Economia
Empresas lucram com fanatismo
O garçom profissional Agenor Araújo, 39, entendeu em 1998 que fazer parceria para atender à clientela específica de um determinado clube de futebol era um excelente negócio. Primeiro, investiu nos torcedores que assistiram aos jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1994. Quatro anos depois, fez de sua churrascaria (Telhado) reduto dos torcedores do Internacional (RS). Quando mudou o negócio para terreno próprio, a poucos metros do endereço anterior, veio o convite que o empresário classifica como um ?negócio da China?. Três universitários fanáticos pelo Corinthians (SP) lhe propuseram, dois anos atrás, transformar o espaço de sua empresa, nos dias de jogo do clube paulistano, em reduto oficial dos torcedores alagoanos ou paulistanos que moram em Maceió. Resolveu experimentar. Menos de um mês depois do início da ?invasão? corintiana à sua churrascaria, Agenor se convenceu de que era necessário investir ?pesado? para garantir conforto aos torcedores. Primeiro, investiu na compra de 4 televisores de LCD; depois, num telão de 2 x 1,8 metros para exibição de imagem no ambiente externo. Lugar chega a receber até 570 clientes No pavimento térreo da churrascaria, existem 30 mesas com seis cadeiras em cada uma. No segundo, são 25 mesas e a mesma quantidade de assentos. Na parte externa, cabem 40 mesas. Ou seja: de uma só vez, Agenor consegue atender a 570 clientes. Para satisfazer à voracidade dos clientes que lá aparecem para assistir a jogos de futebol, o empresário conta com um ?batalhão? de 15 garçons. Estes, por sua vez, entregam os pratos com carnes e outras iguarias com muita rapidez, porque quase tudo é pago de forma antecipada em dias de jogos. Explica-se: cada cliente passa no caixa e paga pela ficha correspondente ao produto que quer consumir. Quando a fome ou sede afloram, fazem solicitação aos garçons, que trocam os pedidos pelos pedacinhos de papel. Desse jeito, Agenor garante agilidade e evita, é óbvio, eventuais calotes. Vendedor: ?Só pode ser paixão? Ivanildo Francisco dos Santos diz não conseguir entender por que razão torcedores de um clube que não disputa partidas oficiais na primeira divisão do alagoano ? e que despencou para a quarta divisão do futebol nacional ? não param de consumir seus produtos oficiais. ?Só pode ser loucura, paixão. Realmente, não tenho explicação?, comenta Ivanildo, um dos dois vendedores contratados pela empresa que tem autorização para a comercialização de peças de vestuário e outros objetos contendo o símbolo do Centro Sportivo Alagoano (CSA). De fato, é inexplicável. A reportagem da Gazeta visitou a ?Base Azul?, em galeria no bairro de Mangabeiras, e testemunhou, em pouco mais de meia hora, diversos clientes comprando produtos ou simplesmente pesquisando preços. É o caso do funcionário público federal Roberto Correia, que recorreu à loja para vestir, ?dos pés à cabeça?, um parceiro de trabalho cujo nome apareceu no sorteio do ?amigo secreto?. Para presenteá-lo, Roberto escolheu camisa oficial, camisa polo e outros utensílios. Na loja do CRB, vendas estão em baixa A acanhada loja oficial do Clube de Regatas Brasil (CRB), anexa ao Estádio Severiano Gomes da Costa, na Pajuçara, vive momento inversamente proporcional ao bom desempenho do clube, que conseguiu o tão desejado acesso à segunda divisão do futebol nacional. Camisa, chaveiro, calção e copo, além dos artigos para trajar a garotada das categorias de base, são os poucos produtos à disposição do torcedor regatiano. ?As vendas foram péssimas este ano?, comentou a vendedora Rosângela de Oliveira. Mesmo assim, ela estima que 400 camisas do clube foram comercializadas na lojinha oficial, entre janeiro e novembro deste ano. ?Houve melhora significativa depois da classificação para a série B do Campeonato Brasileiro?, emendou. A camisa regatiana também