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Vale do Munda� esconde pobreza e mis�ria

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FERNANDO ARAÚJO A região do Vale do Mundaú, que abriga mais de 200 mil habitantes distribuídos por sete municípios, dispõe de água em abundância, terras férteis e uma boa infra-estrutura de serviços, mas a maioria de sua população vive abaixo da linha de pobreza, beirando a indigência social. A pobreza extrema a que está submetida a região é fruto do modelo econômico focado na desigualdade social. O vale é dependente da monocultura da cana-de-açúcar e em meio a extensas terras esconde-se verdadeiro exército de miseráveis. ?Sem emprego nem renda, a maioria de sua população vive em situação de quase absoluta pobreza?, informa o economista Fernando José de Lira ao analisar as causas da estagnação econômica da região. Fernando Lira, que está concluindo um livro sobre o modelo de desenvolvimento de Alagoas, explica que a pobreza do Vale do Mundaú é historicamente conhecida, mas se agravou a partir da segunda metade dos anos 80, quando a economia nacional entrou em colapso, reduzindo drasticamente as transferências de recursos federais para estados, municípios e o setor privado. ??A partir daí - destaca o economista e professor da Ufal - o vale inicia o que viria a ser o mais grave período, enfrentando 10 anos de PIB negativo de ?1,8% ao ano, comprometendo o seu desenvolvimento econômico e social e colocando sua população na condição de indigente??. Para se ter uma idéia do grau de pobreza da região, basta dizer que 80% de sua população sobrevive com menos de meio salário mínimo de renda média familiar, com destaque para o município de Branquinha, onde essa situação de extrema pobreza atinge 90% das famílias. Em Alagoas, esse percentual chega a 44,43%. ?O Vale do Mundaú não possui um projeto que envolva todos os seus municípios e muito menos uma política voltada para a ocupação produtiva das pessoas em idade ativa??, lamenta o economista da Ufal. Monocultura Fernando Lira lembra que a economia desses municípios está centrada na agropecuária, com predominância da monocultura da lavoura canavieira e da pecuária, duas atividades que geram poucas ocupações e, no caso da cana, a demanda maior por mão-de-obra concentra-se em apenas cinco meses do ano. ?A pequena produção é pouco incentivada, apesar da vocação regional para o cultivo de lavouras que necessitam de pouca terra, como frutas e hortaliças. A grande produção gera um nível de ocupação muito baixo, com renda média familiar equivalente a 37,8% de um salário mínimo, o que resulta numa situação de quase absoluta pobreza?, destaca Lira. Para o economista, o modelo de desenvolvimento adotado tem privilegiado as atividades tradicionais de caráter patronal, em detrimento dos pequenos empreendimentos familiares. ?Esse modelo está esgotado economicamente e socialmente??, atesta Fernando Lira, ao constatar, mediante pesquisas do Sebrae, que a pequena produção é uma alternativa viável para o Vale do Mundaú. Como exemplo de pequena empresa que dá certo, ele cita os assentamentos de trabalhadores rurais, que mesmo com área média exígua de seis hectares, estão provocando um impacto social e econômico bastante visível. Ao analisar o ciclo dinâmico da monocultura da cana, Fernando Lira conclui que a lavoura canavieira é um dos pontos de estrangulamento do processo de de-senvolvimento não só do Vale do Mundaú, mas de toda a Região da Mata alagoana, ocupada há quatro séculos pela cana-de-açúcar. ?A diversificação agropecuária quebraria esse ciclo e geraria uma nova dinâmica, com mercado interno mais vigoroso e demanda aquecida o ano todo??, propõe. Ele também aponta a pecuária de corte de pequenos animais como alternativa factível na região, desde que seja praticada dentro da visão do agronegócio, ou seja, da cadeia produtiva.

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