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Sem-teto ocupam pr�dios da Rede Ferrovi�ria

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ROBERTO VILANOVA Arapiraca - Sentada à beira da plataforma, arejando-se com a brisa do cair da tarde no agreste alagoano, dona Carlinda Maria da Conceição, 67, parece esperar o trem ? que não vem. Mas se viesse, com certeza, ela não o perderia ? afinal, mora na estação ferroviária de Lagoa do Rancho, povoado de Arapiraca. Ela e a vizinha, Rosângela Maria da Silva, 33, são duas das mais de cem famílias de sem-teto que ocuparam prédios da extinta Rede Ferroviária Federal S/A (Refesa), privatizada em 1999. O trem de passageiros foi extinto na década de 1970 e o trem de cargas não circula há quatro anos, impedido de passar sobre a ponte no Rio Mundaú, no povoado de Lourenço de Albuquerque, a 40 quilômetros de Maceió, e sobre a ponte no Rio Canhoto na divisa de Alagoas com Pernambuco. Carlinda vive só e ocupou a sala que antes pertencia ao operador de telégrafo; Rosângela, casada, dois filhos menores, mora no antigo armazém. O marido, José Mário Julião da Silva, 47, é bóia-fria e sobrevive de biscates. Privatização A Rede Ferroviária Federal, criada na década de 1950 quando se esgotou o prazo de concessão para exploração da linha férrea pelos ingleses, era a estatal responsável pelo monopólio do transporte ferroviário no País; na década de 1970 o governo federal estendeu o direito à exploração de ferrovia para a Companhia Vale do Rio Doce, que era estatal. A Vale foi privatizada e se juntou com o Bradesco e o Grupo Votorantim (Antônio Ermírio de Moraes) formando a Companhia Ferroviária do Nordeste ? CFN ? e assumindo o controle da Refesa, igualmente privatizada. A área privatizada no Nor-deste, pela CFN, englobou a antiga Superintendência Regional 1, com sede no Recife, abrangendo Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e o Piauí. Mas apenas Pernambuco, Ceará e a Paraíba tiveram desempenhos considerados satisfatórios pela empresa, ou seja, têm possibilidade de a ferrovia ser lucrativa. O crescimento no volume de carga transportada na Paraíba, por exemplo, foi o maior. O patrimônio O espólio da Refesa herdado pela CFN compreende 6,5 mil quilômetros de via férrea, sendo 30% deles em Pernambuco, 30% no Ceará e os 40% restantes em Alagoas, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte. E mais: 2 mil imóveis entre prédios e terrenos, 88 locomotivas diesel e 400 vagões de cargas sólidas e líquidas. Mas metade das locomotivas está encostada à espera de reparos e peças e a maioria dos vagões apresentou problemas no sistema de freios. Em Alagoas são mais de cem imóveis espalhados à margem dos três troncos ferroviários no Estado ? um ligando Maceió ao distrito de Lourenço de Albuquerque, em Rio Largo, e os dois outros de Lourenço de Albuquerque até Porto Real do Colégio, divisa com Sergipe, e para Paquevira, povoado pertencente ao município pernambucano de Quipapá, na divisa ferroviária em São José da Laje. Mas a maioria desses imóveis está ocupado por sem-teto ou desabou com as chuvas - a Rede Ferroviária Federal alega que não tem condições de fiscalizar todos eles. ?A Rede tem vendido alguns desses imóveis. Posso citar, como exemplo, o terreno de vinte e duas tarefas no povoado de Bittencurt, município de Atalaia, vendido este ano por 18 mil reais?, contou o ferroviário aposentado Paulo Adriano da Silva, que reside em frente à antiga estação ferroviária do povoado. Ele lembra saudoso do tempo em que a Rede explorava o transporte de passageiros e de cana-de-açúcar. ?Naquele tempo havia emprego para todo mundo e não era preciso invadir o imóvel de ninguém. Não se falava em sem-teto?, contou.

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