é comercializada em outros estabelecimentos cujos negócios estão focados nos segmentos esportivos. ?Aqui, a camisa do CRB é uma das mais vendidas quando o assunto é futebol alagoano?, comenta Suarest Oliveira, da Aby?s Sport. Servidora recorre a produtos do camelô A professora aposentada Norma Menezes era só alegria na tarde da última quarta-feira, quando encontrou a reportagem da Gazeta dialogando com a vendedora autônoma Rosane Pereira dos Santos sobre a venda de camisas de time de futebol em praça do conjunto Santo Eduardo, entre os bairros do Poço e Jatiúca. ?Tem bandeira do Corinthians aí, milha filha??, perguntou à Rosane. ?Tem sim, minha senhora?, respostou à funcionária pública que queria atender ao desejo de sua filha, alagoana torcedora do clube paulistano. A lojinha improvisada dentro da carroceria de um Fiat modelo Fiorino estaciona no mesmo lugar há três anos, para atender às centenas de torcedores que renovam suas peças uma ou duas vezes por mês. ?Ganhando ou perdendo, a camisa que mais vende é a do Flamengo?, informa Rosane. Torcedor gasta R$ 6 mil para ?seguir? time Profissionais bem-sucedidos, Helder Lopes, Bruno Euclides e Kleberton Felipe têm prioridades pessoais e ofícios distintos, mas são exemplo de torcedores que já investiram ? e ainda investem ? pequenas fortunas em prol da paixão que os une: a Agremiação Sportiva Arapiraquense (ASA). O trio de amigos, que já marcava presença nas arquibancadas do Estádio Municipal Coaracy da Mata Fonseca, em Arapiraca, não pestanejou quando da necessidade de incluir a paixão pelo clube agrestino dentre os diversos itens de seus orçamentos domésticos. ?Os campeonatos Alagoano e Brasileiro da série C de 2009 consumiram quase 6 mil reais com a compra de camisas oficiais, passagens, hospedagens e ingressos para assistir aos jogos do ASA em Arapiraca e fora de Alagoas?, informa Kleberton Felipe. Clube anuncia abertura de butique oficial, de olho nos consumidores A diretoria da Agremiação Sportiva Arapiraquense (ASA) planeja inaugurar, em 2012 ? provavelmente no primeiro semestre ? sua butique oficial para comercialização não apenas de camisas do clube, mas também de linha diversificada de produtos que atendam aos torcedores adultos, adolescentes e crianças também. O departamento de Marketing do clube se baseia em estudo de mercado indicando que 350 mil torcedores de todo o Agreste estariam interessados em trajar camisa oficial ou presentear amigos e familiares com apetrechos diversos que façam alusão ao time que representa Alagoas na segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Atualmente, os poucos produtos com a marca do clube são comercializados em duas lojas de material esportivo do município, além de algumas em Maceió. A camisa oficial é fabricada por uma empresa de Recife (PE), que repassa, segundo a assessoria de imprensa do clube, 20% do valor da comercialização de cada peça. Imagem de atletas vencedores influencia consumo de produtos Outra situação muito comum de que a indústria de material esportivo tira proveito é a ascensão econômica de milhares de brasileiros A psicóloga alagoana Denise Moreira de Almeida Barbosa não teve alternativa senão atender ao carinhoso apelo de seu filho de 11 anos para que comprasse uma camisa e um par de chuteiras com propaganda do atacante Neymar, do Santos Futebol Clube (SP). Surpreendeu-se com o pedido e analisou os efeitos da publicidade sobre o seu rebento, o que, em sua opinião, pode ou não ser prejudicial, mas o levou à loja de material esportivo e o brindou com os produtos relacionados à imagem do atleta de cabelo moicano. ?Não poderia castrar o desejo de uma criança que está inserida numa sociedade de consumo, porque a aquisição do material em momento algum comprometeu as finanças familiares?, justificou-se a psicóloga, integrante do Conselho Regional de Psicologia (CRP/AL).