Economia
Processo atual privilegia grandes empresas
Fernando Lira conclui que Alagoas tem muita dificuldade em adotar um novo padrão de desenvolvimento que resulte num processo de maior homogeneização da produção, da ocupação e da renda. Isto porque o padrão adotado é o agrário tradicional, que pela sua importância econômica e política acaba por definir o comportamento da agropecuária, da indústria, do setor de serviço e a atuação do setor público. ?Nesse modelo, a prioridade é a grande empresa ? com mais de 100 empregados ? pouca diferenciação da produção, baixa competitividade e relações de trabalho predominantemente informais, gerando forte exclusão social e um ambiente desfavorável aos pequenos e microempreendedores??, diz o professor. O economista adverte que o modelo de produção não-agrícola e agrícola dominante em Alagoas é um padrão fechado de consenso muito restrito, mas que subordina toda economia estadual, no que diz respeito à produção, relação de trabalho, ocupação, cooperação, inovação tecnológica, criação de redes e capacitação empreendedora. E alerta para o fato de que fora da microrregião de Maceió e das áreas dominadas pela cana, o Estado é um vazio econômico que ainda está por ser explorado de forma produtiva e empreendedora. A tudo isso some-se as políticas públicas verticalizadas e o assistencialismo que inibiram a capacidade de organização dos agricultores, inovação tecnológica, cooperação, formação de capital humano e um desenvolvimento com base nas condições locais do ambiente. ?Tudo depende das políticas macroeconômicas dos governos federal e estadual, que determinam as mesmas soluções de curto, médio e longo prazos, para realidades diferentes??, enfatiza o economista. Distribuição de renda Para Fernando Lira, um dos aspectos mais relevantes na economia de Alagoas é o elevado grau de desigualdade na distribuição da renda. Os números oficiais revelam que enquanto os 40% mais pobres têm renda média familiar per capita de R$ 38,00, os 10% mais ricos percebem R$ 796,00, ou seja, quase 21 vezes superior à renda dos mais pobres. Ele lembra que numa sociedade mais igualitária, o aceitável é que a renda dos 10% mais ricos não supere 12 vezes a renda dos 40% mais pobres. ?Esse elevado nível de concentração da riqueza e, em grande parte, responsável pelo também baixo nível de renda, altas taxas de analfabetismo na população e, por conseguinte, elevado grau de pobreza absoluta??. Lira considera ainda que a concentração da renda resulta da diferenciação dos salários pagos pelos setores público e privado, da elevada concentração da propriedade da terra, ausência de escolas públicas de qualidade, da segmentação do mercado de trabalho e, portanto, do próprio modelo de desenvolvimento. Para Lira, o padrão de desenvolvimento adotado no Estado não prioriza a educação como instrumento importante de distribuição e crescimento sustentável da renda. ?Sabemos que, entre os trabalhadores e pequenos empreendedores rurais e urbanos, a educação é um grande e importante atributo na produção, na organização e na gestão dos negócios. Por isso, quanto mais bem distribuído, esse atributo no interior da população, menor será a desigualdade dos rendimentos do trabalho e maior a capacidade empreendedora??. E mais uma vez os dados oficiais denunciam essa realidade: Alagoas detém a maior taxa de analfabetismo no campo e nas cidades, o que demonstra que o modelo econômico pouco valoriza a educação, concorrendo para a elevada desigualdade da renda e baixa mobilidade social, com alta incidência de pobreza e pouca acumulação de capital humano na população em idade ativa. ?A educação formal da população é importante porque, além de possibilitar novas perspectivas de ocupação, permite que os ocupados empregados ou pequenos empreendedores agreguem mais valor ao produto, melhore a organização, a gestão, o processo de produção e, sobretudo, perceba mais facilmente os canais de comercialização dos seus produtos??, ensina Fernando Lira.