Economia
Dificuldade de cr�dito faz o fiado voltar � cena
Na década de 1990, o famoso personagem João Canabrava ? interpretado pelo humorista Tom Cavalcante ? tinha como bordão a frase ?fecha a conta e passa a régua?. Os tempo eram outros, havia uma alta inflação e cartão de crédito era algo raro para a maioria das pessoas e estabelecimentos. Por isso, era comum que em mercearias e vendinhas de bairro o vendedor escrevesse item por item, valor por valor, em um caderninho e, ao final da compra, fazia-se um risco com a régua, indicando o valor total a ser pago. No final do mês, o comprador ia ao local e quitava as dívidas em aberto. Mas, assim como o hábito, a expressão também foi sumindo. Apesar disso, não se surpreenda se ao passar pela padaria do seu bairro você ouvir alguém usando o velho bordão do humorista. Quase trinta anos depois, o número de vendedores e compradores que estão voltando a fazer suas anotações em caderneta está crescendo, e pelo mesmos motivo de décadas atrás: dificuldade de crédito. Fazer um cartão de crédito não é tão difícil como antes, mas mantê-lo está mais complicado do nunca. De acordo com a Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), no mês de março, os juros médios do cartão de crédito alcançaram o patamar de 432,24% ao ano, o maior índice dos últimos 20 anos. E a tendência é que suba ainda mais. No comparativo mês a mês, os juros subiram de 7,77% ao mês em fevereiro para 7,89% em março, o que representa uma taxa média de 148,76% ao ano. Traduzindo os números, a conta é simples: se uma pessoa deve R$ 1 mil no cartão de crédito e não paga a despesa, ao longo de um ano a dívida vai crescer e atingir o valor de R$ 5,196 mil. Essa alta dos juros é um reflexo do cenário econômico atual, que se baseia no índices de inflação mais elevados, aumento de impostos e crescimento do desemprego. Porém, junto com o aumento dos juros, sobe também a inadimplência e a quantidade de pessoas que abandona o uso do cartão de crédito. É pensando no público que não tem mais o cartão de crédito, que não quer mais utilizá-lo ou não tem mais crédito, que muitos vendedores estão retomando o velho hábito do carnê e da caderneta. Um deles é o empresário Fernando José de Araújo, proprietário de uma drogaria na Avenida Comendador Leão, no bairro do Poço, em Maceió. ?O que a gente não pode fazer é deixar de vender, não é??, sugere Araújo.