário mínimo, o que reflete as dificuldades de comercialização dos produtos. Desvalorização leva artesão a catar maçunim e sururu O artesão Guilherme dos Santos, acha que a procura pelo artesanato do Pontal da Bara, sobretudo pelo filé, sempre existe, mas na sua opinião, a concorrência aumentou muito, e por isso as vendas baixaram para cada artesão. Ele acha, também, que falta uma política de preços, para evitar divergência muito gritantes entre peças similares, além de um trabalho de valorização da produção artesanal. ?As pessoas acham caro, pensam que por ser artesanato tem que ser quase de graça. Mas isso tem custo, e cada peça é produzida individualmente, ponto a ponto?, diz ele. Ana Paula já viveu experiências desagradáveis com esse tipo de pensamento de que o artesanato não tem valor. ?Tinha aqui uma toalha de renascença belíssima, que custava R$ 500. Quando disse o preço, uma senhora olhou para mim e perguntou: ?minha filha, você tem ideia do que sejam quinhentos reais??. Eu apenas perguntei se ela queria aprender a fazer, porque só fazendo para saber quanto custa e o trabalho que dá?, diz a artesã. Apenas 12% já participaram de cursos A pesquisa do censo apontou, ainda, que 21% dos artesãos estão na atividade como complemento de renda e o mesmo percentual produz artesanato como forma de realização pessoal. No entanto, apenas 12% afirmaram já ter participado de algum curso de capacitação para o negócio, outro ponto em que o governo deve investir, se quiser contribuir para a sobrevivência dessa atividade. Guilherme dos Santos também herdou o ofício da tradição familiar, mas está entre os artesãos que já passaram por capacitação. Ele fez cursos de design e gestão de negócios e acha que deve haver mais oportunidades e os artesãos devem aproveitá-las. ?Eles devem ser estimulados a isso, porque o curso ajuda a aperfeiçoar a qualidade da produção e o atendimento ao cliente. E isso é fundamental no negócio?, diz ele. Maceió lidera em número de artesãos De acordo com o censo realizado pela Sedec, o município alagoano que mais tem artesãos cadastrados no PAB é Maceió, com 3.172. E isso abrange, por exemplo, os artesãos do Pontal da Barra, onde fica a maior concentração de produção e comercialização do Filé, renda artesanal feita a mão, com linhas multicoloridas ou em monocromia, trançadas numa rede também feita de linha, dando forma a toalhas artigos diversos. O filé é uma renda típica das regiões da beira da lagoa e sua produção tem uma relação direta com a atividade da pesca. Foi com os companheiros pescadores que as mulheres aprenderam a tecer a rede de linha, nos mesmos moldes da rede de pesca. E foi para preencher o tempo de espera da pescaria que elas começaram a preencher em bordados de linha, as redes vazada, com desenhos coloridos, dando novas formas, que vão do simples caminho de mesa até o chapéu de verão ou o vestido de noiva.