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Ramal ferrovi�rio em Alagoas pode ser extinto

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ROBERTO VILANOVA A Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN) ameaçou devolver o ramal ferroviário de Alagoas ao governo federal ou, então, fechá-lo, como fez com o ramal que ligava o Rio Grande do Norte à Paraíba. A empresa alega falta de liquidez para bancar totalmente o custo de recuperação da via férrea destruída há três anos. A empresa calcula em R$ 150 milhões o custo da recuperação da linha férrea em Alagoas, para o transporte de cargas, e admite que sem a ajuda do governo federal não tem como recolocar o trem na linha. Destruída pelas cheias dos rios Mundaú e Canhoto, o trem cargueiro que transportava açúcar, álcool, fertilizante e argila não circula há três anos ? o Estado continua isolado do resto do País, por ferrovia. A CFN alega que além do prejuízo causado pela tragédia das chuvas e cheias daqueles dois rios, ainda acumula perdas pela ociosidade dos vagões ? nem todos foram transportados, por rodovia, para Recife. ?Chegamos a colocar locomotivas em cima de caminhões e levá-las para Recife, pagando frete caro. Mas fizemos isso porque precisamos de tração?, explicou o encarregado das obras de recuperação da linha férrea, José Edvaldo. Sem condições O diretor comercial da CFN, Key Garrido, esteve em Maceió, manteve contatos com o governo do Estado, mas a negociação para a liberação do dinheiro esbarrou no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ? BNDES ? que alega quebra de compromisso contratual. A CFN alega que foi surpreendida pela fatalidade, referindo-se às fortes chuvas que se precipitaram em Alagoas, entre 1999 e 2000; o BNDES rebate, sustentando que a empresa sabia das condições precárias da linha férrea e não cuidou da sua recuperação no prazo em que se comprometeu. A CFN reage, alegando ter sido surpreendida ?pelo temporal atípico? que se precipitou no Estado. A ferrovia em Alagoas tem dois troncos ? um para o Sul do País e outro para o Norte, o primeiro através da ligação com Sergipe e o outro com Pernambuco. Mas as cheias dos rios Mundaú e Canhoto destruíram a linha férrea em Rio Largo e São José da Laje, impedindo o fluxo de trens. ?O único trecho onde é possível trafegar fica entre Arapiraca e Propriá/SE?, disse o encarregado de manutenção de linha da CFN, José Edvaldo, responsável pela recuperação dos trechos danificados pelas chuvas. Monopólio Ele já conseguiu recuperar a ponte sobre o Rio Mundaú, no distrito de Lourenço de Albuquerque, entroncamento ferroviário a 40 quilômetros de Maceió, mas o máximo de peso que a linha pode suportar é dez toneladas. ?Só pode passar o carro de linha?, disse Edvaldo, referindo-se à unidade móvel que transporta pessoal e material destinado à conservação da via férrea. ?Se colocar a locomotiva, a ponte desaba, porque não foi feito o reforço da estrutura de sustentação, ou seja, da base?, explicou. A Companhia Ferroviária do Nordeste é o resultado do consórcio formado pela Companhia Vale do Rio Doce, Bradesco e o Grupo Votorantim, vencedor do leilão de privatização da Rede Ferroviária do Nordeste ? o trecho privatizado, sob a responsabilidade da CFN, compreende os Estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí, medindo 4,5 mil quilômetros. Mas a Vale do Rio Doce detém o monopólio do transporte ferroviário no País, porque também é acionista da Ferrovia do Atlântico, que engloba Sergipe, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Cláusula O impasse na negociação da empresa com o governo federal, para a liberação dos R$ 150 milhões, está na terceira cláusula do contrato de privatização, que exige do grupo vencedor o compromisso de recuperar a malha viária. A direção da CFN reconhece o compromisso contratual, mas alega que as fortes chuvas e as cheias dos rios em Alagoas e Pernambuco agravaram a situação. Para comprovar a intenção da empresa em investir na melhoria da via férrea, a CFN apontou os investimentos realizados para implantação de comunicação, através de fibra ótica ? foram implantados mais de 300 quilômetros de cabos subterrâneos, segundo a empresa. Como a empresa acaba de anunciar o fechamento do ramal ferroviário entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, a ameaça de aplicar a mesma medida em Alagoas não é a tentativa de forçar o BNDES a liberar a ajuda financeira; já é realidade, considerando-se a desativação da estação ferroviária de Jaraguá, o único terminal de cargas ferroviária em Alagoas, e o anúncio de que a empresa não tem dinheiro para recolocar o trem na linha. Para os empresários (usineiros) que investiram na construção de terminais de embarque de álcool a situação é ainda mais complicada ? eles acreditaram nas promessas da CFN. São os casos do Grupo João Lyra, que construiu o terminal de álcool na Usina Laginha, e a família Oiticica, que gastou na recuperação do terminal em Rio Largo. O Grupo João Lyra transportava o álcool para o Ceará, Piauí e o Maranhão por ferrovia, com uma economia de quase 50% em relação ao frete rodoviário ? hoje, com a paralisação do transporte ferroviário, é obrigado a levar o álcool em caminhões para Recife. Se o impasse persistir ? a esperança é o novo governo (Lula) se sensibilizar ? a decretação da extinção da via férrea em Alagoas, para transporte de carga, é inevitável. O espólio O balanço da herança assumida pela CFN em Alagoas, após a privatização da Rede Ferroviária, exibe vinte estações, 450 quilômetros de linha férrea, cerca de oitenta vagões entre graneleiros, carroções e tanques e duas locomotivas diesel, além de 500 quilômetros de rede telegráfica que a CFN garante ter substituído por cabos de fibra ótica. Nada disso, no entanto, funciona ? as duas locomotivas foram levadas de caminhão para Recife, os vagões estão estacionados no pátio de manobra e as estações estão sendo fechadas. Sobre o fechamento do ramal entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, a CFN alega que foi por medida técnica, ou seja, a proximidade com Pernambuco, que dispõe de dois terminais portuários de carga ? Santa Rita, no Recife, e Suape, no município de Ipojuca. Embora reconheça que foi na Paraíba onde se registrou maior incremento no transporte de cargas, a direção da CFN justifica que o fechamento do ramal foi uma medida racional para que a empresa possa investir em outras áreas. Sobre Alagoas e o impasse gerado pela recusa do BNDES em atender ao pleito da CFN para liberar R$ 150 milhões, a empresa garante estar buscando parceria com o Estado e com os empresários que utilizam o transporte ferroviário. Um dos argumentos da empresa é a segurança do transporte ferroviário para cargas tóxicas. O diretor Key Garrido informou que a CFN está disposta a comprar vagões-tanques revestidos com polyester (anti-corrosivo) para transportar produtos químicos da Braskem.

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