Economia
Empresas familiares ganham mais espa�o
Criar e manter uma empresa familiar tem suas vantagens. A família trabalha unida; a relação de confiança é maior; e a energia do trabalho está focada na dedicação de construir um patrimônio, que um dia ficará para os filhos e netos. É isso que fundamenta as estatísticas que confirmam: a maioria das empresas nasce num ambiente familiar. E embora também seja grande o número das que não sobrevivem à próxima geração, algumas se tornam grandes e sólidas, como a Motorola, a Sadia, a TAM e o Unibanco, só para citar alguns dos muitos exemplos de empresas familiares exitosas. Em maior ou menor dimensão; seja no setor de comércio e serviço, na indústria ou no agronegócio; seja micro, pequena ou grande, essas empresas têm terreno fértil de criação, e nascem para serem passadas como patrimônio, de pai para filho. No entanto, a sucessão familiar pode se transformar numa séria ameaça à vida da empresa, sobretudo quando isso ocorre ? como é comum no Brasil ? de forma compulsiva, sem profissionalização e sem a preparação dos herdeiros, quem nem sempre anseiam ocupar o posto sucessório nos negócios da família. Conflitos são causa de dissolução de negócios Nem sempre é assim, de forma tranquila e planejada. Os conflitos familiares existem e são causa importante da dissolução de muitas empresas, e isso o advogado e administrador de empresas Jairo Melo percebeu ao longo de 20 anos trabalhando com planejamento comercial e assessoramento jurídico de empresas, no escritório que mantem em sociedade com o irmão e outras duas pessoas. ?Começamos a estender nossa atividade jurídica para esse campo, ajudando as empresas a criar um formato jurídico, por meio de contrato; de um protocolo de intenções, visando manter a harmonização necessária ao desenvolvimento da empresa familiar?, diz ele. Segundo Jairo, as empresas desse tipo são ambientes muito favoráveis à mistura de assuntos familiares e profissionais, tratados, nem sempre, de maneira consensual. O ideal, para evitar problemas maiores, diz ele, é que haja um tratamento jurídico preventivo ? quando fundador e futuros herdeiros criam instrumentos para evitar possíveis conflitos no futuro. Mas nunca é tarde para iniciar um processo como esse. Empresário quer ver filhos no comando Dono da pousada Capitães de Areia, na Praia do Francês, o empresário Celso Luiz Cícero alimenta a expectativa de que algum dos filhos, um dia, assuma o negócio, que hoje é tocado por ele e pela esposa. Por enquanto, além do casal, não tem ninguém da família entre os nove funcionários que constam na folha de pagamento. ?Eles virão quando estiverem preparados, e se for isso o que eles querem. Não temos pressa. Nunca forcei nada, para não gerar arrependimentos. O que estou querendo, nesse momento, é que a minha empresa se destaque no seu ramo de negócio, que seja uma pousada de excelência, e para isso busco qualificação. Fiz gestão financeira, conclui o curso de Direito recentemente. E quero que eles também se preparem para as funções que forem asumir, seja na empresa da família ou fora dela?, diz o empresário. Sócio bom, é sócio feliz, diz consultor A conduta da família no processo de sucessão empresarial está dentro dos padrões que o consultor Eduardo Najjar recomenda como a receita de sucesso. ?Não adianta forçar. Sócio bom, é sócio feliz?, diz ele, citando o exemplo do Unibanco, uma empresa familiar sólida. ?Um sucessor é o presidente do banco, o outro filho ? Walter Sales ? é feliz como cineasta. Cada um no seu papel, cada um no seu caminho, mas lembrando que a relação de sócio tem que ser respeitada. Quem tem sócio tem patrão e tem que dar satisfação. Mesmo numa empresa familiar?, disse. Para Silvia Chamusca, a gestão de uma empresa é, muitas vezes, influenciada pelas questões de comportamento, e há uma confusão entre os aspectos familiar e empresarial, sobretudo nas micro e pequenas empresas (MPE) ? que geralmente que trabalham com marido, mulher e filhos ? numa relação muito próxima e, por isso mesmo, mais suscetível a atritos. ?É preciso tratar essas dificuldades, passando pelo aspecto de profissionalização, que é muito importante?, diz ela, observando que, numa empresa familiar, muitas vezes não prevalece o aspecto profissional ? não se analisa currículo, e sim, os laços familiares. Empresas têm que se manter enxutas Outro aspecto extremamente prejudicial, segundo Eduardo Najjar, é quando a família serve-se da empresa e não serve à empresa. ?Os pais fundaram, serviram à empresa por décadas, construíram o patrimônio e aí vem os filhos, já encontram tudo pronto, e vão se servir da empresa, com cargo, com dinheiro, trabalhando ou não?, explica Eduardo. Outra coisa que Najjar recomenda é manter a empresa enxuta. ?Algumas empresas familiares não têm organograma, têm ?acomodograma?. Vai acomodando filho, primo, irmão, cunhado. Isso é um problema. Para caminhar firme rumo às próximas gerações, a empresa tem que estar enxuta?, diz ele.