Economia
Uma nova chance para cultura de ostras
Coruripe ? Depois de ter sido apresentado como a redenção financeira de algumas pequenas comunidades pesqueiras, e de ter sofrido um abalo quase mortal, provocado por denúncias de um golpe que teria custado R$1,3 milhão aos cofres públicos, há mais de três anos, o cultivo de ostras no litoral alagoano ganhou alma nova, com a inauguração, no povoado de Barreiras, município de Coruripe, da primeira depuradora de ostras de Alagoas ? e primeira do Brasil com ciclo completo de ultravioleta ? que vai preparar o produto para a comercialização. O ato inaugural, na segunda-feira (2), contou com a presença do governador do Estado, Teotônio Vilela Filho, do embaixador da Espanha no Brasil, Carlos Alonso Zaldivar, e do coordenador geral da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Aecid), Jesus Molina, entre outras autoridades, como a confirmar a importância do empreendimento. Ostricultor encara desafio de elevar cultivo e renda Coruripe ? Na sede da depuradora, construída num terreno doado pela prefeitura de Coruripe na paradisíaca paisagem de Barreiras ? onde fica a foz do Rio Coruripe - o clima é de muita animação. A expectativa da associação, hoje constituída de 15 pessoas ? a maioria mulheres ? se revela no sorriso e no papo animado das ostricultoras, que parecem ansiosas para que tudo comece logo a funcionar. Pouco tempo atrás, a incerteza e o desânimo eram companheiros persistentes, que fizeram muita gente desistir. Agora, o ânimo parece revigorado. ?Vamos poder produzir mais e vender. Há poucos dias, um comprador de Recife queria fechar o fornecimento de três mil ostras por semana. Não pudemos fechar com ele, porque não temos condições de atender. Mas um dia vamos ter para muito mais do que isso?, anima-se Rosa Edite, presidente da Associação dos Ostricultores de Barreiras de Coruripe (Aobarco). Trabalho é duro e exige dedicação E logo quando chegam ao criatório, um susto. Um coqueiro arrastado pela água se enganchou bem no meio das mesas de ostra. ?Meu Deus, a nossa mesa! Acabou-se tudo?, diz Lindinalva Bispo. E logo todas correm para tirar as palhas cuidadosamente, uma por uma, até retirar todo o coqueiro de cima das ostras. ?Salvaram-se todas?, comemora Magnífica. Segundo a Associação, existem, hoje, 180 mesas no Rio e 250 novas para serem montadas. ?Começamos com apenas 5?, diz Edite. Maria José da Conceição está desde os primeiros movimentos para o cultivo da ostra, e confessa que muitas vezes desanimou e pensou em desistir. Agora, ?já cheguei até aqui, vou continuar e esperar dias melhores?. Ferramenta vai beneficiar dez mil ostras diariamente Coruripe ? O começo do trabalho com ostras foi há cerca de dez anos, quando as marisqueiras foram despertadas para um projeto de organização do cultivo da ostra, segundo elas, pelo hoje deputado federal Joaquim Beltrão. ?Apareceram cerca de 200 pessoas, mas a maioria pensava que ia ganhar cesta básica ou ter emprego, e não era assim. Aí só ficaram 30. Hoje somos 15 na associação?, conta Rosa Edite, presidente da entidade. Depois desses primeiros passos, veio o Instituto Oceanus, com recursos captados junto aos governos federal e estadual, ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e até da iniciativa privada para investir no cultivo de ostras, com a promessa de organização da cadeia produtiva da ostra. A semente foi plantada em vários municípios dos litorais Norte e Sul do Estado, criando muita expectativa. Em fevereiro de 2006, uma reportagem da Gazeta mostrava a potencialidade do cultivo de ostras para melhorar a vida das comunidades, e o sucesso que já se registrava na comunidade de Palatéia, em Barra de São Miguel. A ostra parecia pronta para sair da concha e virar renda para muitas famílias carentes, que estavam cheias de esperança. Alta taxa de mortalidade preocupa Segundo a engenheira de pesca Erleide Mendes, que há 11 meses acompanha os grupos de produção de ostras do litoral sul, um outro problema que os ostricultores também enfrentam é a alta taxa de mortalidade das ostras, não só por causa das mudanças de temperatura, mas também por causa de outros fatores, como as impurezas que são arratadas pelos rios, nesta época do ano, e acabam absorvidas pelas ostras, que adoecem e morrem. ?Elas são moluscos filtradores, se alimentam de partículas da água. Por isso são vulneráveis a essas mudanças?, explica a engenheira. Além disso, a arrumação no cultivo, na sua avaliação, ainda é precária, impedindo que todas cresçam, igualmente. ?Precisa melhorar o controle de quantidade e de qualidade?, diz ela.